Como “vi” a estréia da 4ª Mostra de Cinema de Direitos Humanos

Não sei se estou acordado ou virei sonâmbulo, mas tentarei contar as peripécias da noite de ontem na sessão de abertura da Quarta Mostra de Cinema de Direitos Humanos que aconteceu no Cine SESC da rua Augusta, em São Paulo.

Cheguei no Cine SESC passava um pouco das 19:30. O coquetel já estava rolando: salgadinhos, docinhos, Pró Seco a vontade… Estava um pouco perdido no meio daquele monte de gente, até que quase fui atropelado pelo Tuca Munhoz com sua cadeira de rodas motorizada (risos).

Salgadinho prá cá, docinho prá lá, champagne aqui e ali, o Maurício Santana passando o som com o Leonardo Rossi para se certificarem que ouviríamos a audiodescrição sem qualquer tipo de problema, O Munhoz me apresentando toda a turma da pesada dos direitos humanos, e o tempo passando, passando, passando, e nada das autoridades para que pudessem iniciar a sessão…

Em determinado momento, o Munhoz me apresentou o Rogério Sottili, que depois fiquei sabendo tratar-se do secretário adjunto da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, e, por falar na SEDH, ainda nada do ministro Paulo Vanucchi.

Finalmente, por volta de 21:30, uma hora de atraso, gente esperando até na calçada porque não cabia mais ninguém na ante-sala, vieram nos chamar para a sala de exibição. Deram-me um foninho daqueles de tradução simultânea que, por sinal, estava perfeito, e foi nesse momento que descobri que eu não era o único cego no evento: tinham mais três, mas eu não os conhecia. Estranho que, apesar de todos os filmes da mostra, inclusive os filmes brasileiros, terem legendas para as pessoas com deficiência auditiva, não havia nenhum surdo no evento pelo que me disseram.

Secretário de direitos humanos da prefeitura, secretário de justiça do estado, curador da mostra, diretores dos filmes, …, …, …, e nada do Vanucchi…

Já tinha perdido a esperança de poder entregar a carta que havia levado para o ministro Vanucchi, até que o Sottili veio conversar novamente com o Munhoz, então pensei: é agora! Entreguei a carta para o secretário adjunto que demonstrou estar sabendo de tudo sobre a pinimba entre Ministério das Comunicações, ABERT, Abra e os 25 milhões de brasileiros que querem e precisam da audiodescrição no cinema, no teatro e, lógico, na televisão… O secretário adjunto demonstrou receptividade quando falei que queria a audiodescrição em toda a mostra…, em todas as edições, em todos os filmes, em todas as sessões e em todas as cidades contempladas com a mostra. Bom, ele me garantiu que a carta seria entregue para o Vanucchi…

Obs: não deixe de ler a íntegra da carta no final desse post!

Finalmente, o mestre de cerimônias começou a chamar as autoridades para a mesa. Mesa? Discursos? Naquela hora o filme já deveria estar na metade… E, surpresa, o Vanucchi estava lá!

Depois de cinco discursos, e eu esperando que alguém se lembrasse de falar da acessibilidade, da audiodescrição, das legendas, e nada… veio a fala do Vanucchi e eu pensei: ele não vai se esquecer! Bom, ele também se esqueceu, mas pelo menos se lembrou de falar que amanhã começa o Festival Assim Vivemos, citando como uma mostra específica sobre direitos das pessoas com deficiência. Mas, para fazer justiça, não deixem de ler o post anterior deste blog, que contém links para duas entrevistas em áudio nas quais o ministro Vanucchi e o Chiquinho, curador da mostra, falam do evento e da audiodescrição.

Terminados os discursos, as autoridades foram convidadas a deixarem a mesa, e eu pensei: tchan, tchan, tchan, que nada, mais discursos…, agora dos diretores dos filmes Cocais (curta metragem) e Unidade 25 (longa).

Já estava quase caindo pelas tabelas quando começou o primeiro filme, acho que estou perdendo o pique para grandes baladas… Me arrumei na cadeira, aumentei o volume do foninho, me preparei para acompanhar o trabalho do pessoal da Iguale ( http://iguale.com.br/ ), responsáveis pela produção das legendas e da audiodescrição de alguns dos filmes da mostra.

Logo de início, a voz compenetrada e ao mesmo tempo tranqüila do Leu entrou pelos foninhos descrevendo todas as cenas do filme Cocais que seriam impossíveis de serem compreendidas pelas pessoas cegas, aliás, praticamente o filme todo seria incompreensível para nós porque ele quase não tem diálogos: a mulher banguela…, um senhor negro dança de forma exagerada balançando o corpo para frente e para trás…, o desfile na passarela em forma de “T”…, a senhora vestida de noiva…, o casal fumando sentados na escada…, enfim, um show de audiodescrição que me fez sentir como se estivesse “””vendo””” o filme… Logo me admirei com a precisão das entradas do Leu, principalmente porque a audiodescrição, apesar de previamente roteirizada, estava sendo feita ao vivo. Impressionei-me porque pela sonoplastia, entradas de músicas e demais efeitos sonoros do filme, pude perceber que a locução audiodescritiva estava acompanhando as cenas com um sincronismo perfeito. Engraçado que, para alguém que achou a audiodescrição uma coisa um pouco estranha no primeiro filme que assisti com o recurso, hoje sinto uma falta tremenda quando ela não está presente e já sou capaz de perceber até sutilezas no trabalho dos audiodescritores…

Terminado o Cocais, chegou o momento tão esperado de assistirmos o argentino Unidade 25, um filme que conta a história de como se faz a ressocialização e reeducação dos presos internados nessa unidade prisional. Minha expectativa, mais até do que o próprio filme, era ver como o pessoal da Iguale iria se virar para fazer a audiodescrição e, ao mesmo tempo, a tradução do filme falado em espanhol, e tudo ao vivo…

Novamente me surpreendi com a qualidade do trabalho do pessoal da Iguale: o roteiro da audiodescrição, feito a quatro mãos pelo Maurício e o Leu ficou muito bom, o sincronismo do Leu na descrição das imagens continuou perfeito e, principalmente, a coordenação e o sincronismo do Leu com o Washington que fazia a tradução dos diálogos foi impressionante, até parecia um trabalho gravado no qual se podem corrigir os erros, e eu não percebi nenhum…

Terminado o filme, e já na calçada da rua Augusta conversando com o Maurício enquanto esperava um táxi, o Francisco César Filho, o Chiquinho, curador da mostra, aproximou-se de nós e começamos a conversar sobre o Unidade 25, sobre a audiodescrição, como a arte e a técnica da audiodescrição podem se integrar,… Minha vontade era passar o resto da noite com os dois em uma mesa de bar, mas já passava de meia noite e eu estava no bagaço, principalmente para uma segunda-feira(!), e hoje ainda vou continuar me embriagando de audiodescrição porque fui convidado para a pré-estréia do Festival Assim Vivemos que acontece hoje no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo.

Não percam, amanhã eu conto!

Vejam agora a carta para o ministro Paulo Vanucchi:

Carta ao Ministro Paulo Vanucchi

Brasil,outubro de 2009.

Exmo Sr Paulo Vanucchi
Ministro da Secretaria Especial de direitos Humanos da Presidência da República.

Sr Ministro,

Respeitosamente, dirigimo-nos a V. Exa em agradecimento à iniciativa da SEDH de promover a Quarta Mostra de Cinema de direitos Humanos da América do Sul contemplando o recurso de acessibilidade da audiodescrição em algumas sessões, em alguns filmes e em algumas cidades.

Temos a esperança de que, já no próximo ano, a 5ª Mostra de Cinema de Direitos Humanos já possa contar com a audiodescrição em todas as sessões, filmes e cidades em que forem apresentados.

Aproveitamos a oportunidade para também solicitar de V. Exa que interceda junto ao Ministério das Comunicações, em conformidade com o que determina o Art. 53, § 3º do Decreto 5296/2004, para fazer que os interesses comerciais das emissoras brasileiras de televisão e os direitos humanos das pessoas com deficiência sejam igualmente respeitados, e que a nova Norma Complementar que vier a ser publicada pelo Minicom não suprima direitos já conquistados pelos 25 milhões de brasileiros com deficiência.

Segue anexo carta aberta que foi entregue em mãos ao ministro Hélio Costa.

AUDIODESCRIÇÃO JÁ

Carta Aberta ao Ministro das Comunicações pelo Direito À Audiodescrição na Televisão Brasileira

Brasil,setembro de 2009.

Exmo Sr Hélio Costa
Ministro das Comunicações

CARTA ABERTA PELA AUDIODESCRIÇÃO NA TELEVISÃO BRASILEIRA

Os 25 milhões de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência aguardam ansiosamente providências a respeito da implementação do recurso da audiodescrição na programação das emissoras de televisão aberta brasileiras.

Respeitosamente nos dirigimos a V. Exa para exigir o cumprimento da Agenda Social da Presidência da República, do Decreto Legislativo 186/2008 e Decreto nº 6.949/2009 que promulgaram a Convenção Sobre Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas – que vigora no Brasil com equivalência de emenda constitucional.

Esta convenção determina, ao tratar da participação na vida cultural, entre outras coisas, em seu artigo 30 que:

1. Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência de participar na vida cultural, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, e tomarão todas as medidas apropriadas para que as pessoas com deficiência possam:
a. Ter acesso a bens culturais em formatos acessíveis;
b. Ter acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais, em formatos acessíveis;

Solicitamos a V. Exa. que restaure a vigência da Portaria 310/2006 em seu inteiro teor, sem supressão de direitos.

AUDIODESCRIÇÃO JÁ!

Mais sobre audiodescrição
Nós, os participantes do foro regional América Acessível: Informação e Comunicação para Todos, realizado em
Uma demanda da comunidade cega e das pessoas com deficiência visual consumidoras de televisão por
A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) e o Ministério da Cultura


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