Revista CONTATO, do LARAMARA, Estréia Com Artigo Sobre Audiodescrição

Ssssshhh…. A sessão de cinema vai começar. Dessa vez, porém, o público presente ao auditório pede silêncio não só para ouvir os diálogos dos atores como também para saber, com riqueza de pormenores, tudo o que as imagens na tela estão mostrando.

Para quem não pode enxergar, ou tem baixa visão, cinema falado tem outro sentido: é a única maneira pela qual poderá entender o contexto da conversação, a atmosfera da ação e os detalhes de informação que, somados, contam integralmente a história mostrada pelo filme.

"A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, palestras e outros, possibilitando que essas pessoas ouçam o que é apreciado visualmente. É, pois, a arte de transformar imagens em palavras, o que abre muitas janelas para o mundo para as pessoas com deficiência visual", explica Lívia Motta, professora doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo, que trabalha na formação de audiodescritores, na divulgação do recurso para professores, profissionais de outras áreas e familiares de pessoas com deficiência visual." Desde 2007, ela realiza a audiodescrição dos filmes da Laramara.

Neste ano, a psicóloga Rosângela Barqueiro, há onze anos atuando também como diretora de Relações Institucionais da associação, passou a contribuir com esse trabalho após fazer o curso sobre a técnica ministrado por Lívia, na Vivo. O recurso permite conhecer os cenários, figurinos, expressões dos atores, a linguagem corporal e a entrada e saída de personagens de cena utilizados em programas de televisão, no cinema, teatro, museus e exposições. Graças a ele, as pessoas com deficiência visual têm a possibilidade de participar ativamente da vida cultural.

Para o psicólogo Francisco José de Lima, professor adjunto e coordenador do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco, a audiodescrição resgata uma prática comum na infância a crianças com e sem deficiência visual. "Quando a mãe pega o livro para contar a história de Chapeuzinho Vermelho, ela descreve a Chapeuzinho – e não apenas se refere a ela", explica. Graças a isso, a criança forma uma imagem mais completa do personagem e absorve melhor as informações. "Descrições são importantes, ainda mais para a pessoa com deficiência visual. Imagine a seguinte situação: alguém com cegueira pergunta ‘você viu minha irmã?’, e você responde indagando: ‘como é sua irmã?’ Para explicar, ela terá de descrevê-la a partir de suas características estéticas. Mas quantas informações estéticas as pessoas com cegueira têm sobre outros indivíduos? Ao ouvirem a voz do Lula no rádio, quantas pessoas cegas sabem como é o presidente? E quantas sabem como é a Laramara, a Catedral da Sé?"

Lima, que tem cegueira, ressalta ainda que em uma conferência as pessoas que não enxergam tendem a virar-se em direção ao som, onde há caixas que o distribuem no ambiente e não necessariamente para os conferencistas. "Tomar conhecimento do local em que está o palestrante permite que se voltem para a direção certa. É uma questão de dignidade, de respeito a esse público", afirma.

Também cego, Paulo Romeu Filho, analista de sistemas da Prodam – Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo, chama a atenção sobre a demora para esse recurso de acessibilidade ser tratado como prioridade. "A audiodescrição é uma novidade no Brasil, mas nos Estados Unidos existe desde a década de 1980", afirma. "Também é feita no Canadá, Inglaterra, Portugal, Espanha, França, Alemanha e Japão. A Lei nº 10.098/2000 prevê acessibilidade também nos meios de comunicação, sejam ou não de massa. Falta ser cumprida." A lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.296/2004, que detalha esse tema e inclui a audiodescrição como um dos recursos de acessibilidade para a televisão. O Ministério das Comunicações publicou, em 2006, a Portaria 310/2006, exigindo a implementação da audiodescrição, legendas para pessoas surdas e dublagem de todos os tipos de programas. Ela estabeleceu um cronograma de implantação do recurso, observados os prazos e requisitos técnicos necessários para tornar a programação das TVs abertas acessível para pessoas com deficiência. O início da audiodescrição se daria no prazo de dois anos, levando em consideração o tempo que as emissoras precisariam para promover as adequações necessárias.

A lei exige que as emissoras de TV disponibilizem a audiodescrição em sua programação, mas elas resistem a se tornar acessíveis.

Ficou estabelecido um escalonamento progressivo da quantidade diária de programação que deveria ser transmitida com os recursos de acessibilidade previstos, de tal modo que a partir de 27 de junho de 2008 as emissoras estariam obrigadas a produzir apenas duas horas diárias de programação acessível, aumentando a carga diária um pouco a cada ano até que, em uma década, a totalidade da programação seria gerada com os recursos de acessibilidade. "Mesmo considerando todos os prazos e escalonamentos, não houve qualquer ação por parte das emissoras de televisão", afirma Paulo Romeu. O prazo venceu em junho de 2008. Alguns dias antes dessa portaria entrar em vigor, a Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e a Abra – Associação Brasileira de Radiodifusores, que representam as emissoras de televisão, enviaram ofício ao Ministério das Comunicações dizendo que poderiam fazer tudo, menos a audiodescrição. "Hoje, no Jornal Nacional, na novela e em alguns outros programas, se você ativar a tecla closed caption verá legendas disponíveis para surdos. Porém, se ativar a tecla SAP não ouvirá nada. Ela é que deveria ser usada, na TV analógica, para transmitir com audiodescrição", diz ele. "Na TV digital, a audiodescrição deveria estar disponível ao se apertar a tecla idioma do controle remoto. As justificativas usadas pelas emissoras para não fazer a audiodescrição foram tantas que seria necessária uma reportagem inteira apenas para falar sobre isso. A razão mais importante, sem dúvida, é comercial." A negativa das TVs gerou uma série de pressões ao Ministério das Comunicações, de entidades de defesa das pessoas com deficiência e emissoras, num braço de ferro que fez cair, voltar e ser suspensa a exigência da audiodescrição. "O Ministério não pode descumprir a lei, sob pena de violar garantias asseguradas na Convenção da ONU sobre os direitos da pessoa com deficiência, ratificada pelo Congresso Nacional com força de emenda Constitucional. O que está se discutindo hoje não é se a audiodescrição vai ou não acontecer. Eles querem discutir a quantidade e o tipo de programação que terão audiodescrição. Para nós, isso é um absurdo: a audiodescrição tem de estar disponível em toda a programação", afirma.

Além dessa questão, a formação de audiodescritores centraliza a atenção de profissionais que utilizam o recurso em suas áreas de atuação. Uma delas é a professora Eliana Franco, doutora em Letras e Linguística, com pós-doutorado em Tradução Audiovisual, coordenadora do grupo de pesquisa TRAMAD (Tradução, Mídia e Audiodescrição) e vice-presidente da ABRAPT – Associação Brasileira de Pesquisadores em Tradução. Ela explica que esse novo profissional não deve ser confundido com dubladores.

"O dublador precisa entrar na pele do personagem, ele é o personagem. O audiodescritor narrador, não. Ele está fora da história", explica. "Mas tem de aprender a seguir o ritmo da história. Imagine um filme de ação em que o audiodescritor não consegue sair de um ritmo lento de narração. Não funciona, certo? E há diferentes funções na audiodescrição. Uma pessoa pode ser boa roteirista, mas não ser boa narradora – ou o contrário." Segundo ela, a linguagem também deve ser coerente com o gênero. "Filmes de época pedem que a audiodescrição seja feita em tons adequados, mais formais. O mesmo não pode acontecer com um filme supermoderno, cheio de gírias. O roteiro de audiodescrição tem de acompanhar cada tom."

FORMAÇÃO DE AUDIODESCRITORES

O grupo de trabalho de Eliana Franco revisou o roteiro de audiodescrição do filme Ensaio sobre a Cegueira, baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago. "Por conta dos prazos apertados, tivemos apenas dois dias para revisar o roteiro. E não pudemos participar do processo de gravação, que foi realizado por um laboratório de dublagem. Como as dinâmicas são completamente diferentes, houve problemas. Há uma cena, por exemplo, em que o ator Danny Glover segura um radinho de pilha, e o dublador leu ‘ratinho’. Quando ouvi aquilo, chequei o roteiro, pois pensei que pudesse ter digitado errado – por pressa ou mesmo cansaço. Mas não, foi erro de dublagem.

Eliana Franco trabalha com formação de audiodescritores na Universidade Federal da Bahia. Lívia Motta, em São Paulo. Outros profissionais que trabalham com audiodescrição e formação de profissionais são Vera Lúcia Santiago, na Universidade Estadual do Ceará e Federal de Minas Gerais, Francisco Lima, na Universidade Federal de Pernambuco, Bel Machado, em Campinas, Graciela Pozzobon, no Rio de Janeiro, e Lara Pozzobon, responsável pelo festival "Assim Vivemos", com filmes sobre o tema da deficiência – acessíveis, desde 2003, para pessoas com surdez e com cegueira, e que este ano aconteceu em São Paulo, de 7 a 11 e 14 a 18 de outubro, no Centro Cultural Banco do Brasil.

"Iniciei um curso de formação de audiodescritores na Laramara, para 26 alunos funcionários. Em breve, haverá uma segunda turma aberta também para pessoas de fora, o que certamente poderá contribuir para a maior divulgação e valorização do recurso", conta Lívia Motta. "Tam­bém faço a formação dos audiodescritores do Teatro Vivo, o primeiro teatro brasileiro acessível para pessoas com deficiência visual, e ainda o único a contar com audiodescrição em todas as peças que lá são apresentadas. Tenho feito a elaboração de roteiros para os mais diversos gêneros de espetáculos, dentre eles: filmes, documentários, comerciais, óperas, o espetáculo de dança do grupo inglês de dança: Candoco Dance Company, e até de um desfile de moda, que aconteceu no I Encontro de Estilo, Elegância e Moda, realizado pela Fundação Dorina No­will, em outubro."

CINEMA NA LARAMARA

Em 2000, a Laramara passou a realizar Sessões de Cinema Narrado para grupos de jovens e adultos. As narrações eram feitas pelo voluntário Carlos Alberto Barbosa, que depois foi professor do Telecurso da Laramara. A partir de 2002, essas sessões passaram a ser realizadas de forma mais sistematizada. Nesse mesmo ano, no lançamento do documentário Janela da Alma, um grupo de 100 pessoas (entre profissionais e usuários da Laramara) assistiu ao filme no Espaço Unibanco. Usando o sistema de som, o professor Carlos Alberto fez a narração e Cecília Maria Oka contribuiu na leitura das legendas. Também em 2002, realizaram-se quatro Sessões de Cinema na instituição e a experiência foi apresentada em uma reunião da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, onde foi discutida a narração/descrição. Os filmes eram inicialmente escolhidos pelos alunos e profissionais, sendo que estes últimos assistiam previamente à história e faziam a narração. "Ao longo dos anos, realizamos pesquisas sobre o assunto e o trabalho foi sendo desenvolvido. Elaboramos roteiros que serviam como referência para a narração, mas que não eram lidos", conta Cecília Oka. A narração/descrição era feita sempre por duas pessoas, ao vivo. "Inicialmente, apresentávamos a sinopse, o contexto histórico e cultural do filme e as personagens (no caso de filmes para crianças, utilizávamos brinquedos). No final de cada filme, sempre abrimos espaço para um bate papo."

Além de Cecília, outros profissionais envolvidos foram Anderson Almeida Batista, Edinéia Santana, Erica Cristina Takahashi da Silva, Isabel Cristina Dias Bertevelli e Nicomedes Nascimento – o ator Ernando Tiago também participou de sessões. A partir de 2007, Lívia Motta passou a fazer a audiodescrição dos filmes da Laramara de forma profissional. Em 2009, Rosângela Barqueiro passou a contribuir com esse trabalho após fazer o curso de audiodescrição. Lívia e seus alunos preparam o roteiro dos filmes, e a audiodescrição é aberta e realizada ao vivo. "Nas próximas sessões, faremos a audiodescrição com o recurso da frequência de rádio, possibilidade descoberta pelo funcionário da Laramara Claudinei Aguiar Monteiro", diz Cecília Oka.

EXPOSIÇÕES DE ARTE

Uma outra experiência vivida pelas pessoas com deficiência visual na Laramara, em relação à audiodescrição, diz respeito ao acesso às Artes Plásticas. Foi iniciada no ateliê de artes, no final dos anos 1990, pelos professores Paulo Pitombo e Álvaro Picanço, nas visitas às Bienais de Arte de São Paulo (com destaque para a 28ª, da qual a Laramara participou na instalação do artista Alexander Pilis que gravava as impressões das pessoas com deficiência visual a partir da audiodescrição) e aos acervos e exposições itinerantes da Pinacoteca do Estado, Masp, Museu Lasar Segall, entre outros. Essas vivências passaram a significar a possibilidade de decodificação, nas palavras do arte-educador e artista plástico Paulo Pitombo, referindo-se à apropriação da obra de arte pelas pessoas com deficiência visual por meio do processo de descrição objetiva, seguida das outras etapas de leitura de imagem: a análise, a interpretação e a contextualização, sendo que esta última, diferentemente do teatro e do cinema, pode vir após a fruição (contato com a obra). Esta é uma forma de garantir às pessoas com deficiência visual o acesso e o contato, permitindo que cada uma faça sua própria interpretação, conforme seu conhecimento de mundo e sensibilidade.

Segundo Pitombo, nas chamadas artes visuais é fundamental que o audiodescritor – monitores dos museus ou professores de artes – tenha intimidade com a obra, oferecendo o detalhamento necessário à assimilação dos dados objetivos sem furtar, a quem contempla, a poética que convida à imaginação.

Para Rosângela Barqueiro, a meta é viabilizar a médio e longo prazos a audiodescrição dos artigos, DVDs e livros já produzidos pela Laramara, para que as pessoas com deficiência visual tenham acesso a este importante acervo técnico. A capacitação de profissionais da instituição para a utilização desse recurso trará um grande ganho em qualidade e garantirá a inclusão da audiodescrição nas atividades oferecidas a crianças, jovens e adultos com deficiência visual, bem como aos familiares e educadores.

SESSÕES JÁ REALIZADAS

Desde 2002, a Laramara fez 17 exibições de cinema com audiodescrição. Confira a lista:

2009 Marley & Eu, Happy Feet

2008 Pro Dia Nascer Feliz, A Marvada Carne

2007 Saneamento Básico, O ano em que meus pais saíram de férias

2005 Ilha das Flores, Atrás da Porta (

curta-metragem: Olga

2004 Abril Despedaçado, O Homem que Copiava, Uma Lição de Amor, Procurando Nemo

2003 Cidade de Deus

2002 A Fuga das Galinhas, O Tigre e o Dragão, Bicho de Sete Cabeças, O Incrível Exército de Brancaleone

Fonte: Revista Contato – LARAMARA

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