Técnica Permite Acesso De Cegos Ao Cinema

Cerca de 14,5% da população brasileira tem algum tipo de deficiência, segundo o censo 2000 do IBGE. A garantia de direitos a toda pessoa, o que inclui essa parcela da população, é algo muito recente, iniciada de forma mais consistente apenas na segunda metade do século 20. Os direitos primordiais foram temas das primeiras lutas, como acesso aos prédios públicos e à educação.

As conquistas das pessoas com deficiência foram expandidas a mais direitos, como o acesso à cultura, que é uma luta recente e que já tem suas vitórias.

A luta por acesso aos bens culturais levou cinemas a serem adaptados com rampa, para cadeirantes, e a televisão com a legenda oculta ou tradução na linguagem brasileira de sinais, para deficientes auditivos. Mas o acesso de pessoas cegas e com baixa visão às produções culturais ainda não é satisfatório.

A audiodescrição é uma técnica que surgiu como serviço específico para a descrição das cenas para as pessoas com deficiência visual. Um recurso que permite a inclusão dessas pessoas no cinema, no teatro e em programas de televisão.

Pioneirismo – A atriz carioca Graciela Pozzobon é uma das grandes incentivadoras da divulgação da técnica no Brasil. Ela atua principalmente na produção de roteiros audiodescritos para o cinema. No momento em que o filme dá brechas é que o audiodescritor age e, de forma resumida, relata o que de visual está na cena e que é importante para a compreensão do filme.

O trabalho de Graciela como audiodescritora começou em 2003, quando se dispôs a realizar, de forma pioneira, a técnica para o Assim Vivemos, Festival Internacional de Filmes Sobre Deficiência. "Na época, tinha pouquíssimo material audiodescrito. No Brasil, não tinha nada", ressalta. Mas seu contato com o público cego começou em 1999, quando atuou como personagem cega no curta Cão-Guia, filme muito premiado e para o qual ela precisou ingressar no universo das pessoas cegas: "Ganhei uma bengala, uma faixa para os olhos e participei das aulas de reabilitação, de como se orientar nas ruas". E complementa: "Não basta fechar os olhos e achar que está como uma pessoa cega Ela adquire muitas outras coisas quando não vê mais. É preciso um trabalho específico".

A produção de um roteiro para a audiodescrição é um trabalho cuidadoso. Para Graciela, é a parte mais difícil no trabalho da audiodescrição. "É o mais detalhado, mais demorado e mais complexo", afirma. O trabalho consiste em preencher apenas os espaços sem diálogo ou sem ruído. "A audiodescrição precisa ter harmonia com o filme. É preciso um grande poder de síntese e noção de como as informações podem ser dadas de forma clara, percebendo o foco principal de cada cena", acrescenta.

Imagens em palavras – Algumas das regras principais da audiodescrição é não antecipar, não julgar e nem tentar explicar o filme. O audiodescritor tem de ser fiel ao exposto na tela. "Não posso dar minha opinião e nem informações subjetivas, como "o homem está emocionado", mas se ele está chorando, por exemplo", destaca. Ela conta que num filme, certa vez, disse que o rapaz estava sentado ao lado da mãe, mas essa informação, ela sabia por ter assistido o desenrolar das cenas. "Eles não querem ser tratados como se não fossem capazes de entender. Que seja dada a informação na hora que o filme der", ratifica.

O trabalho do audiodescritor deve ser dinâmico, com um aprendizado ligado à realidade das pessoas com deficiência visual. "Vou sempre aos meus amigos cegos e converso com eles. É muito rico esse diálogo", confessa Graciela. Aos que questionam sobre o fato de a audiodescrição se parecer ao livro lido, ela explica que no filme há uma combinação de sons e ruídos e também o fato de se estar no cinema, ouvindo com um som alto. "São muitas informações e são dadas de diferentes formas".

No contato com as pessoas cegas, Graciela afirma que as percebe apaixonadas pelo acesso às produções audiovisuais. "A audiodescrição é libertação. Eles passam a ter independência, por ter um serviço específico para eles", comemora. Segundo ela, os cegos querem a técnica em mais produções, como na novela, na minissérie e no DVD. "É um movimento que não tem volta", profetiza.

Dia-a-dia – Maria Eunice Soares Barboza é coordenadora da Biblioteca Braile José Álvares Azevedo, em Goiânia. Ela tem baixa visão e diz que a relação das pessoas com deficiência visual como cinema em Goiás ainda é distante: "As pessoas, em geral, não têm o costume, e mais ainda os cegos".

Ela ainda acrescenta o "risco" de também não entender nada no cinema. Sobre a audiodescrição, ainda presente apenas de forma pontual em Goiás, ela vê como positiva: "Quando eu assisto a um filme, ficam muitas partes que eu não entendo, no geral, consigo entender, que é prejuízo. A audiodescrição ajuda bastante".

A gestora pública Mônica Leal é cega e explica seu contato com o cinema sem o recurso da audiodescrição: Se for de muita ação é mais difícil acompanhar, porque tem muitas cenas sem diálogo e as coisas acontecendo, aí não dá pra gente acompanhar. Se for um filme mais tranqüilo, que tenha mais diálogo, é melhor para assistir". A partir de seu contato com a técnica da audiodescrição, ela decreta: "A audiodescrição é o caminho, porque dá para ir ao cinema. Alguém descrevendo ajuda muito".

Luta por acesso – Existe uma norma complementar (01/2006) que regulamenta a Lei da Acessibilidade (10.098/00) e prevê a audiodescrição na TV Brasileira, mas ela não foi implementada ainda. Ela obriga as televisões abertas nas cidades com mais de um milhão de habitantes a colocar audiodescrição em pelo menos duas horas da programação (uma hora de manhã e uma à noite). A lei determinava que dois anos depois da criação deveria obrigatoriamente ser cumprida. Isso teria ocorrido em julho deste ano. Antes disso, as empresas, por meio da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), entraram com pedido de suspensão, alegando que não tiveram tempo para se adequar, que a tecnologia é cara e que não havia profissionais audiodescritores suficientes.

Numa reunião, da qual participaram audiodescritores, pessoas cegas e representantes da Abert ficou acordado o prazo de mais 90 dias. Houve capacitação de mais profissionais para trabalhar com audiodescrição. No fim do mês de outubro, o ministro Hélio Costa publicou uma suspensão, sem qualquer alegação, no dia 30 de outubro. Suspendeu por tempo indeterminado e abriu uma consulta pública.

"Está nesse ponto agora. Todos estão se organizando com ações em várias instâncias para tentar reverter isso", explica Graciela. Em alguns países, como Alemanha, Reino Unido, Espanha e Estados Unidos, leis regulamentam a audiodescrição na televisão. "Quase toda programação da BBC já tem acessibilidade", acrescenta Graciela. Nem mesmo a TV Brasil, emissora pública, colocou o recurso ainda, lembra a audiodescritora.

Pelo fato de o acesso às empresas de comunicação ser ainda complicado, foi criada uma página na internet especializada em filmes com audiodescrição, o Blindtube, no qual estão disponibilizados vários curtas-metragens. "A Internet é um lugar mais amplo, já que ainda não se tem disponibilidade na TV ou no DVD", explica Graciela.

COMENTÁRIOS

11/12/2008 – Marcelo Igor – Goiania

Obrigado pelos elogios. Acredito que coisas como essas têm de vir à tona!

11/12/2008 – Inho – Bahia

Você foi muito feliz nesta reportagem. Dizem que o governo gasta mais de R$ 1.700,00 por mês com um criminoso/bandido. Os brasileiros perguntam quanto o mesmo governo investe no cidadão honesto que é cego e quer estudar, aprender uma profissão. Nesta linha de raciocínio, o mesmo governo que gasta tanto dinheiro com o criminoso deveria investir na educação do cidadão mais de R$ 5.000,00 por mês para a profissionalização dos cegos.

11/12/2008 – Jose Maria – São Paulo

Marcelo Igor, gostei muito da sua reportagem, pois você provoca um debate para os excluídos pela Sociedade, que está investindo muitos milhões para reparação da escravidão no Brasil (nada contra), e esquece que o verdadeiro dono do Brasil é o Índio, que foi praticamente exterminado pelos brancos. Voltando ao nosso tema exclusão dos CEGOS, SURDOS, MUDOS, SÍNDROME DE DOWN, estes ninguém fala em inclusão. Imagine como sofrem estes cidadãos que não têm o direito nem de estudar, pois desconheço a disponibilização, por parte do governo, de livros didáticos tais como Bíblia, Marx, Corão, teoria quântica escritos em brile/libra para mais de 28 milhões de brasileiros que não são considerados como cidadãos, e fazem parte desta legião de excluídos (só quem tem um destes excluídos na família sabe das dificuldades que enfrentam). Muito boa a sua reportagem, e esclarece que podemos incluir os cegos no seio da sociedade como uma pessoa normal que pensa, age, e interage no meio humano.

Marcelo Igor – wiki repórter

Goiania – GO

Fonte: Cultura – Brasil Wiki

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