Izabel Maior fala sobre acessibilidade e as novelas.

A coordenadora da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa com Deficiência (Corde) da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Isabel Maior, enfatiza, em entrevista a Terra Magazine, a importância de telenovelas no que considera ser "mudanças culturais" do país.

Izabel Maior - Coordenadoria Nacional Para Integração da Pessoa Com Deficiência

Terra Magazine – Qual é a importância das telenovelas na integração de pessoas portadoras de deficiências no Brasil?

Isabel Maior – Novela é uma das manias brasileiras, arrisco dizer que tanto quanto futebol. Portanto, acredito que seja também uma das maneiras de a sociedade tomar contato com coisas que ficam escondidas e tidas como tabus. A novela é, portanto, uma das formas de se alcançar uma mudança cultural. Isto é de grande importância para a diversidade como um todo, seja discussão sobre cor, drogas, ou sobre grupos comunidades como a dos quilombolas. Cada vez mais, os autores têm procurado conhecer e incluir de maneira muito mais correta do que já foi feita no passado.

TM – Na rádio-novela, por exemplo?

IM – Teve uma novela chamada Direito de nascer. Nas novelas, as pessoas ruins eram castigadas e habitualmente era através da morte ou se tornando pessoas com deficiências. Isto deseduca, era colocado dentro da cabeça das pessoas. Anteriormente a situação era quase que oposta a de hoje. Na maior parte das novelas que tinham o tema, o personagem com a deficiência a perdia ao final da novela, como um prêmio se fosse uma pessoa boazinha. Isso era ainda mais visível nas novelas. Não é obrigatório que a pessoa não tenha mais a deficiência porque chegou ao final da novela. Isso é uma visão incorreta e de maneira nenhuma ajudam a desenvolver a consciência correta.

TM – E ultimamente, os autores têm inserido mais a temática?

IM – Nessa esteira de responsabilidade social proeminente das novelas, é que estão abordando de uma maneira mais condizente com a realidade. A pessoa com deficiência faz parte da sociedade. A novela das sete tem uma personagem com deficiência visual e a própria atriz é deficiente visual.

TM – As pessoas com deficiência se sentem bem "representadas", ficam incomodadas?

IM – Tenho visto movimentos de pessoas com deficiências, entidades e organizações não governamentais e a própria Secretaria Especial dos Direitos Humanos observamos com admiração, pois o tema está sendo tratado de forma correta e sob orientação das próprias pessoas com deficiência. Autores e atores fazem consulta às pessoas com deficiência, existe interação entre as novelas e os setores com deficiência.

TM – E o que a senhora acha de artistas com deficiência estarem desempenhando seus papeis em novelas?

IM – Isso é uma situação muito nova e mais interessante ainda. A atriz interpreta tão bem uma personagem cega por ser naturalmente cega. Nos primórdios, para que as personagens fossem negras, os atores brancos eram pintados de preto. Até agora, a maior parte de pessoas com deficiência em novelas tem sido interpretado por pessoas que não as têm. E agora, com a atriz cega, vemos uma forma de aprimoramento. É claro, se abordagem for incorreta, o efeito será inverso e reforçará os preconceitos.

TM – De maneira geral, não especificamente nas novelas, a senhora acredita que a abordagem da temática é feita de maneira a evitar o preconceito?

IM – Recentemente recebemos uma denúncia. Não em relação às pessoas com deficiência, mas em relação ao LGBT. Há uma série de locutores de televisão, de programas de variedades, que usam de maneira pejorativa e absolutamente desrespeitosa a imagem de pessoas desse grupo. Isto reforça o preconceito e discriminação é crime. Novelas, mini-séries, filmes e seriados geralmente têm mais cuidado. Mas esse tipo de programa de auditório e variedades é muito descuidado.

TM – Tem algum tema sob uma das deficiências, sejam elas intelectuais ou físicas, que não consigam ser abordados?

IM – Surpreendentemente, até mesmo a deficiência intelectual foi bem retratada. Numa novela em que a Regina Duarte adotou uma filha com síndrome de Down. Ela realmente passou pela mesma via-crúcis que uma mãe ainda tem que passar: a falta de aceitação das matrículas nas escolas de crianças com algum tipo de deficiência. A definição de política de educação é a inclusiva, ou seja, a novela retratou esse momento de transição, em que se discutia esse assunto.

TM – A senhora, então, não acredita que haja um tema que não seja "abordável"?

IM – Eu sinto um pouco de falta de ser contada a vida, o dia-a-dia, de uma pessoa com deficiência auditiva, ou o uso da língua brasileira de sinais. É um conjunto de pessoas que tem dificuldade de se comunicar através da oralidade.

TM – Como é a comunicação com as emissoras de televisão e autores de novelas?

IM – Não temos canal formal de interlocução. Normalmente atuamos, como instância de governo, prestamos qualquer tipo de consultoria solicitada. A própria sociedade civil se representa. Aconteceu muito na novela América, em que Marcos Frota fez o papel de uma pessoa cega. Naquela ocasião o presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência, Adilson Ventura, é uma pessoa cega, então ele próprio muitas vezes transmite sua experiência. Prefiro em especial que a própria sociedade civil se manifeste.

Não procuramos (autores). Não há esse canal de procura de autores. Há uma disponibilidade para autores, escritores, todos. O ministro Vannuchi fala por toda a área. A Corde não interfere diretamente.

Marcela Rocha e Thais Bilenky

Fonte: Terra Magazine

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