Barreiras dos Mídia Convergentes para pessoas com deficiência

O termo "media convergentes" refere-se ao conjunto crescente de programação e serviços que decorrem da intersecção de conteúdos televisivos, da televisão por cabo, da televisão digital, dos computadores, e da tecnologia da Internet.

Objectivo

Este documento descreve as barreiras existentes que impedem os indivíduos que são cegos ou amblíopes de usar eficazmente tecnologias convergentes dos media tais como uma Set-Top Box (STB).

Pretende-se aumentar a consciencialização em acessibilidade, influenciar as normas e deixar bases para futuras soluções de acesso. Devido ao ritmo rápido do desenvolvimento tecnológico na área dos media convergentes, haverá um processo interactivo que reflectirá nas barreiras do acesso que envolvem tecnologias e sistemas de distribuição.

A reacção por parte da indústria, dos consumidores e dos especialistas em tecnologias de apoio (ajudas técnicas) é essencial para que este trabalho se transforme num recurso valioso para o desenvolvimento e execução de soluções significativas.

Agradece-se o envio de comentários para o e-mail de Tom Wlodkowski, tom_wlodkowski@wgbh.org, gestor de projecto.

Introdução

Este documento é resultado do projecto "Access to Convergent Media" do CPB/WGBH National Centre for Accessible Media (NCAM). O seu financiamento deve-se ao NIDDR – National Institute on Disability and Rehabilitation Research, do Departamento de Educação dos EUA.

O termo "media convergentes" refere-se ao conjunto crescente de programação e serviços que decorrem da intersecção de conteúdos televisivos, da televisão por cabo, da televisão digital, dos computadores, e da tecnologia da Internet. A evolução da televisão digital e outras tecnologias do género mudarão o modo como as pessoas irão aceder à informação. À medida que as tecnologias da convergência forem abrindo novas portas, outras se poderão potencialmente fechar a pessoas cegas ou amblíopes caso não sejam dados passos que assegurem meios alternativos de navegação neste novo ambiente.

O paradigma antigo do telespectador passivo está rapidamente a desaparecer. Em breve a televisão disponibilizará serviços interactivos, educacionais, cívicos, comerciais, e de entretenimento para lares, salas de aula, locais de trabalho, e chegará a todos os americanos. A própria televisão está a mudar. No mundo analógico a radiodifusão está limitada a um leque de programas. No mundo digital, podem ser visualizadas simultaneamente até quatro programas. Para fazer uma selecção dos vários programas e serviços disponíveis, o utilizador terá que navegar num menu visual cheio de gráficos, independentemente de usar uma caixa digital set-top box (STB) ou um receptor digital via antena.

Este documento debruça-se sobre as barreiras que impedem que os deficientes visuais interajam com STB por diversas razões:

1) o STB é actualmente a opção mais económica para ter acesso aos media convergentes;

2) o STB por cabo, devido à necessidade de fios para emitir e receber dados, oferecerá mais serviços interactivos do que os sistemas terrestres;

3) a maioria das soluções do acesso requeridas para plataforma por cabo suportarão também os sistemas terrestres.

Este documento reflectirá as necessidades primárias do acesso aos media convergentes e aborda especificamente a usabilidade do Electronic Program Guide (EPG) por pessoas cegas ou amblíopes. Um EPG é um componente integrado nas STB’s e nos receptores de televisão e é a chave para se aceder a uma vasta gama de programas e de serviços.

Adicionalmente, muitas soluções desenvolvidas para o EPG permitem aos utilizadores cegos interagir com sucesso com outros serviços integrados através da STB, tal como o comércio electrónico, navegação na Web, desenvolvimento de programas, e outras características interactivas.

Primeiro apresenta-se um perfil da experiência típica do telespectador, o que dá uma ideia daquilo que o NCAM prevê para uma interface do utilizador alternativa. Em segundo lugar as barreiras técnicas irão ser discutidas.

A experiência de um telespectador

São 10:00 h e Joe, que é cego, quer ver televisão. A mulher e o filho de Joe, que usufruem de capacidade de visão, não estão disponíveis para ler o guia dos programas. Mesmo que estivessem disponíveis, Joe tentará ser independente e não quer aceder a essa informação através da sua família. É claro que pode ir de canal em canal e esperar cada intervalo para perceber através do áudio que programa é que está a ver. Isso é exactamente o que ele e outros cegos têm feito ao longo dos anos, porque o guia da programação tradicional é puramente visual. E num universo de mais de 200 canais, Joe dispenderia todo o seu tempo navegando, em vez de se divertir com um programa específico. Mas agora, Joe já não é obrigado a navegar inutilmente, graças aos serviços desenvolvidos associados à sua STB.

A companhia por cabo de Joe ofereceu um STB que pode comunicar a informação disponível no ecrã via áudio. Pela primeira vez, o EPG é acessível. Quando Joe liga a televisão, descobre que as ferramentas de acesso do STB estão desligadas. Pressionando o botão do menu no controle remoto, uma voz avisa-o para seleccionar uma configuração. A assistência por voz também menciona como seleccionar da lista configurações guardadas no STB. Joe selecciona a navegação áudio, que coloca o STB no modo que permite aos cegos interagir com este com sucesso. Como Joe é um utilizador experimentado em navegação por voz, guardou previamente uma configuração pessoal que inclui uma função para que o sintetizador de voz funcione em modo rápido, de modo a minimizar o tempo que leva a ler o texto. (A sua mãe, que é cega, necessita do áudio mais lento, então a sua configuração indica uma velocidade de audição mais lenta).

Agora, o STB apresenta um menu principal onde a lista das opções disponíveis são lidas. Utilizando o controle remoto do STB, Joe percorre o menu e selecciona o EPG. Uma vez dentro do EPG, o áudio apresenta várias opções para a interacção com os conteúdos do EPG – Pesquisa, ler a partir da hora corrente, para a frente, ler por data, etc.. Joe selecciona a opção de tempo. Se um utilizador com capacidade de visão seleccionar essa opção sem as ferramentas de acessibilidade activas, vai-lhe aparecer no ecrã várias colunas. O ecrã pode ter canais na coluna vertical da esquerda, uma linha de tempo (10:00, 10:30, etc.) no topo, e a seguir à coluna vertical, uma segunda coluna vertical com a informação do programa para cada canal. Se o output áudio simplesmente lê esse ecrã, Joe poderá ouvir informação fora do contexto. Com isso presente, o modo acessível adquire os dados e apresenta-os num formato linear. O áudio lê:

10 p.m. (breve pausa)
Channel 2—CNN Larry King Live
Channel 3—FOX Baseball: Red Sox vs. Yankees
Channel 4— …
(e assim sucessivamente) Joe pode interromper a sequência em qualquer momento, pressionando as teclas de cursor do controle remoto. Sem interrupção pelo utilizador, o STB continuará a ler linearmente até que a listagem dos conteúdos esteja completa, mantendo a sua leitura das 10:00 até às 10:30, até às 11:00, etc.

A tecla de cursor para baixo interrompe o output áudio e coloca o STB em modo de suspensão. A tecla de cursor poderá ler o canal seguinte mesmo que o STB esteja desligado. Pressionando duas vezes na tecla de cursor para baixo move o tempo seguinte (10:30, a tabela seguinte descontinuada). Pressionando 3 vezes na tecla de cursor para baixo reposiciona para a data seguinte, etc. Depois de uma pequena pausa, a voz continua a anunciar a lista de conteúdos disponível naquela data, tempo, e canal.

[Nota: esse tipo de navegação é amigável para todo o tipo de utilizadores, não só para os cegos, porque permite ao utilizador minimizar dados desnecessários durante a navegação] Joe decide ver o Red Sox e interrompe o áudio carregando na tecla "Entrar" do controlo remoto do STB, quando o canal é anunciado. Passado um bocado, Joe decide ver outro programa. Procura então no EPG um tipo especifico de programa. Joe é músico e está curioso para saber se há conteúdos relacionados com música. Abre o EPG, selecciona "Procurar" no ecrã aberto. O STB apresenta uma lista dos géneros de programas. Utilizando o controle remoto percorre a lista e selecciona música. Assim que aparecer os resultados da pesquisa, Joe depara-se com as mesmas opções anteriores – leitura pelo tempo (agora 11:00) para a frente, leitura por data, etc. . A leitura pelo tempo para a frente é seleccionada e o áudio começa, primeiro anunciar as horas, depois lê o canal e a correspondente informação do programa. Joe interessa-se por um documentário de Charlie Parker, emitido no A&E. Esperando mais informação sobre este programa, selecciona o programa e faz duplo click na tecla "Entrar" do controlo remoto. Neste modo, Joe ouve uma descrição detalhada do programa. Decide ver o programa e desliga o EPG carregando em "Entrar" para essa opção, A&E, canal 33, no EPG.

Técnicas de Desenho de Componentes de Acesso

São necessários vários componentes para que o Electronic Program Guide (EPG) via set-top box (STB) seja acessível a cegos/amblíopes: No nível mais avançado, o STB deve ser modal, permitindo aos utilizadores passarem facilmente do modo "visual" para o modo "acesso", o que permite ao STB apresentar os dados de uma maneira não visual (principalmente áudio). Para que essa modalidade seja acessível, o STB deverá ter incorporado capacidade mínima de transformar texto em voz (TTS) ou essa função ser programável (via cartão inteligente, download/activação personalizável, versão de hardware, etc.). A personalização da caixa, neste caso, indica o comportamento de arranque da STB (modo assistido ou modo visual) e pode ser simples ou suficientemente complexo para suportar múltiplas configurações do utilizador final, uma por cada membro de um lar.

Os cegos ou amblíopes necessitam de poder interagir com a set-top box. A navegação pode provavelmente limitar-se às teclas up/down/left/right e Enter (cima/baixo/esquerda/direita e Entrar). Qualquer que seja o método usado para aplicar a acessibilidade ao EPG (aplicação embutida, programável/download, ou baseada num servidor de áudio), a interface do utilizador para o input/output deve ser desenhado solidamente e não meramente tratado como um dispositivo que disponibiliza texto no ecrã. Os efeitos visuais para os utilizadores com visão, estão ausentes para os cegos ou amblíopes. O que interessa é apresentar a informação visual em formato que se possa perceber, reestruturando os dados para que mais facilmente resultem num modo acessível. A linearização dos dados em colunas é disso exemplo. Outros exemplos incluem a opção de regulação da velocidade da síntese de voz /TTS, a interrupção de eventos e o uso de teclas de atalho com duplo click. O desenho de produtos acessíveis desde o início, em vez de os adicionar ao produto final, assegura que telespectadores que utilizem o modo acessível venham a usufruir do mesmo modo que outros que usam o modo tradicional.

A utilização do EPG e da STB de um modo geral deverá ser uma experiência agradável.

CARACTERÍSTICAS DE INPUT/OUTPUT (entrada/saída) Saida Áudio

A saída áudio pode ser feita através de qualquer combinação entre síntese de voz e digital, guardado localmente ou num servidor. Independentemente do método usado, será sempre necessário algumas funções de áudio próprias no STB. Isso assegurará que o utilizador cego tenha suporte para recorrer às ferramentas de acesso, seleccionando-as simplesmente ou seleccionando-as entre várias configurações feitas para vários membros da casa.

Quando se ouve a ajuda áudio, é importante que a STB esteja temporariamente em stand by (modo espera) ou que o áudio dos programas esteja completamente desligado de modo a que a ajuda áudio seja claramente audível e entendida.

Adicionalmente a capacidade para regular a velocidade do áudio pode aumentar a usabilidade desta função.

Navegação

Os utilizadores cegos devem ter a possibilidade de ir de item em item num menu de opções para fazer uma selecção. O item seleccionado deve ser anunciado. O item activo no menu deve ter componente visual de modo a aumentar a usabilidade dos amblíopes. Uma solução que ilustra a componente visual é desenhar uma caixa à volta do item activo. Além disso, a programação de teclas de atalho associadas aos botões de navegação pode aumentar enormemente a usabilidade do controlo remoto. Coisas como carregar duas vezes para indicar movimento dos principais cabeçalhos também aumenta a usabilidade dos cegos bem como dos normovisuais.

Apresentação lógica

De modo a providenciar um Input/Output em condições (áudio output e navegação acessível), quem desenvolve essa tecnologia tem que ter em mente que a mera tradução da informação textual no ecrã não é o melhor caminho para tornar essa informação acessível. Por exemplo, enquanto o formato de uma tabela poderá representar o uso mais eficiente do espaço do ecrã para apresentar a informação do EPG para utilizadores normovisuais, os utilizadores cegos beneficiam de uma aproximação linear do formato dos dados. Quando se pensa em apresentação áudio da informação, o designer de software deve esforçar-se para esquecer a apresentação dos dados e concentrar-se no significado dos dados. O modo acessível necessita tornar os dados não claros do EPG e adaptá-los de forma amigável ao utilizador cego ou amblíope.

fonte:
NCAM (2002). Access to Convergent Media – Barriers to Convergent Media for Individuals Who Are Blind or Have Low Vision [Acesso aos Media Convergentes – Barreiras dos Media Convergentes para os Indivíduos Que São Cegos ou Têm Baixa Visão]. National Center for Accessible Media.
Retirado em Setembro 3, 2002 de ncam.wgbh.org/convergence/barriers.html
Tradução Portuguesa da responsabilidade do Programa Acesso da UMIC. Última actualização: Abril 17, 2003.
Programa ACESSO da UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, I.P.

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