Inclusão cultural

Só depois de perder completamente a visão, há 2 anos, que o aposentado José Bonifácio Carvalho Cunha, de 57 anos, começou a frequentar teatros, cinemas e exposições de arte. Até então, os dias de Cunha eram voltados ao trabalho, como motorista, e à família. Desde o começo do ano passado, ele já acompanhou uma ópera, um espetáculo de dança e visitou duas vezes a Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos principais espaços de exposição de obras de arte do País. Afirma Cunha: isso é inclusão cultural!

Pioneiro no mundo, o museu abriu uma galeria tátil, na qual o deficiente visual pode tocar as obras originais, enquanto escuta as explicações por um fone de ouvido. "Em outros museus pelo mundo também existem espaços como esse, como no Louvre, em Paris. Mas lá os deficientes tocam réplicas. Só aqui abrimos para o toque em obras originais. A inclusão cultural tornou-se uma prioridade para nós", conta Maria Cristina da Silva Costa, do programa educativo de Programas Especiais da Pinacoteca.

Assim como nas artes visuais, em teatros os deficientes também têm o apoio de programas de legendas em Braille, a escrita para deficientes, chão tátil, para guiar-se com a bengala, e aparelho de audiodescrição, um fone pelo qual o deficiente visual pode ouvir detalhadamente tudo aquilo que as outras pessoas podem ver. "Com o recurso, sabemos a disposição do palco, cor das cadeiras, expressão dos olhos de quem está atuando e vestimentas. Dá para ver melhor do que quem pode enxergar", conta Cunha.

A advogada Tays Martinez, de 35 anos, presidente do Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Iris) também reconhece os avanços na inclusão cultural para as pessoas com deficiência: não perde uma oportunidade de assistir a peças teatrais e filmes nos cinemas quando tem audiodescrição. "É muito mais confortável do que o acompanhante ter que ficar cochichando as cenas", explica.

No teatro, esse trabalho é feito por profissionais que têm voz, interpretação e espaçamento da fala treinados. Há pouquíssimos no Brasil. A analista financeira Rosilene Cortes Almeida, de 37 anos, dedica voluntariamente os domingos à noite à audiodescrição no teatro Vivo, em São Paulo, pioneiro em oferecer essa facilidade aos deficientes visuais. "Descrevemos a peça em detalhes. Às vezes, tem que improvisar. Trabalhar pela inclusão cultoral é muito gratificante", conta ela.

Outro frequentador do local, o jornalista e apresentador de rádio Beto Pereira, de 32 anos, reforça a importância do trabalho da voluntária para quem não enxerga. "Eles têm técnica, falam o essencial no tempo certo, respeitam diálogo e música, a diferença é brutal", ressalta.

Mas, infelizmente, a inclusão cultural que permite o acesso do deficiente à cultura, ainda é exceção. "Vivemos em um mundo visual, e as pessoas não se dão conta de que o deficiente também tem direito a todo tipo de espetáculo", afirma Viviane Sarraf, coordenadora do centro de memória da Fundação Dorina Nowill, em São Paulo, que ajuda os deficientes a se adaptarem ao mundo sem visão.

Nos cinemas, por exemplo, a inclusão cultural ainda é um sonho distante: nenhuma grande rede oferece a audiodescrição. "Há algumas salas e festivais que fizeram testes com o aparelho, mas não no grande circuito. Nos DVDs, a primeira iniciativa da indústria foi no filme Ensaio sobre a cegueira, cuja fita tem no menu a opção da audiodescrição. Também não vemos essa iniciativa na maioria dos teatros, infelizmente", explica Viviane. Ela relembra da Lei de Audiovisual, aprovada no Brasil em 2006, que obrigava, inclusive, as emissoras de televisão a oferecerem recursos para deficientes auditivos e visuais. "Mas depois houve uma portaria que adiou o início da obrigatoriedade, com a justificativa de não existir mão de obra capacitada no Brasil. Isso não é desculpa, pois é só treinar esse tipo de profissional", conclui.

Fonte: Folha Universal

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