Os games podem ser para todos!

Nos dias de hoje os jogos estão cada vez mais presentes na vida das pessoas. Muitos jogos dão grandes lições de vida, alguns têm o poder de fazer chorar, rir, pensar e até mesmo transmitir em atitudes para o mundo real as aprendizagens que se teve no jogo, mas com toda essa receita que existe no mundo gamer, por que não fazer com que um jogo sirva para ajudar de uma forma mais profunda na vida real? Já pensou em tornar seus games acessíveis?

Games acessíveis: pessoa cega com o braço apoiado na tela de um computador

Atualmente os jogos são usados para muitos fins, como em lares de idosos, creches, escolas e mais recentemente como ferramenta muito importante para alguns tipos de deficiência.

Por experiência própria, vou falar num tipo de deficiência – a deficiência visual.

Acredito firmemente que estas pessoas estão presentes nos maiores sites de jogos, dão suas opiniões, têm debates longos como se fossem os mais entendidos do assunto, e de certa forma acredito que o são, porque "vêm" um jogo em si de uma forma diferente, e quem sabe, duma forma mais profunda.

Mas como já foi publicado numa das nossas colunas, infelizmente há sempre pessoas que ficam sem espaço, como idosos, mulheres, e acabam por não demonstrar os seus conhecimentos com medo de receber criticas destrutivas.

A deficiência visual não significa que a pessoa seja cega total, também pessoas de baixa visão que ainda (como o meu caso) conseguem jogar alguns jogos.

Obviamente que um deficiente visual não consegue jogar um FPS ou um jogo de corrida perfeitamente porque não vê as imagens com nitidez, mas os jogos de hoje não servem apenas para diversão, mas isso irei abordar mais à frente.

Uma pessoa de baixa visão tem sérias dificuldades em jogar, o sistema de iluminação é extremamente importante (óbvio que varia do problema que cada um tem na vista), ou seja, uns precisam de muita luz, outros de pouca, outros precisam de grandes contrastes, outros não, mas não irei muito por ai senão acabo fugindo do tema. Os textos também são um problema (não é por acaso que eu nunca baixei uma única tradução da Gamevicio), mas obviamente que uma empresa não iria fazer uma áudio descrição para um jogo, porque acham desde o início que uma pessoa com problemas de visão não sabe ou não deve jogar, sem falar nos custos que isso iria acarretaria, espaço em disco, etc…

As distâncias também são muito importantes, como no mundo real, no jogo a distância tem o mesmo efeito, movimentações, objetos parados são difíceis de detectar, enfim vai tudo um pouco por ai.

Acreditem ou não, essas pequenas barreiras fazem com que uma pessoa que tenha este tipo de problema evite se expor. Apesar de ser no mundo virtual, há sempre o receio de enfrentar críticas nem sempre construtivas.

Recentemente alguns pesquisadores criaram um jogo para servir de ferramenta fundamental no âmbito da reabilitação. O jogo consiste em andar num labirinto. uma voz descreve o caminho, usam as setas para movimentar o personagem (que por sinal até tem bengala) e a voz vai descrevendo os objetos. Este jogo fará com que a pessoa consiga mapear o mundo real.

Caso isso ande para a frente será muito importante para essas pessoas, claro falando de Portugal, que tem apenas um centro de reabilitação para cegos e portadores de baixa visão, sem falar da falta de pessoas trabalhando nesse setor.

Acontece que poucos desenvolvedores se preocupam com esse tipo de problema, dado que portadores de deficiência visual são uma minoria, mas como sempre, a Nintendo está em todas, atualmente existem uns 50 games acessíveis para pcs e consoles da Nintendo, como DS, Wii e GameBoy com funções específicas para portadores de deficiências visuais.

Também parte da culpa (se é que se pode chamar de culpa) é das pessoas em questão, que se gostam de jogos ou de desenvolver software deveriam se mexer para mudar alguma coisa de modo a tornarem seus games acessíveis.

Uma das minhas experiências mostrou que devemos sempre levantar questão de algo que não está correto, deixar a idéia no ar para que alguém que possa levar para a frente um projeto destinado a tornar alguns games acessíveis, veja e tome consciência da realidade.

Em Lisboa houve uma palestra com um realizador de um filme português (A outra margem). Vimos o filme, alguns viram à maneira deles (ouviram), o realizador ficou observando, o filme terminou e por fim, as opiniões. Só houve gente perguntando: "O que aconteceu no fim do filme?" Óbvia essa pergunta, só rolou imagens e ninguém falava, o realizador constrangido, sem saber o que falar, pensando que tinha errado, mas não, apenas pensou que por um filme ser em português não deveria ter áudio-descrição ou não pensou que essas pessoas também assistem filmes. Esse tipo de coisa pesa a consciência de muita gente.

Voltando ao tema, sem ter saído muito dele, acredito que o que faz falta são pessoas com deficiência visual trabalhando no desenvolvimento de games acessíveis. Por que ter opções de aumentar e diminuir gráficos e não ter coisinhas tão simples que poderiam fazer com que houvesse ainda mais jogadores?

Um dos jogos que mais me ajudou foi Splinter Cell com sua visão térmica, se eu não visse os caras de um jeito, via de outro, ligava e os inimigos ficavam cor-de-rosa, problema resolvido!

Não é pelo jogo não facilitar que algumas pessoas deixam de jogar, meus amigos, há sempre alguma forma de tornar os games acessíveis, ultrapassar as barreiras do jogo! Estes indivíduos já são grandes guerreiros na vida, nem vou explicar porquê, não serão pequenos detalhes que os impedirão de alcançarem os seus objetivos. Obviamente que há um corte na diversão, porque há mais irritação por não estar dando com o caminho ou seja lá qual for a situação no game.

Terminando a matéria, falo um pouco da minha experiência jogando a sério um FPS online, Call of Duty 4: Modern Warfare. Inicialmente eu era um coitado, levava tanta bala que até dava pena. Como sempre, uso uma frase que gosto muito do grande Fernando Pessoa, "Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo", não desisti enquanto não conseguisse, e por fim, consegui ficar no primeiro lugar muitas e muitas vezes, e antes não saia do último.

Em suma, não existem limites para quem tem a capacidade de sonhar e a determinação de transformar seus sonhos em realidade.

por Victor Branco

Fonte: Gamevicio

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