Percepção e Emoção: artigo de Mara Gabrilli

Um quadro com moldura cor de ouro mostra o retrato de um homem de barba e cabelos ruivos com semblante sério, feito com pinceladas grossas em tinta óleo, em tons fortes de azul e verde. De costas, um homem o observa. Segue em direção a outro quadro com as mesmas pinceladas robustas: uma cidade vista a distância, montanhas ao fundo e céu em movimento. O homem continua sua observação e aprecia outra tela que retrata um vaso com girassóis e depois outra com um campo amarelo e pássaros negros voando no céu azul. O homem se afasta, a cena se abre e percebemos suas feições orientais enquanto se dirige a um sofá onde se senta calmamente. Pega uma bolsa que estava encostada no sofá e caminha para quadros de cores e pinceladas suaves que retratam uma cadeira simples, outro de uma ponte sobre um rio muito azul e outro de um quarto de dormir com paredes azuis claras. O oriental volta ao quadro da ponte, coloca um chapéu na cabeça e num instante está dentro da tela, que toma vida.

Sonhos, do genial Akira Kurosawa, causou eterno impacto em mim. Saí da sala de cinema transformada de forma indelével. A cena que descrevo acima – minha tentativa amadora de audiodescrição – e sua maravilhosa sequência do encontro de Kurosawa e Van Gogh me despertaram para o amor à arte. Não sosseguei enquanto não fui para Amsterdam conhecer de perto suas obras. E comecei a fazer incursões em museus, sempre sozinha com minhas emoções, e escrevia loucamente em frente aos quadros sob seu efeito.

Percepção, emoção, ideia, estímulo, significado… O poder de transformar que a arte e cultura têm precisa ser expandido para cada vez mais pessoas. Por que eu não poderia mais me emocionar no cinema ou em museus depois que me tornei cadeirante? Nenhum limite arquitetônico me impediria. Faria de tudo, até mesmo correr os riscos de ser perigosamente carregada escada acima ou abaixo porque o primordial para ver a arte carrego no coração. Perder os movimentos abaixo do pescoço não me roubou o poder de me emocionar, rir e chorar.

Assim como uma rampa ou elevador resolvem facilmente meu problema, recursos como audiodescrição e closed caption aproximam milhares de pessoas cegas ou surdas das diversas formas de arte. Já imaginaram a riqueza que a descrição das cenas de um filme pode trazer à vida de qualquer pessoa cega? Ou poder ler os diálogos que não se ouve.

A descrição que inicia esse texto daria asas à imaginação de quem não vê. O passeio de Kurosawa pelas pinturas do mestre holandês ficaria sem sentido apenas ao som da Nona de Beethoven se não fosse a descrição do cenário, cores e expressões. Ao final, a lição de Van Gogh: "só é capaz de pintar aquele que se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer.".

A natureza humana tem múltiplas belezas também… Por que uma deficiência sensorial deveria deixar alguém alheio às emoções oferecidas por Wim Wenders, Kurosawa, Fernando Meirelles, John Cassavetes, assim como Rodin, Van Gogh, Klint, Picasso…?

Hoje, temos a disposição recursos tecnológicos e humanos que tornam tudo possível para qualquer ser humano, por mais diferente que ele nos pareça ser. Além de garantidos por lei, são embasados em normas técnicas aperfeiçoadas constantemente. Costumo dizer que deficiente é a cidade com sua falta de equipamentos, não as pessoas.

A Pinacoteca do Estado disponibiliza recursos há alguns anos para fruição da arte para pessoas com deficiências sensoriais e intelectuais. Fizeram reproduções bidimensionais e tridimensionais em resina e borracha de quadros, além de jogos para compreensão das obras originais.

São Paulo avança, pois o Cinesesc promove um festival de cinema inédito, cem por cento acessível com audiodescrição para cegos e closed caption para surdos, estimulando as pessoas a avançarem por meio de novas vivências. Isto é profundamente libertador. A acessibilidade e a adoção de práticas que atendam a todos não é apenas uma tese. Esse movimento está nas ruas para ser visto, comentado e, sobretudo, entendido e promovido.

Esse é o momento de um encontro com o humano, um link com as próprias emoções e um compromisso com o civilizado.

Fonte: Vida Mais Livre

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