Saiba como foi o passeio com audiodescrição no zoológico de São Paulo

Lembram-se do post Passeio noturno ao zoológico com audiodescrição.. Lívia Motta conta como foi!

foto de uma arara

O passeio noturno no Zoológico de São Paulo, no dia 16 de abril de 2010, foi uma experiência diferente para as biólogas acostumadas a levar os visitantes para conhecer bem de perto os animais de hábitos noturnos. Neste dia, o zoo recebeu um grupo de pessoas com deficiência visual acompanhadas por pessoas que enxergam e, dentre elas, diversos audiodescritores que tinham como tarefa a audiodescrição do passeio.

Graças ao trabalho feito pelo Sidney Tobias, Jumara e Liane da ADEVA (Associação de Deficientes Visuais e Amigos), Rosângela, Antonio Carlos Barqueiro e Luiz Rotatori da Laramara (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual), que lá estiveram antes da visita para conhecer o espaço e dar orientações sobre o público com deficiência visual e sobre audiodescrição, as biólogas puderam fazer o seu trabalho de apresentação das espécies com mais detalhes descritivos, transformando o visual em verbal e promover, dessa forma, o acesso à informação e à cultura para muitas pessoas com deficiência visual.

Iniciamos nosso passeio no miniauditório, onde assistimos um vídeo sobre a história e atividades desenvolvidas no zoológico, e uma interessante apresentação sobre corujas e cobras, podendo vê-las bem de pertinho, além de conhecermos as peculiaridades dessas espécies, curiosidades, mitos e lendas que as cercam. Uma grande coruja marron e branca voava no meio dos participantes, pousando ora na mão, protegida com luva de couro, de um adestrador, ora na mão de outro. Confesso que o deslocamento de ar provocado pelo seu voo rasante chegou a assustar e, várias vezes, tentei me esconder atrás de um companheiro de plateia, temendo um possível desvio de rota. Também uma cobra Piton enroscada nos braços de uma bióloga pôde ser tocada pelos visitantes, permitindo que aliassem as informações verbais com a experiência tátil, sentindo a temperatura, textura escamosa da pele, tamanho e dimensões do corpo do réptil.

Em seguida, divididos em dois grupos, iniciamos nosso passeio pelas alamedas escuras, no meio da mata cerrada, iluminadas apenas por tochas, pela luz do luar e pela lanterna que a bióloga usava para mostrar os animais em seus habitats. E fomos vendo, sentindo cheiro de mato e de bicho, escutando as vozes, os barulhos dos animais comendo e se deslocando com agilidade. Todos eles em plena atividade, tentando achar os alimentos colocados em alguns lugares específicos, os chamados “enriquecimentos”, que buscam estimular os animais cativos a desenvolverem comportamentos mais naturais e a explorarem melhor os espaços onde vivem.

Vimos e ouvimos informações sobre a anta, a suçuarana, o lince, o leão, a onça pintada, o lobo guará com suas pernas longas e orelhas grandes que permitem que identifiquem, com precisão, a direção dos sons de uma presa; os hipopótamos Teteia e Sininho, com suas peles viscosas e avermelhadas, orelhas curtas e olhos esbugalhados, mastigando bocados de mato. Chegamos bem perto de Baboo e Tainá, dois enormes tigres, um siberiano e outro branco; os dois andando inquietos de um lado para outro pareciam saudar os visitantes com seus urros guturais.

A audiodescrição, recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais (peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança e outros), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos, lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas, feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros, por meio de informação sonora, foi determinante para o melhor aproveitamento do passeio, tanto para as pessoas que enxergam, pois puderam desenvolver ainda mais o senso de observação, como para as pessoas com deficiência visual que, certamente, puderam visualizar os animais: tamanho, peso, pelagem, características, comportamentos, hábitos e habitats, e de lá saíram com uma sensação de pertencimento, de equiparação de oportunidades.

Os audiodescritores presentes pouco tiveram que completar o roteiro competente das biólogas. As duas, Inaiá e Cátia, aliaram as informações técnicas a elementos descritivos, o que, sem dúvida, foi essencial para o aproveitamento e aprendizagem de todos. Quanto mais os profissionais das diversas áreas conhecerem a audiodescrição e seus benefícios, mais eles poderão colaborar para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual, para o acesso ao mundo imagético e para o desenvolvimento do senso de observação, fluência verbal e repertório linguístico das pessoas que enxergam.

* Lívia Maria Villela de Mello Motta é professora de cursos de formação de audiodescritores.

Mais sobre audiodescrição
João, Sabrina e Maristela nunca viajaram de avião. Além desse traço em comum, eles são
Inclusão. Esta é a palavra-chave num novo segmento de roteiros rodoviários que a Fresp (Federação
Cerca de 45 milhões de brasileiros apresentam algum tipo de deficiência, o que corresponde à


Mais sobre audiodescrição
João, Sabrina e Maristela nunca viajaram de avião. Além desse traço em comum, eles são
Inclusão. Esta é a palavra-chave num novo segmento de roteiros rodoviários que a Fresp (Federação
Cerca de 45 milhões de brasileiros apresentam algum tipo de deficiência, o que corresponde à