Esse é o espírito!…

A lista abaixo contém alguns itens dos quais nós, que temos deficiência visual, necessitamos em nosso cotidiano. Se eles estivessem presentes em toda parte, a falta da visão não seria uma deficiência. As barreiras com que nos deparamos em nosso dia-a-dia seriam praticamente eliminadas. A possibilidade de superação de nossos obstáculos nos leva então a pensarmos sobre a deficiência como sendo um conceito relativo.

  • Livros digitalizados ou impressos em braille;
  • Semáforos sonoros;
  • Pisos táteis que sinalizem percursos;
  • Elevadores com teclas em Braille e com fala pré-gravada, indicando a chegada em cada andar;
  • Placas e letreiros em Braille;
  • Caixas-eletrônicos com síntese de voz;
  • Cardápios em Braille, com preços atualizados;
  • Cédulas de dinheiro com identificação de valores em Braille ou em relevo;
  • Maquetes táteis que representem o mapeamento de ambientes internos e externos;
  • Computadores equipados com leitores de tela;
  • Celulares com síntese de voz;
  • Embalagem de produtos com rótulos em Braille, contendo especificações como composição e a data de validade;
  • Mudanças no piso que identifiquem a proximidade de obstáculos não informados pela bengala;
  • Programas de televisão e filmes com audiodescrição.

De fato, a deficiência é um atributo que pressupõe um referencial. Do ponto de vista de quem enxerga, a ausência da visão representa uma deficiência. Mas do ponto de vista dos cegos, a falta da visão consiste tão somente em uma forma singular de perceber o mundo.

Se, hipoteticamente, os homens nunca tivessem enxergado, a cegueira representaria para eles uma condição natural e plena.

Ao que parece, a palavra "deficiência" carrega consigo um certo juízo de valor, como se as pessoas que a tivessem possuíssem um déficit ou uma carência de algo imprescindível.

Existe então uma mudança de foco, quando consideramos que as pessoas com particularidades sensoriais ou físicas (como cegueira, surdez, paraplegia, etc), possuem tão somente uma maneira peculiar de estarem no mundo, e não uma limitação absoluta.

Nessa perspectiva, as deficiências propriamente ditas não se encontram nas pessoas, mas são um produto da interação que os seres humanos estabelecem com o ambiente.

Ao longo de minha história, tenho vivenciado esta frase, na prática, muitas e muitas vezes. Quando apresento dificuldade para caminhar dentro de algum estabelecimento, por se tratar de um local muito amplo e com referências táteis imprecisas, eu realmente me sinto uma pessoa com deficiência. Mas quando posso caminhar com autonomia em um ambiente que conte com pisos táteis e indicações claras sobre o trajeto, minha deficiência simplesmente desaparece!

Quando preciso pedir ajuda para ler o rótulo na embalagem de algum produto, percebo que minha deficiência me impede de realizar atividades bastante corriqueiras. Mas quando eu mesma posso ler estes rótulos, por eles estarem em Braille, nenhuma deficiência existe em mim!

Quando assisto a um filme ou a um programa de televisão e não compreendo as cenas, por não ver as imagens, constato que minha deficiência me faz assisti-los parcialmente. Mas quando assisto a um programa que tenha audiodescrição, eu me torno uma telespectadora sem deficiência!

Em busca da erradicação das deficiências, cabe a nós lutarmos pela implantação de condições acessíveis, em todas as esferas da vida.

Sobre esse aspecto, deve-se considerar que existe uma diferença muito importante entre "condições acessíveis" e "condições adaptadas".

O termo "adaptação" (assim como o termo "deficiência") é uma palavra criada a partir de um determinado referencial. Adaptar significa fazer ajustes em algo que já tenha sido previamente concebido para um certo grupo de pessoas. A adaptação, portanto, constitui também um conceito relativo.

Saindo um pouco do âmbito das deficiências, poderíamos tomar como exemplo o caso das pessoas destras e canhotas. Segundo o referencial dos destros, as carteiras escolares voltadas aos canhotos (com braço do lado esquerdo) são carteiras adaptadas. Mas, do ponto de vista dos canhotos, estas é que são as carteiras apropriadas, de modo que as "adaptadas" sejam aquelas com braço do lado direito, concebidas para os destros.

Assim, a designação de algo como "adaptado" depende do lado em que você está! Em nosso cotidiano, não devemos traçar o objetivo de lutarmos pela criação de condições que sejam adaptadas para pessoas com deficiências, mas sim, pela criação de condições que sejam acessíveis para todas as pessoas. Isto representa uma mudança de concepção, e um salto de qualidade no modo como pensamos as questões relativas às diferenças individuais. Construir um mundo acessível (e não um mundo adaptado) requer o empenho de muitas mentes e o trabalho de muitas mãos. Quem se habilita?>

Fabiana Bonilha, psicóloga é cega congênita, mestre e doutora em música pela Unicamp. Ela escreve semanalmente para o E-Braille e-mail: fabiana.ebraille@gmail.com

Fonte: COSMO ONLINE

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