A um degrau para democratizar a arte

Imagine-se de olhos vendados, carregando uma sacola bem pesada ou com as pernas amarradas. Assim como Constantin Stanislavski acreditava que o ator precisava vivenciar e sentir para compreender melhor seus personagens, muitas vezes só conseguimos perceber como é difícil executar algumas ações quando nos colocamos no lugar do outro. E sentir a dificuldade que não é nossa também é gentileza, palavra bem conhecida pela funcionária pública e poeta Rosani Martins, 44 anos, que nasceu com baixa visão e, aos 16 anos, teve a cegueira determinada pelo glaucoma.

“A partir da minha limitação, passei a não pensar só em mim e na minha classe, mas a prestar mais atenção nas limitações dos outros. Como deficiente visual não posso ver, mas sinto. Acho que essa percepção também é uma forma de reunir forças e uma demonstração de gentileza.” Entretanto, os problemas enfrentados no cotidiano da cidade por quem tem mobilidade reduzida são invisíveis para boa parte da população.

Se a arte é uma das formas mais sublimes de demonstrar sentimentos, provocar o inusitado e instigar a percepção, deveria também ser democrática a ponto de atingir todos os cidadãos. Mas uma série de impedimentos arquitetônicos, burocráticos ou financeiros impede que uma parcela da sociedade tenha acesso aos espaços culturais. A falta de rampas, elevadores, plataformas, barras de apoio, sinalização e outros instrumentos se transforma em verdadeiros obstáculos para cadeirantes, deficientes visuais, auditivos e até mesmo idosos. O professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF Júlio César Sampaio, que também é membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac), explica que o problema é muito difícil de ser resolvido e não está restrito a Juiz de Fora. “Qualquer cidade que tenha imóveis antigos e de valor arquitetônico, principalmente bens tombados, terá um dilema para solucionar, porque o padrão de arquitetura e as leis vigentes na época não contemplavam a acessibilidade.”

Júlio defende a importância de serem descobertas alternativas para democratizar o acesso aos bens de valor cultural sem que os imóveis sejam descaracterizados. Esse é o desafio que algumas instituições locais começaram a enfrentar, como a Câmara Municipal, que na próxima semana inicia a construção de uma rampa na entrada principal de sua sede, o Palácio Barbosa Lima. A obra foi aprovada pelo Comppac, que exigiu o uso de vidro temperado para não haver interferência na fachada do edifício, tombado como patrimônio municipal. “A maior dificuldade foi conjugar passado e presente, trabalhar com a proteção ao patrimônio público e com a ideia de acessibilidade, considerada um conceito atual”, ressalta o presidente da Comissão Permanente de Licitação da Câmara, Mariano Augusto Miranda.

Inserido em um amplo planejamento de reforma do Forum da Cultura, está o projeto de construção de rampa e instalação de um elevador, para permitir que pessoas com mobilidade reduzida visitem as exposições e assistam às peças de teatro, assim como possam integrar as atividades da casa. O gerente do Forum e diretor do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro, diz que é um sonho antigo conseguir acessibilidade para o imóvel, uma reivindicação dos visitantes e também dos membros da turma de teatro da terceira idade. “Sabemos que muita gente deixa de vir por causa da quantidade de escadas. Mas o projeto está encaminhando, engenheiros da universidade analisam a viabilidade, e acredito que será possível executá-lo.”

De acordo com o pró-reitor de Infraestrutura da UFJF, Márcio Resende, “a instituição tem o firme propósito de instalar o elevador no Forum da Cultura, porém o prédio oferece uma série de limitações e exige obras para adaptar um equipamento moderno em um prédio antigo, com muitos lances de escada e pouco espaço lateral”. Resende explica que o processo licitatório para compra do elevador já foi iniciado, mas a instalação depende das conclusões da equipe de engenharia. Se as mudanças forem efetivadas, trarão novos horizontes para a presidente do Conselho Municipal das Pessoas Portadoras de Deficiência, Valéria Andrade, que lamenta não poder mais frequentar alguns espaços. “Há 20 anos não posso ir ao Forum da Cultura, e era um lugar que eu adorava. Também não posso ir à videoteca do CCBM (Centro Cultural Bernardo Mascarenhas), porque fica no segundo andar.”

Luta pelo acesso livre à cultura

Cantor e compositor, Fernando Littieri é cadeirante e torce pelo dia em que poderá ir a todos os lugares sem passar por constrangimentos. Entre os principais espaços culturais da cidade, ele cita o prédio da Funalfa, na esquina da Rua Halfeld com a Avenida Rio Branco, e diz não conhecer o segundo andar do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM).

Um projeto que está prestes a ser colocado em prática é justamente o de instalação de uma plataforma de acessibilidade no CCBM. “Dentre os planos da Funalfa, este é o mais concreto, porque já temos verba reservada e em breve haverá licitação para a compra do equipamento”, diz o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra. O diretor do CCBM, Guy Schmidt, explica que a plataforma é um pequeno elevador de suspensão hidráulica, voltado apenas para o uso de pessoas com dificuldade de locomoção. Ela será instalada próxima à recepção do prédio.

Segundo Toninho, estudos para adaptações no prédio da Funalfa também estão sendo feitos, mas vários empecilhos foram encontrados devido à estrutura do imóvel. “Em relação ao Museu Ferroviário, que vai mudar de lugar, pretendemos adaptar o novo espaço antes de transferi-lo. Sabemos que ainda há muito a fazer e que não são só as barreiras físicas que impedem o acesso à cultura. Mas precisamos lembrar também de alguns bons exemplos, como o da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, que tem um setor de braille, e o fato de este ano um livro em braille ter sido lançado com o incentivo da Lei Murilo Mendes.”

Rosani Martins, que é deficiente visual, concorda com a avaliação da biblioteca. “Adoro a Murilo Mendes não só por atender às minhas necessidades, mas por ter rampas que não são tão íngremes.” Rosani é apaixonada por poesia, cinema e teatro e defende que a acessibilidade precisa ser vista além da mobilidade física. “Não deixo de fazer nada por causa da minha limitação, mas, como não enxergo, sempre preciso ir ao cinema ou ao teatro acompanhada. Alguém tem que ficar ao meu lado para descrever algumas coisas ou cenas que não são faladas. Se em algumas salas, tivesse audiodescrição ou pessoal preparado para nos receber e executar esse papel, poderia ir sozinha. Problema parecido é enfrentado por deficientes auditivos.”

Mas, além das dificuldades de acesso mais nítidas, há as que passam despercebidas. Valéria Andrade lembra que, apesar de ter rampa de acesso e redução do número de cadeiras para possibilitar a presença do cadeirante, o Cine-Theatro Central não tem as mesmas facilidades no palco e nos camarins. “Uma vez fui homenageada e tive que receber o prêmio embaixo, porque não tinha como subir ao palco”, conta Valéria. Situações semelhantes foram vivenciadas por Littieri. “É constrangedor precisar ser carregado, sentir-se barrado ou ter que pedir para que um segurança saia do seu posto para abrir a porta lateral do Central, por exemplo.”

O pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, explica que a instituição está ampliando a acessibilidade em diversos imóveis dos quais é proprietária. Em relação ao Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), ele destaca o fato de o prédio já ter elevador e boas condições de acesso, assim como a Biblioteca Central da UFJF. “No Central, tudo é mais delicado, porque o prédio é tombado. Temos plano de instalar parapeito e corrimão nas escadas, os banheiros serão todos reformados e receberão as adaptações necessárias. Futuramente, vamos estudar como melhorar o acesso ao palco e aos camarins. Mas precisamos ir por etapas, passar pelos trâmites legais e realizar discussões estruturais.”

Fonte: Diretoria de Comunicação – Universidade Federal de Juíz de Fora

Mais sobre audiodescrição
Carla Diacov nasceu em São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975. Formada em Teatro. Estreia
A audiodescrição está entre as melhores formas de inclusão da pessoa com deficiência visual. Além
Quando receberam o convite do festival Palco Giratório, do Sesc, e da audiodescritora Andreza Nóbrega


Mais sobre audiodescrição
Carla Diacov nasceu em São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975. Formada em Teatro. Estreia
A audiodescrição está entre as melhores formas de inclusão da pessoa com deficiência visual. Além
Quando receberam o convite do festival Palco Giratório, do Sesc, e da audiodescritora Andreza Nóbrega