Vírus da acessibilidade

O vírus da acessibilidade: esta semana minha irmã Nice, adolescente de 16 anos, me pediu ajuda em uma tarefa da escola. Ela está concluindo o Ensino Médio e reuniu alguns colegas para deixar uma marca de sua passagem pelo colégio. Fez um projeto de sinalização dos principais ambientes e pensou em fazer placas para as portas com letras ampliadas para pessoas com baixa visão e me perguntou o que eu achava de fazer essa mesma sinalização em Braille para ser afixada próxima à maçaneta de cada porta, segundo ela, para evitar que a pessoa cega passe pelo desconforto de ter de explorar toda a extensão da porta para descobrir onde está a indicação de que ambiente seria aquele.

Eu nem sei se existe norma técnica que regule a sinalização de portas! Fiquei emocionada. Minha irmã tinha 2 anos quando eu comecei a ser professora de Braille e vejo que ela está completamente contagiada, envolvida, sensibilizada e atenta ao que ela, enquanto estudante, pode fazer pela melhoria da vida do semelhante.

Estava agora a pouco conversando com ela sobre a aprovação da Escola para o projeto de sinalização e ela me disse sobre uma visita que um de seus professores fez com sua turma a um dos principais teatros aqui de Salvador, o Teatro Castro Alves – TCA. Durante a visita, o monitor dava ênfase às rampas de acesso e, segundo ela, a todo momento ele enaltecia o teatro por oferecer rampas tão necessárias para a locomoção de pessoas com deficiência física.

Quando foi interrogada sobre que impressão ela teve da visita ao TCA, Nice falou, imagino o tom doce e sério, que lhe é peculiar: "Eu adorei tudo, as rampas são mesmo necessárias, mas eu sugeriria que as pessoas cegas também fossem lembradas e que pistas táteis fossem incluídas, além da audiodescrição nos espetáculos". "Pizza, o quê?", equivocou-se o monitor. "Não é pizza, moço, é Pista. Pista Tátil para facilitar a locomoção de quem não enxerga". Ela me disse que o monitor ficou atônito com seu posicionamento e, sem argumentos, acabou falando a maior bobagem: "Mas nunca tem cego aqui no teatro mesmo…". E ela suspirou: "Porque será, moço? Porque será que nunca vem cego aqui?".

Estou mesmo muito feliz em saber que minha família se deixou envolver com questões tão sérias e que essa sensibilização se deu de forma tão sutil, silenciosa, como um vírus do bem. Esse vírus da acessibilidade, que tanta gente insiste em criar defesas e não se permite contagiar.

Um beijo grande, audiodescrito e em Braille!

Patrícia (Braille) Silva de Jesus

Mais sobre audiodescrição
Jamais esquecerei opresente que ganhei do Papai Noel em 2016. Era 25 de dezembro, à
Estive em uma Oficina de Audiodescrição, em Porto Alegre, que além de recarregar as energias,
Com o avanço tecnológico e a mudança de hábitos, atividades tradicionais desaparecem e cedem lugar


Mais sobre audiodescrição
Jamais esquecerei opresente que ganhei do Papai Noel em 2016. Era 25 de dezembro, à
Estive em uma Oficina de Audiodescrição, em Porto Alegre, que além de recarregar as energias,
Com o avanço tecnológico e a mudança de hábitos, atividades tradicionais desaparecem e cedem lugar