Audiodescrição permite acesso de deficientes visuais ao cinema

Curtir um bom livro ou pegar uma sessão de cinema, foi por muito tempo um sonho distante para os deficientes visuais gaúchos. Aos poucos, alternativas surgem e a barreira vai diminuindo.

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE cerca de 14,5% da população do país tem algum tipo de deficiência visual. Esse grande contingente de brasileiros tinha acesso limitado a obras culturais, principalmente livros, teatro e cinema. Mas essa realidade vem se modificando, mesmo que ainda de forma tímida.

O número de publicações em braille cresce a ponto de hoje já haverem bibliotecas com setores específicos, como é o caso da Casa de Cultura Mário Quintana. No local, funciona temporariamente a Biblioteca Pública do Estado que disponibiliza, permanentemente, um acervo em braille. Para a coordenadora do setor, Marli Braga Bion, a biblioteca tem como um de seus principais compromissos a difusão da informação e conhecimento a todas as pessoas, levando em conta suas possibilidades. Para isso, a casa mantém uma programação cultural destinada a promover a arte e cultura junto a esse público.

Outra forma de disponibilizar os textos é como audiolivros. As obras literárias são gravadas por locutores permitindo, assim, que os deficientes ouçam as histórias.

E esse era o objetivo da atriz Letícia Schwartz. Ela havia desenvolvido um projeto para a produção de audiolivros no Rio Grande do Sul através de leis de incentivo à cultura e financiamento público, porém, enquanto aguardava a aprovação de sua solicitação, conheceu a audiodescrição.

O objetivo deste processo é traduzir em palavras as imagens de um filme e com isso possibilitar a compreensão do conteúdo pelos deficientes visuais. Ele pode ser feito por meio de uma sessão normal, em que são distribuídos equipamentos utilizados em tradução simultânea e a locução é feita ao vivo ou pela gravação do áudio em estúdio que, posteriormente, é inserido ao som original do filme.

Letícia e o marido, Gabriel Schmitt, decidiram tentar. Schmitt é técnico de áudio e proprietário do estúdio Habanero Áudio, em Porto Alegre. O casal escolheu três curta metragens para realizar uma demonstração. A iniciativa deu resultado e a empresa realizou a audiodescrição da Mostra Especial do Dia Internacional da Animação em 2009. Logo em seguida, veio o primeiro longa metragem gaúcho com essa narrativa, "Antes que o mundo acabe", dirigido por Ana Luiza Azevedo e produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. A partir daí o número de trabalhos aumentou e o estúdio iniciará, em breve, a locução do Cine Gibi 5, realizado pela Maurício de Sousa Produções, criador da Turma da Mônica.

A falta de equipamento apropriado, ainda não permite que sessões normais de cinema tenham a possibilidade de usar a audiodescrição previamente gravada de forma simultânea. Mas as cópias audiodescritas possibilitam a exibição de formas específicas do filme fora do circuito do cinema, como em escolas e associações e até mesmo sua comercialização. É o caso do filme "Antes que o mundo acabe". Nas cópias do DVD que irão ao mercado, além das opções tradicionais de legendas, haverá também a de audiodescrição.

De 2009 para cá, o número de sessões especiais com apresentações de filmes com essa opção vêm aumentando no Estado. Um exemplo foi a comemoração, no ano passado, do bicentenário do nascimento de Louis Braille, francês criador do sistema de leitura e escrita para cegos, quando a Biblioteca Publica do Estado promoveu uma agenda cultural que incluiu um painel de especialistas, exposições, lançamento de livros em braille, declamações de Mário Quintana e apresentação do filme "Além da Luz", do cineasta brasileiro radicado em Nova York, Ivy Goulart. Rodado no Brasil e na França, o documentário, adaptado para surdos e cegos, retratou a vida de quatro deficientes visuais através de relatos otimistas em relação as suas condições físicas, em que o caminho para uma vida normal é a educação e a informação.

Marli destaca o resultado satisfatório: "Foi emocionante ver a história na França, onde o menino Braille criou algo que valeu para toda a humanidade".

"O filme traz uma mensagem muito bonita para as pessoas, porque retrata a vida dos deficientes visuais, com suas conquistas e dificuldades", afirmou. Ela comenta que a biblioteca pensa em fazer uma nova sessão, mas ainda não há uma data prevista.

Também merece destaque a exibição do filme "Antes que o mundo acabe" no Santander Cultural. Todos os ingressos foram vendidos cinco dias antes da data da sessão. O cinema do Sindicato dos Bancários, Cine Sindibancários, foi sede da quarta edição do Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência, organizado pela ONG Assim Vivemos. Foram exibidos 14 filmes de 11 países diferentes nos quais a temática central são as diferentes formas de deficiência. Todas as sessões contavam com várias formas de acessibilidade como a linguagem de Libras, Closed Caption, além da audiodescrição. O longa "Saneamento Básico – O Filme", dirigido por Jorge Furtado e produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre com narração da Habanero, foi exibido durante a 13ª Semana Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência. O filme já havia sido exibido durante o Festival de Gramado, porém com locução ao vivo. Todas as sessões realizadas tiveram lotação máxima.

Moises Bauer, presidente da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul, mesmo indo ao cinema com certa frequência, sentia a necessidade de um suporte nas sessões. Dessa maneira, tem a possibilidade de assistir ao filme sem precisar que sua companhia descreva as cenas e explique a história. "Quando se fala em acessibilidade, pensa-se em rampas e lugares para cadeiras de rodas. Para deficientes com dificuldades sensoriais, a dificuldade ocorre no acesso à informação". Bauer destaca que um dos grandes desejos dos cegos no Brasil é que a técnica seja inserida nos programas da televisão aberta, para que consigam assistir a novelas, telejornais e outras produções.

No ano de 2004 foi criada uma legislação brasileira para que houvesse maior acessibilidade de informações para deficientes sensoriais. Em 2006, com o apoio da ONU, houve um acréscimo na lei que dava o prazo de dois anos para que os canais televisivos utilizassem a audiodescrição em seus programas. As emissoras alegaram que não tinham conhecimento e tecnologia para a sua aplicação. Hoje, existe a expectativa de que a legislação seja cumprida em breve, pois com os diversos lançamentos de filmes com as técnicas e com a possibilidade da televisão digital, os problemas alegados podem ser resolvidos. Sendo assim, Bauer se mantém esperançoso no que diz respeito ao futuro. Um número crescente de exibições justificam essa ideia e mostram que deficiência visual não é sinônimo de cegueira cultural.

Por Gerson Raugust, Jéssica Mello e Larissa de Bem

Matéria produzida para a disciplina de Jornalismo Digital, sob orientação dos professores André Pase e Marcelo Träsi

Fonte: Primeira Fila – publicado por Bibiana Saldanha em CYBERFAM

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