Brincadeira é coisa séria

Não tenho formação em Pedagogia ou qualquer outra área correlata que me ofereça condição técnica para tratar do assunto. Dito isto, não posso deixar de lembrar que fui criança, e hoje sou pai. Essas duas credenciais então, me deixam à vontade para ao menos brincar de falar sobre brincadeira.

Penso que as crianças, quando brincam, boa parte das vezes estão simulando condições que gostariam de viver enquanto adultas. Em outros momentos, se distraem por meio de jogos e atividades que lhes colocam desafios fazendo com que, pouco a pouco, elas descubram e questionem o valor das diferentes habilidades.

Pensando no passado, fiquei admirado em observar como a sabedoria infantil privilegia a inclusão e a acessibilidade. Lembro-me bem das alternativas que eu e meus amiguinhos encontrávamos para brincar de bola. Sem que tivéssemos uma daquelas preparadas, com guizo, e simplesmente providenciávamos uma sacola plástica bem barulhenta que pudesse, com a bola ensacada, fazer com que eu soubesse o tempo todo onde ela estava. Ser cego também nunca me impediu de brincar de pega-pega, já que os colegas adoravam me ajudar fazendo barulho para eu saber sempre onde cada um estava. Cabra-cega era outra brincadeira, sempre eleita entre as preferidas, pois já trazia a solução pronta para minha participação.

O mercado, porém, não contribui para que essa condição, e por que não dizer, esse instinto humano tão presente na infância seja cada vez mais desenvolvido. Não foram poucas as vezes que me deparei com colegas e pais produzindo adaptações caseiras para possibilitar minha participação em jogos com tabuleiros e cartas produzidos sem o mínimo de preocupação em incluir. As adaptações eram eficientes e simples. Em um jogo de xadrez, por exemplo, bastava marcar o tabuleiro com velcro, sendo as casas pretas com círculos e as casas brancas com quadradinhos. O dominó já tinha identificação tátil e o baralho realmente não dava para entender porque não vinha pronto, já que bastava uma pequena marcação braille nos cantos.

Ter à disposição para comprar uma linha de brinquedos e jogos já pensados para todos é, sem dúvidas, poder comprar para o filho pequenos exemplos de inclusão que lhes permitem crescer em meio a essa ideia, não fazendo com que essa condição humana seja sufocada por uma miopia mercadológica. Uma vez uma amiguinha me disse, "por que a Pantera Cor de Rosa não fala? Desse jeito você não pode assistir!". Sem saber, ela estava falando da audiodescrição tão combatida pelo até pouco tempo ministro das Comunicações, e atual derrotado nas urnas mineiras, Hélio Costa.

Brincadeira pode se tornar coisa séria, com efeitos positivos ou negativos, dependendo da contribuição que os adultos venham a dar para esse resultado. Crianças querem estar todo o tempo juntas e se divertindo.

Assim, para elas qualquer coisa que impeça essa farra repleta de gritos, risadas, choro e guloseimas não passa de brincadeira de mau gosto.

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Fonte: Diário do Grande ABC

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