TV Digital sem distinções para usuários

Poucos dias antes do Congresso SET 2010 e da Broadcast & Cable, foi dado o primeiro (e importante) passo na tentativa de promover um modelo de acessibilidade para pessoas com deficiências e analfabetos em TV Digital. Diferentes pontos de vista e experiências vivenciadas pelo governo, membros do Fórum SBTVD e a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), pesquisadores de universidades, do Comitê Brasileiro de Acessibilidade e da Organização Nacional dos Cegos do Brasil foram discutidos durante o I Workshop de Acessibilidade em TV Digital, promovido pelo Fórum SBTVD e a ABNT.

O encontro foi marcado pelo alto nível das discussões, do conhecimento técnico e aprofundado dos participantes e de um consenso: a necessidade imediata de criar aplicações interativas para pessoas com deficiência na TV, que há décadas, é o principal meio de comunicação e entretenimento da população.

"Desenvolver a consciência para criar soluções para essas pessoas talvez não fosse a prioridade de uma ação inicial do governo, das empresas e do Fórum SBTVD, porque havia um prazo para colocar o sistema no ar, para dar forma ao que estava previsto no decreto 5.820 (da TV digital). Hoje, como a cobertura que atingimos (cerca de 70 milhões de habitantes atingidos), é mais do que necessário amadurecer essa necessidade", disse Ana Eliza, coordenadora do módulo técnico do Fórum SBTVD.

Com o término da primeira etapa de seus trabalhos, que foi a padronização do Ginga, o Fórum agora se organiza para repensar a acessibilidade, ao mesmo tempo em que o Ministério das Comunicações determinou que as emissoras terão que transmitir no mínimo duas horas semanais de programação audiodescrita no prazo de 10 anos.

Também pela primeira vez, desde que foram criadas as normas ABNT CB/40 (que ainda não estão totalmente completas no que tange à acessibilidade, com a necessidade de mais avaliações sobre seu funcionamento e do desenvolvimento de protótipos) o público-alvo, ou seja, os portadores de necessidades especiais, tiveram oportunidade de expressar sua visão de consumidor, defendendo a criação de um desenho universal e do preço acessível a esses usuários.

"Em cinco anos de TV digital, nós nunca falamos com os usuários, mesmo porque pensamos nessa discussão como comunicação de massa. Quando falamos de pessoas com deficiências, os requisitos são mais sutis. Os requisitos nascem de um diálogo que temos que fazer e de uma percepção que nós não temos", levantou Marcelo Zuffo, membro do Fórum SBTVD e pesquisador do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da USP. "Quando falamos de acessibilidade, a participação quantitativa de usuários é fundamental. Eles precisam nos validar nessa questão", continuou.

Paulo Romeu Filho, consultor da Organização Nacional dos Cegos do Brasil abriu o encontro, destacando a necessidade de audiodescrição na programação para o usuário cego, da importância do intérprete de libras e dos recursos necessários de closed caption para os surdos. Em sua fala, Romeu Filho reforçou ainda o desenho universal como a melhor solução. "Queremos que preferencialmente, todos os projetos já sejam pensados para a população com necessidades especiais. O custo se dilui na medida em que todos estão comprando os mesmos equipamentos, e isso é muito diferente de deixar que apenas uma parcela da população pague sozinha todo o custo de desenvolvimento e produção de uma série de Set Top Boxes adaptados. Para uma linha de montagem que fabrica milhares de produtos por dia, fazer apenas uma série pequena de produtos para deficientes é caríssimo", destacou.

O consultor lembrou ainda que, nos Estados Unidos, a Microsoft incluiu recursos de acessibilidade no Windows e a Adobe em seus produtos depois que a Section 508 foi assinada pelo ex-presidente Bill Clinton, que dá preferência na aquisição de produtos que tenham acessibilidade embarcada, e não adotada, passou a vigorar. "Nessa linha, não desconsiderando as questões de custos exagerados, mas todas essas discussões deveriam seguir para a linha do desenho universal", defende.

A dificuldade dos fabricantes em construir ou adaptar produtos que atendam as necessidades dos usuários especiais foi colocado por Flávia Vital , Coordenadora Geral de Informação e Comunicação da Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ela defende que o governo deve fomentar investimentos em tecnologia, mas que as empresas estão erradas em atribuir a maior parte dos custos ao governo. "Quando se quer comprar uma TV para pessoas com necessidades especiais, ai o preço é caro, é um custo adicional, e a indústria não vê isso como um negócio. A indústria ainda não nos vê como consumidores", diz.

Experiências

Bons exemplos não faltaram para mostrar que é possível incluir social e digitalmente as pessoas com necessidades especiais, e mais que isso, que os projetos são viáveis para as indústrias. Usando a abordagem de projetos centrados nas reais necessidades e habilidades do usuário final, Lara Schibelsky Godoy Piccolo, pesquisadora do CPqD, apresentou o modelo de interação inclusivo desenvolvido pelo instituto, para orientar projetistas de interfaces interativas na construção de soluções que contemplem as características da população brasileira de maneira mais ampla possível, incluindo pessoas com baixa alfabetização e pessoas com deficiência. O projeto piloto foi implantado nas cidades paulistas de Santo Antônio de Posse e Bastos, incluindo digitalmente centenas de pessoas.

Considerando que as experiências de interatividade na web não foram bem sucedidas, a pesquisadora destacou que os estudos tinham como preocupação não repetir os mesmos erros cometidos na web em acessibilidade, entre eles o surgimento da norma regulatória da internet, a W3C, depois que os sites já estavam no ar. "Há muitos portais em funcionamento e para adaptá-los à norma regulatória, o programador altera o código e assim conseguem selo de acessibilidade exigido. Qualquer alteração sem os cuidados necessários, os selos deixam de ser válidos, e quem perde com isso é o usuário", conta Lara. Outra questão apontada foi o fato do aluno sair da universidade aprendendo a programar sem pensar em acessibilidade.

Tiago de Araújo, que faz parte de grupo de trabalho coordenado pelo Prof. Guido Lemos, da Universidade Federal da Paraíba (LAVID/UFPB), apresentou o projeto "Pesquisas em libras", que tem como objetivo principal a geração automática de legendas na linguagem dos sinais e de um dicionário colaborativo nessa linguagem, que facilite o desenvolvimento da tradução simultânea por meio de animações em 3D.

O Laboratório de Sistemas Integráveis da Universidade de São Paulo possui linhas de pesquisa e desenvolvimento para viabilizar a acessibilidade no SBTVD. Estas linhas de pesquisa passam por monitoramento de sinal transmitido, mecanismos acessíveis de interação com o receptor de televisão digital, sistemas de locução de menus de receptores, libras, audiodescrição entre outros. No encontro, o professor Marcelo Zuffo apresentou o protótipo de um controle remoto que pode ser acionado por controle de voz, por vibração, por sopro, entre outras soluções.

Preocupações

Mesmo sem representantes da indústria presente no evento, o setor deixou o seu recado: a indústria teme o acréscimo de funcionalidades que não serão usadas por todos os usuários de receptores e o custo envolvido. Para Guido Lemos, essa é uma preocupação legítima. Na visão do professor, com o terminal interativo é possível dar um tratamento adequado para as questões de acessibilidade, minimizando o impacto do receptor geral. "Podemos trabalhar em receptores especializados em funções específicas que não precisam estar embarcadas que não impliquem em modificação de hardware e software de todos os receptores". E continua: "A aplicação de libras não precisa ser executada em todos os receptores, apenas nos receptores dos usuários que tenham necessidade de utilizar essa aplicação. Também não é preciso ter suporte de audiodescrição embarcado em todos os terminais, mas pode ter uma aplicação específica que traga a questão da audiodescrição e isso é possível aplicar com os receptores interativos".

Lemos sugeriu ainda a criação de um grupo de trabalho específico apoiado num projeto que mobilize toda a tendência nacional pra chegar em soluções que sejam apropriadas para o País e que provoquem uma ação do governo no financiamento de pesquisas de protótipos e transferência de tecnologia para indústria de soluções acessíveis para televisão. "Esse problema é enorme, por isso precisamos fazer algo que seja aceito pela indústria de recepção e da transmissão, que seja compatível com as normas e que viabilize a aplicação delas. Temos que ter soluções inteligentes, baratas, flexíveis, que viabilizem realmente que a coisa aconteça", frisou.

Nessa questão, Zuffo entende o desenvolvimento de um terminal acessível tem que ser igual pra todos e isso já é uma tendência. "Tenho defendido bastante o conceito do desenho universal porque do ponto de vista de receptores, não vai ter intervenção nenhuma de hardware, somente software. É um investimento mínimo do que foi feito até agora. O esforço foi irrisório, mas tem que ser feito". O pesquisador diz também que "essa questão que o custo alto do desenvolvimento é mito. Na USP estamos desenvolvendo um receptor acessível inicialmente com recursos do governo e agora com recursos próprios", enfatiza Zuffo.

Lara diz que o CPqD já criou modelos de receptores capazes de suportar recursos de interatividade e acredita que esse mercado vai se expandir. "O fato de a gente ter receptores com quantidade limitada não significa que a questão da acessibilidade não é aprendida. Mas essa significa uma primeira etapa. Temos que fazer a coisa acontecer, não só no que tem disponível, mas pensar numa estrutura para ter a qualidade de uso e não só para cumprir leis".

Guido Lemos ainda afirma que as soluções instaladas em terminais alternativos representam custo zero e a melhor saída é resolver problemas de acessibilidade com aplicações interativas. "Se forem desenvolvidas e tiverem financiamento, elas representarão impacto zero pro receptor. Se definirmos coisas obrigatórias pra todos os receptores, isso enfrenta resistência e nós precisamos provar que isso realmente é essencial, assim é mais fácil de ser aceito pela indústria", destaca.

Como representante na Organização Nacional dos Cegos do Brasil, Romeu é enfático em dizer que sendo necessário alguma adaptação do hardware e se for pra beneficiar um bom numero de pessoas, esse custo tem que ser assumido pelos fabricantes em todos os equipamentos, não só naqueles adaptados."Esses são questionamentos de pessoas que pela primeira vez foram ouvidas não só como cidadãos, mas como consumidores. Hoje somos 25 a 29 milhões de brasileiros. Queremos deixar de ser beneficiários da assistência social para sermos beneficentes da sociedade em geral".

Ambiente regulatório no Brasil

Os direitos e desafios criados pela legislação sobre a implementação das modalidades de acessibilidade dentro do ambiente da TV Digital foram destacados por Ioma Carvalho, advogada e membro do Fórum SBTVD. Sobre as normas que regulam as diversas modalidades de acesso de deficientes físicos a esse padrão de TV, a advogada afirmou que "a legislação regulamentária de acessibilidade em TV digital ainda é nova e extensa para serem cumpridas rapidamente. por isso, elas precisam de um empurrão para crescer", diz.

No final do encontro, a mediadora Ana Eliza frisou a importância do Fórum em utilizar o canal da instituição com o governo para selecionar investimentos e linhas de financiamento nas indústrias de tecnologia para esse assunto. Trata-se de um grupo organizado dentro da comissão pra trabalhar o tema e com isso montar um grupo de trabalho. "A primeira proposta é montar um guia de operação, buscando o desenho universal, as aplicações interativas que foram concebidas com recursos de acessibilidade, já que elas têm esse foco em tecnologias assistivas, podem conseguir baixo impacto no hardware, que sejam embarcadas e não adaptadas nos receptores".

Saiba mais sobre o I Workshop de Acessibilidade em TV Digital:

Fonte: Revista Produção Profissional

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