A inclusão me escolheu

Responsável pelo trabalho de acessibilidade da Circus Produções , o professor Ernani Ribeiro encara a inclusão social como filosofia de vida.

Com apenas 29 anos, e prestes a concluir o mestrado em Educação pela UFPE , o professor
de Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS, e áudio-descritor Ernani Ribeiro, já acumula doze anos de
experiência no campo da inclusão social. Como professor , Ernani é responsável pelas disciplinas de LIBRAS
da Escola Superior de Educação Física (UPE) e da Faculdade de Ipojuca . Paralelamente à dura jornada
acadêmica, ele é consultor de empresas na área de acessibilidade, ministra cursos de LIBRAS e palestras em
vários Estados do País.

Em setembro deste ano, Ernani Ribeiro se juntou à equipe da Circus Produções ,a convite do Diretor José Francisco Filho, para orientar o grupo na inserção da Língua Brasileira dos Sinais e da áudio-descrição nos espetáculos .

Em entrevista ao Site Circus nas Artes, ele falou sobre carreira, inclusão social , teatro e contou um pouco de sua história.

Como se deu o seu primeiro contato com a Inclusão social?

Eu ainda estava no ensino médio. Em 1997, comecei a conviver com os surdos na escola. Senti a necessidade de me comunicar melhor com o grupo, e, aos poucos , fui aprendendo a Língua Brasileira de Sinais. No ano seguinte, comecei a atuar como intérprete em movimentos sociais e igrejas.

O senhor fez cursos para aperfeiçoar a língua?

Sim. Estudei na Associação de Surdos de Pernambuco, a ASSPE, e na Universidade Federal de Pernambuco .

O senhor considera a LIBRAS uma língua difícil?

Não. A LIBRAS como qualquer outra língua tem uma estrutura própria. A gramática, a sintaxe, os verbos e todos os outros elementos que compõem a estrutura lingüística estão presentes da mesma forma. Por isso , o bom desempenho vai depender da dedicação , do estudo e principalmente da prática.

Em que momento o trabalho como tradutor de LIBRAS se transformou em profissão?

Tudo aconteceu naturalmente . O trabalho nos movimentos sociais e nas igrejas, me deu a experiência necessária para trilhar uma carreira, e abriu portas para novas oportunidades. À partir de 2002, passei a receber convites para atuar como intérprete em eventos e escolas da rede municipal e estadual.

E como a inclusão social foi levada para a sua formação acadêmica?

Durante a graduação em História , comecei a estudar a importância da imagem na comunicação, e pude aprofundar a pesquisa no curso de especialização em História das artes e da Religião na UFRPE. Lá eu entendi como as artes plásticas interagem com a comunicação. A imagem sempre me fascinou e os estudos me mostraram que ela poderia ser um excelente recurso para facilitar o aprendizado do surdo. Todo esse material me serviu de base para o mestrado em educação na UFPE, onde ampliei o conhecimento e tive o primeiro contato com a áudio-descrição.

O que é a áudio-descrição e como o senhor passou a pesquisá-la?

A áudio-descrição é uma técnica de tradução visual que transforma em palavras tudo o que é visto . Através de fones de ouvido sem fio, os usuários deste serviço recebem do profissional ,chamado áudio-descritor, informações sobre as imagens . O recurso facilita a compreensão das pessoas cegas ou com baixa visão, e pode ser empregado na televisão, nos teatros, no cinema e em museus por exemplo. Tudo isso me encantou e vi que poderia enriquecer ainda mais a pesquisa de mestrado. Sob a orientação do professor Francisco Lima, coordenador do Núcleo de estudos Inclusivos da UFPE, pude conhecer o universo do cego e desde então, atuo no núcleo como pesquisador e áudio-descritor do grupo"Imagens que falam". Hoje, estou concluindo a minha dissertação, onde estudo a aplicação da técnica na educação dos surdos. É um processo complexo e único no mundo . O objetivo é fazer da áudio-descrição, uma mediadora entre a imagem e o texto escrito.

O senhor é professor de Língua de Sinais em duas faculdades . Como as instituições de ensino superior encaram a acessibilidade hoje?

Inclusão social é lei, e as Universidades precisam preparar profissionais capacitados para lidar com acessibilidade em todas as áreas. Fico feliz por ver turmas lotadas e alunos interessados em entender e lutar pelo direito à inclusão. A sociedade não pode ficar alheia a essa realidade e, por isso, as instituições de ensino devem incluir disciplinas específicas na grade curricular de todos os cursos.

E como o teatro surgiu na sua vida?

Em 2008 tive as primeiras experiências no teatro. Fizemos a áudio descrição das peças " O menino que contava estrelas" , do grupo de Teatro Assíntota e " Os cegos" de Michel de Ghelderode, amabas no teatro Joaquim Cardoso. No ano passado trabalhamos no espetáculo "Ninguém mais vai ser bonzinho" de Diego Molina, inspirado no texto de Cláudia Werneck, sendo esta, no Teatro da faculdade FAFIRE.

Como teve início a parceria com a Circus Produções?

Recebi o convite do ator e assessor de imprensa da Circus Produções, Ismael Holanda, para assistir a peça A Revolta dos Brinquedos . O espetáculo é muito rico , cheio de movimentos e repleto de piadas visuais. Ora, se uma peça está há 40 anos no mercado com tanto sucesso, por que não ampliar o público e levar o trabalho às pessoas com deficiência visual? Na semana seguinte fui convidado pelo diretor da Circus, José Francisco Filho, a ministrar uma palestra sobre acessibilidade para os integrantes do grupo. Lá pude expor a idéia, que imediatamente foi aceita por todos. Logo em seguida, José Francisco sugeriu fazermos a tradução do espetáculo para a Língua Brasileira de Sinais e, para isso, foi convocado o intérprete de LIBRAS José Carlos Santos . Hoje temos a primeira peça teatral em Pernambuco que une as duas formas de acessibilidade. Após o encerramento da temporada , recebi de José Francisco a missão de orientar a equipe da Circus Produções nos próximos trabalhos de inclusão social. É uma honra poder contribuir para a ampliação da acessibilidade no Estado. Estamos dando início a um processo de transformação no teatro pernambucano.

E como o senhor avalia a receptividade do público?

Foi muito boa. O público recebeu bem a idéia e se mostrou curioso com as novidades. Por outro lado, estamos falando de uma experiência nova . Pernambuco não dispõe de teatros com este serviço e, por isso, muitas pessoas com deficiência ainda se privam de buscar o entretenimento . Neste sentido, ainda estamos formando um público. Nas duas semanas em que utilizamos a LIBRAS e a áudio-descrição, tivemos a presença de um número pequeno de surdos e cegos, apesar da grande divulgação e apoio da mídia. Por outro lado, nos consideramos satisfeitos por termos dado o primeiro passo . Nosso desejo agora é continuar com a mesma filosofia, sempre com peças inclusivas. E quando falamos em inclusão , deixamos claro que o espetáculo não é apenas para pessoas com deficiência e sim, para todos.

Como o senhor vê a acessibilidade em Pernambuco?

Vejo Pernambuco com grande possibilidade de crescimento. O Estado já começa a acordar para a realidade da pessoa com deficiência, mas ainda falta muito para termos uma política inclusivista . As nossas ruas , construções e o transporte público ainda não estão preparados para receber o cidadão com deficiência. O poder público e os órgãos competentes precisam capacitar mais professores e disponibilizar recursos de apoio à pessoa com deficiência, como salas especiais, computadores, intérpretes e material didático especializado.

A luta por uma sociedade mais inclusivista tem valido a pena?

Não tenho dúvidas disso. É um trabalho difícil , mas gratificante. Sei que não é possível transformar toda a realidade, mas tenho feito minha parte para contribuir para uma melhor qualidade de vida da pessoa com deficiência . É uma filosofia de vida, uma missão, não tem como fugir disso. Já tentei atuar em outras áreas profissionais, mas sempre fui trazido de volta. Costumo dizer que a inclusão me escolheu.

Fonte: Circus nas Artes

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