Pilar da Áudio-Descrição

Reflexões Sobre o Pilar da Áudio-descrição: Descreve O Que Você Vê
Fabiana Tavares dos Santos Silva
Viviane de Bona
Andreza da Nóbrega Arruda Silva
Isis Carvalho
Elisangela Viana da Silva

RESUMO
O presente artigo discute as questões da acessibilidade das pessoas com deficiência visual às imagens que circulam em contextos educacionais, culturais e de lazer. Defende que a áudio-descrição é, ao mesmo tempo, um recurso assistivo, uma técnica de tradução visual e um gênero textual, situado na filosofia inclusivista. Aborda a conceituação da áudio-descrição mostrando o que a diferencia da tipologia descritiva e indicando quais as bases utilizadas pelo áudio-descritor para tornar imagens acessíveis. E ainda, a partir da percepção da imagem, em especial de uma imagem ambígua, comumente trabalhada na Psicologia, reflete o pilar da áudio-descrição “Descreva o que você vê”. Conclui que essa orientação traz à ação do áudio-descritor a imparcialidade e ao usuário de serviço as possibilidades de interpretação das imagens disponíveis.

Palavras-chave: áudio-descrição, descrição, gênero textual, pilares da áudio-descrição.

ABSTRACT
This article discusses the issues of people accessibility with visual impairments to the images that circulate in educational settings, cultural and leisure activities. Argues that the audio description is, at the same time, an assistive application, a visual translation technique and textual genre situated in the inclusivist philosophy. Discusses the concept of audio description showing distinct of descriptive typology indicating the bases used by the audio-describer to make images accessible. And besides, from the image perception, especially of an ambiguous image, usually worked in psychology, reflects the pillar of the audio description “Describe what you see.” Concludes that this orientation brings the action of the audio-describer impartiality and the service user the interpretations possibilities of available images.
Keywords: audio description, descrition,genre, pillars of the áudio description

1. Considerações iniciais

A densidade de imagens visuais que permeia os mais variados espaços físicos, diariamente, em textos de natureza pragmática, da cultura popular ou de cunho educacional, bem como o surgimento de hipertextos oriundos dos diversos ambientes virtuais, tem fomentado a necessidade de discutirmos sobre a acessibilidade das pessoas com deficiência visual a tais produções que incorporam a intersemiose ao conceito amplo de linguagem.
A linguagem imagética é permeada de sentidos/significados, guiada por intencionalidades, aplicada em contextos sociais, educacionais, laborais ou de lazer e cumpre múltiplas funções: informar, divertir, persuadir, instruir, ordenar etc. Quando o acesso a esse viés da comunicação fica prejudicado, prejudicada está à acessibilidade comunicacional. Logo, o direito de participar ativamente na construção, entendimento e avaliação do que é produzido socialmente é infringido.
Esta discussão, acerca do acesso às imagens veiculadas em vários campos, é comunicante com o brotar de gêneros emergentes das situações e necessidades sociocomunicativas e da sintaxe própria da linguagem visual, pressupõe a integração entre as esferas da legislação, da semiótica visual e da linguística. Nesse sentido, algumas questões surgem como motrizes a construção deste artigo: Existe diferença entre a descrição e a áudio-descrição? A áudio-descrição é um novo gênero textual? Além do pilar “descreva o que você vê” que outros aspectos estão presentes numa áudio-descrição eficiente? Quais são as atitudes esperadas do áudio-descritor em sua prática?
Refletir sobre tais problematizações é também considerar que as imagens contribuem, produzem e até ressignificam as relações sócio-culturais. Imagens são construídas para que se alcance variáveis objetivos na comunicação e essa heterogeneidade de funções pode ser esvaziada de sentido ao leitor que precisando do recurso da áudio-descrição não o encontre disponível. Este texto surge aportado a várias questões, ampliado por visões diversas e compreensões que convergem na busca de uma sociedade onde a imagem prevalecente seja a do acesso de todos a tudo que lhes é de direito. A imagem feita palavra ou a palavra feita imagem constituem as trilhas deste trajeto.

2. Descrição e Áudio-descrição: revisitando algumas conceituações

O conceito de áudio-descrição é alvo de muitas reflexões ideológicas, jurídicas, filosóficas, e não se esquiva aos embates linguísticos, situados inclusive na utilização do hífen.
Quanto ao uso desse sinal gráfico em palavras compostas, o “Vocabulário Ortográfico da Língua Brasileira” (2009), publicado pela Academia Brasileira de Letras, no item XIV, afirma que
45. Só se ligam por hífen os elementos das palavras compostas em que se mantém a noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas que mantêm a sua independência fonética, conservando cada um a sua própria acentuação, porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido (VOLP, 2009, LXXIX).
Segundo Oliveira (2010), na composição de palavras
temos, via de regra, duas bases para formar uma nova palavra, ou seja, duas idéias particulares, ocorrendo uma especialização de sentido: como em queda-de-braço, dama-de-ferro, força-tarefa, eleitor-fantasma, pente-fino, estação-tubo, seguro-desemprego. Este processo caracteriza-se não apenas pela junção de duas formas independentes, ou a existência de pauta acentual de uma certa natureza, mas a distinção reside no campo morfossemântico. Em seguro-desemprego, por exemplo, há uma unidade significativa em que um dos elementos não pode ser suprimido, assim como em couve-flor, rádio-amador, palavra-chave etc.
Este processo é o que ocorre com a palavra áudio-descrição, ou seja, o vocábulo áudio (De audi(o)- (q.v.).] S.m. 1. Eletrôn. O som audível, reproduzido eletronicamente ) que pode ser classificado gramaticalmente como substantivo masculino, adjetivo ou funcionar como prefixo; quando usado na formação da palavra áudio-descrição não tem o objetivo de mudar, estritamente, o sentido do termo descrição (exposição circunstanciada feita pela palavra falada ou escrita), mas de juntos constituírem um novo substantivo com função, significado/sentido próprios (LIMA et.al. 2009):
Áudio-Descrição: Serviço de apoio a comunicação que consiste no conjunto de técnicas e habilidades aplicadas, com objetivo de compensar a carência da capitação da parte visual contida em qualquer tipo de mensagem, fornecendo uma informação sonora adequada que a traduza ou explique, de maneira que o possível receptor com capacidade visual diminuída perceba tal mensagem como um todo harmônico e da forma mais parecida o possível de como seria para uma pessoa que enxerga a compreenderia (AENOR, 2005).
Quanto ao uso do hífen na palavra áudio-descrição, apesar de não termos encontrado este vocábulo dicionarizado nos suportes em que pesquisamos, podemos afirmar, a partir desta regra, que é um substantivo composto, que não perdeu a noção de composição e os dois elementos que o constituem tem sentido/significado na língua portuguesa brasileira, ao contrário do que pode ocorrer quando a palavra áudio funciona como prefixo, por exemplo, em audiofone.
Portanto, é relevante esclarecer que as dúvidas quanto a escrita adequada de áudio-descrição surgem em razão da interpretação das regras que orientam a ortografia de vocábulos como audiovisual, audiofone, audiograma, audiometria etc as quais , de acordo com o Scarton e Smith (2002) e Rios (2009), são constituídas pelo prefixo latino áudio (lat audio), sendo nestes casos desnecessário o uso do hífen, pois este prefixo é um morfema que se coloca antes dos radicais (parte fixa, invariável da palavra) basicamente a fim de modificar-lhes o sentido e raramente produz mudanças na classe gramatical da palavra primitiva.
Baseando-nos em estudos, realizados por Oliveira (2010), sobre estrutura das palavras, podemos afirmar que os vocábulos em que áudio funciona como prefixo
são formados por uma base apenas, ou seja, por elementos que apenas acrescentam um novo significado ao significado primitivo dos vocábulos em questão, mas não criam uma nova palavra, não ocorrendo, portanto, com essas formações, uma especialização de sentido
A estruturação dessas palavras é diferente do que ocorre com áudio-descrição, pois esta não significa descrição, nem áudio, é uma tradução visual, ou seja, as palavras juntas compõem uma nova unidade semântica dissociada da noção expressa pelas unidades que a constitui. Há um “distanciamento entre o significado do todo e o significado das partes que é normal pela própria função da nomeação” (OLIVEIRA, op.cit)
Discutir sobre a escrita da palavra áudio-descrição é tomar consciência não somente da orientação ortográfica vigente no Brasil, mas da natureza semântica que o vocábulo comporta. Nesta linha, concordamos com Lima et al ( 2009, p. 3) ao afirmar que
a ortografia desse vocábulo apresenta um traço de união que nos remete a uma nova construção, a partir da composição de elementos distintos e com significados diversos bem conhecidos, o real sentido da áudio-descrição também nos remete a uma nova compreensão do direito à informação e à comunicação. Por conseguinte, o significado dos vocábulos áudio e descrição é bem mais que a união dos dois elementos que o compõem, não sendo, portanto, a mera narração de imagens visualmente inacessíveis aos que não enxergam. A áudio-descrição implica em oferecer aos usuários desse serviço as condições de igualdade e oportunidade de acesso ao mundo das imagens, garantindo-lhes o direito de concluírem por si mesmos o que tais imagens significam, a partir de suas experiências, de seu conhecimento de mundo e de sua cognição.

Partindo desse embate semântico, algumas questões surgem no que se refere à descrição e à áudio-descrição: Existe diferença entre tais conceitos? Quais as características pertinentes da áudio-descrição que lhe conferem um conceito particular?
A descrição, no latim descriptione, é definida no dicionário Michaellis (2002, p.245) como
1 Ação ou efeito de descrever. 2 Lit Tipo de composição que consiste em enumerar as partes essenciais de um ser, geralmente adjetivas, de modo que o leitor ou ouvinte tenha, desse ser, a imagem mais exata possível. 3 Enumeração das qualidades ou caracteres (de animal ou pessoa). 4 Enumeração, relação.

Já a áudio-descrição (AD) é compreendida como um serviço cujo alvo são as pessoas cegas ou com baixa visão, o qual é caracterizado por “uma narração adicional que comunica vestimentas, linguagem corporal, e piadas visuais numa apresentação visual” (LIMA , 2010). Assim, as descrições concisas e objetivas inseridas entre partes do diálogo ou canção ajudam os ouvintes a entender importantes elementos visuais. Neste sentido, distinguir o texto descritivo e a áudio-descrição é relembrar que o primeiro “resulta sempre de um ato de escolha que engaja uma subjetividade enunciativa, manifestada através da explicitação de certos aspectos daquilo que se descreve” ( NEIS, 1985, p. 55 apud FURLANETTO, 2002, p. 89) ( Grifo no original). Enquanto que o segundo, pressupõe objetividade, ética e habilidades linguísticas na materialização do pilar “descreva o que você vê”, exigindo, portanto, do áudio-descritor a efetivação da técnica e a omissão de impressões pessoais. Por ser uma modalidade um tanto recente, a compreensão acerca da áudio-descrição tem se ampliado, podendo encontrarmos diferentes definições que parecem se complementar, a partir da interação com as diferentes áreas do saber. Destarte, a áudio-descrição pode ser classificada como uma

modalidade de tradução onde o que se pretende fazer é processar as informações permitindo a sua passagem de uma linguagem para a outra, procurando manter o maior nível de fidelidade entre o que está numa linguagem e o que é veiculado utilizando-se de outra (VIEIRA; LIMA, 2010, p. 4).

Esse conceito é reafirmado quando se situa a áudio-descrição no campo intersemiótico, conforme se encontra no site audiodescricao/objetivos do-grupo/

a áudio-descrição é modalidade de tradução audiovisual intersemiótica, onde as imagens, ou sinais visuais, são descritas em áudio, ou sinais acústicos, entre os diálogos. Ela otimiza a compreensão de produtos audiovisuais pelo público com deficiência visual. A AD pode ser pré-gravada (ex. em filmes de DVD), ao vivo (teatro e dança) ou simultânea (em qualquer produto audiovisual que aconteça sem uma preparação prévia, como por exemplo, nos programas de auditório e telejornais). A diferença entre as modalidades ao vivo e simultânea é basicamente a existência de um roteiro. Na primeira modalidade, o roteiro da AD é elaborado junto com o roteiro da peça ou do espetáculo de dança; na segunda modalidade, esse roteiro não existe e o áudio-descritor constrói seu texto na hora.

Serviço ou tecnologia assistiva e modalidade de tradução áudio-visual são definições atribuídas a áudio-descrição, cuja construção é permeada pelo próprio direito constitucional das pessoas que dela precisam e/ou desejam se utilizar. Ratificando esse entendimento, Lima et al. (2009) afirmam que o direito das pessoas com deficiência terem acesso a áudio-descrição é sustentado pela Lei nº 10.098, no Decreto Federal 5.296/2004, e no Decreto Legislativo 186/2008, que convergem na garantia da acessibilidade comunicacional.
Para assegurar esse direito, a pessoa que se propõe a áudio-descrever precisa além de desenvolver algumas técnicas e habilidades linguísticas, as quais comentaremos mais adiante, considerar que

a áudio-descrição não é uma descrição qualquer, despretensiosa, sem regras, aleatória. Trata-se de uma descrição regrada, adequada a construir entendimento, onde antes não existia, ou era impreciso; uma descrição plena de sentidos e que mantém os atributos de ambos os elementos, do áudio e da descrição, com qualidade e independência. É assim que a áudio-descrição deve ser: a ponte entre a imagem não vista e a imagem construída na mente de quem ouve a descrição (LIMA et al., 2009).

E na tessitura da áudio-descrição, do ponto de vista linguístico, surgem substantivas discussões e a necessidade de delinear sua especificidade enquanto gênero textual situado na filosofia inclusivista.

2. 1 – Áudio-descrição: gênero textual emergente?

Há pelo menos vinte e cinco séculos, no Ocidente, se fala sobre a constituição dos gêneros textuais. Um decurso que origina uma multiplicidade de entendimentos sobre esse tema em que a convergência reside, na maioria dos casos, em distinguir tipologia textual e gênero textual, o primeiro referindo-se à forma e, o segundo, ao conteúdo e função social que o originou e mantém vivo. Esse debate é pertinente quando buscamos compreender a tessitura da áudio-descrição enquanto fenômeno linguístico.
Sob essa égide, é relevante considerar que as denominações que damos aos gêneros não são uma invenção pessoal, mas uma denominação histórica e socialmente constituída.
Um exemplo desse fenômeno linguístico é a áudio-descrição conceitualizada, como vimos, como técnica de tradução e/ou recurso assistivo, mas que, numa crescente, encapsula e transcende tais denominações, quando essencialmente ocorre em resposta ao respeito aos direitos das pessoas com deficiência, e demais indivíduos que dela queiram se utilizar, é marcada por uma necessidade sociocomunicativa, registrada numa forma textual específica, embora não seja estanque, e situada num propósito comunicativo vinculado a constituição de uma sociedade de todos. De acordo com Marcuschi (2008, p.149), se “adotarmos a posição de Carolyn Millher (1984), podemos dizer que os gêneros são uma ‘forma de ação social’. Eles são um ‘artefato cultural’ importante como parte integrante da estrutura comunicativa de nossa sociedade”. Neste sentido, há muito a discutir e tentar distinguir as idéias de que o gênero áudio-descrição contempla a tipologia descritiva, mas não se limita simetricamente a sua essência textual.
A distinção entre tipo e gênero textual é explicitada por Marcuschi (op.cit., p.154-155):

Tipo textual designa uma espécie de construção teórica (em geral uma sequência subjacente aos textos) definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas, estilo). O tipo caracteriza-se muito mais como sequências lingüísticas (sequências retóricas) do que como textos materializados; a rigor, são modos textuais. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. O conjunto de categorias para designar tipos textuais é limitado e sem tendência a aumentar.

Segundo o autor, a conceituação de tipologia textual não pode ser considerada por uma lente dicotômica em relação à noção de gênero, mas deve situar-se no entendimento da constituição do funcionamento da língua em situações de uso. Assim, ao falarmos sobre gênero textual, estamos nos referindo aos

textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. (…) Os gêneros são entidades empíricas em situações comunicativas e se expressam em designações diversas, constituindo em principio listagens abertas (…) como tal, os gêneros são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas (MARCUSCHI, 2008, p.155).

Tais definições nos mobilizam a conceituar a áudio-descrição como um gênero textual, pois o propósito que determina seu formato é a necessidade sociocomunicativa emergente em contextos diferenciados como cultura, educação e lazer, e tal necessidade se refere especificamente à acessibilidade comunicacional das pessoas cegas ou com baixa visão inseridas nesses contextos. A áudio-descrição enquanto gênero demonstra em sua forma estrutural descritiva o uso de adjetivos; de verbos no presente do indicativo, flexionados na voz ativa; geralmente não apresenta relação de anterioridade/posterioridade, nem exprime impressão do áudio-descritor sobre a mudança de estado emocional de pessoas ou personagens. E ainda há um esquema cognitivo e linguístico a ser respeitado, o qual é constituído desde o plano de fundo de uma imagem estática ou dinâmica a contextualização social, educacional, histórica, política, artística ou mercadológica dessa imagem ou evento a ser áudio-descrito. Na esteira do entendimento acerca da distinção entre a descrição e a áudio-descrição, situa-se a intencionalidade da segunda em tornar acessível para a pessoa com deficiência visual o que não está disponível, através do tato, ou, imediatamente, pela fonte sonora natural do material. Além disso, é um gênero construído para ser lido por alguém, por exemplo pelo professor, ou mesmo pelo leitor de tela com sintetizador de voz; é um texto permeado pela função inclusivista de promover equiparação de oportunidades comunicativas, sociais, culturais entre as pessoas que queiram e/ou necessitem se utilizar do serviço e os demais sujeitos sociais.
Além disso, vale destacar a característica paratextual da áudio-descrição que nos recorda a propriedade mutável de um gênero textual , explicitada por Marcuschi (2008), posto que a áudio-descrição, situada em um domínio discursivo, terá em seu bojo características divergentes para atender as necessidades, objetivos, expectativas de seus usuários, embora sempre conforme alguns aspectos universais os quais já foram comentados ao longo deste artigo e serão expandidos no próximo item.

3- As bases da áudio-descrição: reflexões sobre a ação e postura do áudio-descritor

Ao preencher as lacunas informacionais de imagens estáticas ou dinâmicas não captadas por determinado público, o áudio-descritor não pode interferir em tais imagens e precisa seguir fielmente a regra geral “Descreva o que você vê!”. Aí reside uma especialização na constituição do gênero áudio-descrição e na veiculação deste: a objetividade.
Assim, na medida em que utiliza descritivos que atribuem qualidade e vivacidade a imagens e ações, o tradutor assume o papel de ator invisível, indispensável para o trabalho, cuja função no enredo é dirigir a atenção unicamente para o que está sendo descrito.
Como podemos depreender, fica evidente que esse profissional está sempre fazendo escolhas intelectuais do que dizer e essas deverão ser justificadas a favor da obra. Nesta linha, para prevenir que a individualidade do profissional se sobreponha a obra, é fundamental que a áudio-descrição esteja alicerçada pelo aporte teórico até hoje postulado.
Dentre os passos para áudio-descrever uma imagem, destaca-se a análise prévia da obra. De acordo com a norma espanhola UNE/153020 (AENOR, 2004), nesta etapa devem ser considerados três critérios, a saber:
a) As obras devem conter “espaços de mensagem” que permitam introduzir a informação áudio-descritiva nos momentos essenciais para poder continuar a trama.
b) Ao realizar a áudio-descrição, evitar a provocação de cansaço do ouvinte deficiente visual, por saturação de informação ou ansiedade pela ausência da mesma.
c) A áudio-descrição deve ser realizada no mesmo idioma no qual se apresenta a informação sonora da obra.

Partindo de tais orientações, podemos afirmar que ao realizar a áudio-descrição é emergente a construção de um repertório de informações sobre o que é possível dizer para possibilitar aos usuários da áudio-descrição a melhor construção imagética. No entanto, vale salientar que, muitas vezes, quando se trata de uma imagem dinâmica, o tempo é limitado para realizar as devidas inserções descritivas; considerando tal restrição, a descrição deve ser clara, objetiva e concisa, com uma linguagem direta e apropriada de acordo com o público-alvo (crianças, jovens, adultos). Contudo, se a imagem for estática, a exemplo das contempladas nos livros didáticos, além das orientações já mencionadas para a realização de uma AD, temos de considerar algumas particularidades. Primeiramente, partir da visão mais geral da imagem, apresentando uma espécie de resumo do que é visto. E, em seguida, consoante a The Audio Description Coalition Standards and Code of Professional Conduct (2010), detalhar as minúcias, tendo como ponto de partida a percepção dos elementos situados da esquerda para direita, do plano mais próximo para o mais distante. Quanto a apresentação das áudio-descrições das imagens dos livros didáticos, cremos que um percurso possível seria o de seguir o esquema aplicado aos trabalhos acadêmicos para inserção de informações complementares, que pode ser feito através do dispositivo de nota de rodapé, cuja finalidade é incluir no final da página informações complementares sem sobrecarregar o texto.
Essas descrições poderão ser lidas pelo professor na sala de aula, pelos pais ou responsáveis que acompanham o desenvolvimento escolar do aluno, ou até mesmo pelo próprio colega de classe. Outro recurso complementar, dialoga com a era digital e os avanços tecnológicos, seria disponibilizar o livro didático, na versão on line ou em CD-Rom, nesse caso todo o livro seria digitalizado e áudio-descrito com as notas de rodapé inseridas simultaneamente através de locução .
Independente da imagem ser estática ou dinâmica, a apropriação do contexto é fundamental para a qualidade da áudio-descrição, seja ela efetivada ao vivo, como no caso de teatro e dança; gravada, como em filmes; ou ainda esteja escrita acompanhando imagens estáticas, registradas em suportes textuais diversos: livros, folders, blogs etc. Nesse estudo prévio o áudio-descritor fundamenta a elaboração do roteiro, comumente utilizado quando o material artístico, cultural, publicitário é dinâmico. O roteiro é um recurso de suporte para a execução do trabalho do áudio-descritor que deverá ser discutido, preferencialmente, por mais de um profissional, por isso recomenda-se que o tradutor dialogue com artistas ou pessoas envolvidas na atividade em questão. Assim, quanto mais o roteiro é debatido, analisado e revisado, mais susceptível a acertos.
Neste caso, é também relevante lembrar que nem sempre quem faz o roteiro realizará a locução, portanto, é essencial que o texto seja claro e fiel ao objeto da áudio-descrição para que qualquer pessoa possa fazer a elocução dele. Assim, sugere-se que os tempos e intenções da locução sejam previstos mediante a inclusão de rubricas. Sumarizando as diretrizes em comento, o site ADINTERNACIONAL orienta que em meio aos elementos essenciais para a atitude do áudio-descritor estão: utilização da tipologia textual descritiva, objetividade, unidade processual e temática, repertório linguístico, neutralidade, pulsação rítmica (a locução acompanha a batida rítmica da obra), respeito ao silêncio comunicativo (a exemplo da sonoplastia que se constitui como elemento semiótico e comunicativo), apropriação da técnica de equipamentos (a fim de evitar variações de volume e interferência com ruídos na utilização do microfone), invisibilidade do áudio-descritor.
Em consonância com os desafios lançados às atitudes e posturas do áudio-descritor, reflitamos acerca de um território até hoje pouco contemplado na áudio-descrição: a percepção, compreensão e tradução visual de imagens ambíguas. Um conteúdo que nos convida a pensar sobre “Como possibilitar ao usuário da áudio-descrição as diversas leituras de uma mesma imagem? Qual o ponto de partida da áudio-descrição de uma imagem estática?” Essas entre outras questões serão discutidas a seguir.

4 – Percepção da figura: compreender para descrever

A compreensão que temos de uma imagem está vinculada a nossa percepção. Segundo Grieve (2009), a percepção é o processamento em nível do cérebro que transforma as informações dadas pelos nossos sentidos em experiência imediata do mundo.
No entanto, de acordo com esse mesmo autor, as nossas experiências passadas também exercem influência ativa sobre a percepção, além das influências do contexto na modificação do que percebemos.
Pode-se inferir, portanto, que uma mesma imagem visual pode ser percebida/compreendida de diferentes formas em um grupo, e quando essa imagem é ambígua essa compreensão pode dar margens à confusão.
Ao estudar o tema da percepção, em algumas disciplinas de Psicologia, faz-se uso de imagens que possibilitam diversas interpretações e que justamente por isso são relevantes ao estudo da percepção visual. Esse processo cerebral se constituirá a partir de aspectos como a integridade dos nossos sentidos, experiências prévias, o contexto em que percebemos e o nosso foco de atenção.
Uma figura ambígua muito utilizada com a finalidade de estudar a percepção é a que favorece o questionamento: ‘O que você vê, duas silhuetas de rostos em lados opostos ou um cálice?’ Então, há de se dar relevância a essa figura, pois se considerarmos como premissa da áudio-descrição “Descreva o que você vê”, a imagem aponta para uma especialidade dessa técnica, à medida que de fato possibilita ver mais de uma imagem a depender do foco que o observador escolhe.
Esse foco de atenção, segundo Frostig et al (1980) funda-se na faculdade da percepção visual que é a percepção de figura-fundo, conceituando a figura como a parte do campo perceptual que consiste no centro da atenção do indivíduo e que deve ser enxergada em relação ao fundo constantemente. Assim, a percepção da imagem dependerá da escolha do que é figura (o tema da imagem) e o que é fundo.
Ao realizar-se a áudio-descrição de uma figura ambígua, são necessários alguns cuidados e a atenção do áudio-descritor, que deve descrever pelo menos duas ou mais imagens que aparecem na mesma. Essa é a proposição para a realização da áudio-descrição de uma figura ambígua, evitar a censura de uma determinada informação contida na imagem.
A fim de demonstrar como uma imagem ambígua precisa ser áudio-descrita é que será apresentada a áudio-descrição de duas possibilidades de percepção da figura em questão: uma quando a figura é focada a partir da cor preta, vendo-se dois rostos que estão frente a frente e outra quando o foco de atenção da figura está na cor branca e pode-se observar um cálice.

A figura tem cerca de 8,5 cm de altura por 8,5 cm de largura e está nas cores preta e branca.
Ao se focar a atenção na cor preta vê-se no canto direito da imagem a silhueta de um rosto de perfil olhando para a esquerda. O rosto é visto, em uma perspectiva vertical, do topo da testa até o terço superior do pescoço e, numa perspectiva horizontal, é visto da ponta do nariz sendo interrompido onde seria a orelha.
Assim, no canto superior direito vê-se um contorno curvo no que seria a sua testa sem cabelos, logo abaixo o contorno perde a continuidade abruptamente iniciando o que parece ser o côncavo do olho, seguido de um contorno reto e diagonal formando a silhueta do nariz pontiagudo. Logo abaixo há duas ondulações pequenas e pontiagudas, entre as quais forma-se a letra V deitada compondo o que parecem ser os lábios entreabertos, seguidos de uma ondulação maior e mais arredondada parecendo o queixo proeminente, que continua em um contorno pouco irregular e diagonal terminando no início de um contorno reto e vertical assemelhando-se ao começo do pescoço. A frente desse rosto há outro perfil idêntico olhando para a direita e entre esses perfis há um espaço branco.
Já se o foco é dado à cor branca da imagem, que é também a parte mais central da imagem, vê-se o que seria um cálice. De baixo para cima, há uma faixa vertical e reta que próximo a extremidade inferior inicia um afunilamento formando a base do cálice, o afunilamento termina em outra faixa vertical e reta mais estreita iniciando o que se assemelha a haste do cálice. A haste do cálice se alarga mais um pouco e apresenta um contorno pequeno e curvo seguido de um contorno pequeno e pontiagudo, também seguido de outro contorno pequeno e curvo igual ao primeiro. Continuando, a haste se afunila novamente para logo num contorno reto e diagonal ir se alargando formando um V no que parece o topo do cálice.
Cada uma das imagens é vista de acordo com a cor de escolha do observador, nesse sentido, é criado um cenário ambíguo, onde se vê uma ou outra imagem e elas têm contornos em comum a serem especificados. A imagem em branco, mais central, é formada entre as imagens em preto que são laterais, dessa forma, a base do cálice é formada no espaço entre os pescoços e bases dos queixos dos dois perfis de rostos em preto; a haste do cálice é formada entre o que seriam os queixos, os lábios entreabertos e a parte inferior do nariz; já o topo do cálice é formado entre os narizes, os côncavos dos olhos e as testas sem cabelos.

5- Palavras finais

A áudio-descrição é um gênero textual que tem diretrizes técnicas para ser efetivado, está ancorado em fundamentos da filosofia inclusivista e, no plano jurídico, que garante o direito a informação, constitui uma tecnologia assistiva. Enquanto serviço ou recurso assistivo, objetiva tornar acessível o vasto conteúdo imagético que compõe os diversos contextos sociais.
Lima et al. legitimam e ampliam este entendimento ao defender que
A técnica tradutória da áudio-descrição, recurso assistivo de incontestável relevância para inclusão da pessoa com deficiência visual é um gênero textual, cujas diretrizes incluem procedimentos desde a sua produção até a oferta do serviço ao público cliente. Essas diretrizes versam a respeito de como lidar com o público com deficiência visual, do atendimento a ele devido; da atenção para com suas necessidades de pessoa com deficiência; do respeito à idiossincrasia de cada um dos clientes etc (2010).
Neste sentido, o profissional habilitado para prestar o serviço ou outro indivíduo que queira parceiramente auxiliar alguém a fazer uso da áudio-descrição precisa orientar-se pela premissa “descreva o que você vê”. Contudo, não é simples seguir essa regra maior, pois a percepção visual é algo subjetivo e que, geralmente, depende da escolha do áudio-descritor, do ambiente e de experiências prévias, aspectos tão substantivos quanto a neutralidade, objetividade e a fidelidade ao que é lido pelo tradutor, seja diante de uma imagem estática ou dinâmica.
A leitura do áudio-descritor pode, portanto, ser desafiadora quando o que está em tela é uma imagem estática e de estímulo ambíguo. Ao áudio-descrever uma imagem ambígua, buscamos demonstrar que a escolha do áudio-descritor pode ser uma censura visual. Para evitar essa censura, é necessário que ele se coloque na ambigüidade. Logo, oferecer as informações inacessíveis ao tato, serve como meio de ampliar uma prática que deve contemplar os mais diversos níveis de complexidade dessa atividade e ainda explorar territórios pouco contemplados com este serviço.
Neste sentido, todos nós, sejamos ou não tradutores profissionais da áudio-descrição devemos travar um compromisso ético de difundir e incorporar a áudio-descrição no cotidiano, favorecendo a todos, sem exceção, um mundo de construção de imagens e acessibilidade.
Concluímos nossas reflexões evidenciando que o tema que as move, a áudio-descrição, carrega em si uma horizontalidade de questões que precisam ser percebidas, compreendidas, (re)definidas. Assim, nas frestas das nossas palavras registramos o convite para os que queiram construir mais um filete desses trilhos de respeito ao direito da pessoa humana ser, pertencer e participar da constituição de uma sociedade que sendo plural, aprenderá, a crer e respeitar seu próprio gênero.

Referências

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