Repórter conta a primeira experiência de deficientes visuais com audiodescrição em Cuiabá

Você já viu uma radionovela? Pois é. Assistir a uma sessão de cinema com audiodescrição remete a esta sensação, segundo os entrevistados. A 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que aconteceu em Cuiabá até o dia 18 de novembro, promoveu a acessibilidade ao cinema para quem tem deficiência visual.

Roosevelt da Cunha é geólogo e desde que perdeu a visão (aos 34 anos) passou a trabalhar com massoterapia. Esta é a primeira experiência com audiodescrição e Roosevelt disse: "lembrei da radionovela, mas a radionovela é melhor, porque os filmes não tinham assim um roteiro, são mais documentários. Mas já é um começo, a gente consegue entender e este último filme (Não quero voltar sozinho) tinha um roteiro mais interessante". O filme a que se refere mostra três amigos, dois homens e uma mulher, estudantes que se apaixonam. O amigo cego, se apaixona pelo outro amigo, que também é o amor da amiga em comum. Um filme delicado que expõe pelo menos dois preconceitos.

Para Rosinei Arruda, que é cego de nascença, as experiências com a radionovela no sítio, via rádio Amazônia, eram ótimas. Ele contou que já foi a sessões de cinema, mas o silêncio, incomoda porque não consegue saber o que se passa. Para Rosinei "assim é o triplo melhor, não gosto de novela (na televisão) por isso. Se a novela fosse assim eu perdia tempo para acompanhar". A reclamação foi a mesma do Rosevelt, "passa tão rápido".

Para este repórter que acompanhou a sessão com uma venda preta nos olhos, o tempo não passou tão rápido assim. A gente fica com a vontade de ver o que se passa. A descrição é subjetiva e deixa espaço para a imaginação. Em parte me conduziu a uma experiência literária. Nesta imaginamos o personagem, o cenário, etc.

No filme Carreto, por exemplo, o menino entra em cena e o narrador nos diz que um menino entrou em cena por uma estrada com um carrinho de mão. Noutro momento, o menino sobe em um "cajueiro grande", balança os galhos e pega os cajus que caíram no chão e também aqueles que conseguia colher a partir do chão e coloca tudo em uma cesta que está no carrinho de mão. É difícil permanecer com a venda enquanto queremos saber como é o cajueiro? Quantos cajus ele colheu? Como era o pomar, tinha outras árvores? É óbvio que estes desejos não se repetem na literatura e tão pouco devem incomodar quem é cego. A narrativa deixa espaço para a imaginação e os sons ambientes, como o barulho do mar, preenchem o silêncio com emoção. Quem sabe um dia Rosinei possa acompanhar as novelas da TV com este recurso assim como o closed caption (legenda) já inclui os surdos no IBOPE do Jornal Nacional e das novelas.

Veja também como foi em João Pessoa.

Claudio de Oliveira – Da Redação

Fonte: Diário de Cuiabá

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