Audiodescrição encanta tradutores

Segue entrevista feita pelo Jornal S/A com Ana Carolina Konecsni.

S/A: Como descobriu que gostava de literatura?

ACK: Acho que a descoberta do maravilhoso mundo da literatura aconteceu de forma espontânea, sempre gostei de bibliotecas desde pequena e ficava fascinada. Primeiramente com Ruth Rocha, Jan Terlouw e Maria Jose Dupre até evoluir para José de Alencar, Machado de Assis, Jane Austen, etc.

S/A: Como descobriu o universo das traduções?

ACK: Sempre gostei de inglês e português, quando tinha 9 anos assisti Top Hat de Ginger Rogers & Fred Astaire legendado. Não sabia acompanhar muito bem a legenda mas desde então a paixão pelo idioma aumentou e não parei mais de estudar. No começo traduzia músicas, apanhava para apreender a falar e tive que tentar 3 faculdades diferentes porque a profissão ainda era tão desconhecida que não conseguiam formar turmas aqui em SP, até que a última deu certo.

S/A: Como é este mercado atualmente?

ACK: É movimentado, ainda somos um tanto invisíveis, o público não sabe muito da nossa existência até precisar de um, seja porque precisa morar fora do país e precisa de um tradutor juramentado ou porque a empresa onde trabalha quer versar o site para outros idiomas. O maior problema são os valores, principalmente de inglês e espanhol, as pessoas acreditam que qualquer pessoa que seja bilíngue pode traduzir, o que gera muitos transtornos, principalmente pela falta de regularização da profissão.

O bom tradutor pode chegar a ganhar até R$15.000,00 ao mês, mas para isso precisa estudar muito, investir nele mesmo (com cursos, livros, palestras) e também ser acessível, estar na mídia, desenvolver projetos de pesquisa, publicar artigos, etc. Enfim, precisa ser uma pessoa pública.

S/A: Já traduziu algum livro?

ACK: No momento estou iniciando um projeto de versão do meu primeiro livro Rudamon: O Novo Herói de Demetrio Alexandre Guimarães. Mas esse é um mundo cruel, por assim dizer. Tradutores muito jovens são descartados para esse tipo de trabalho pois as editoras nos consideram imaturos demais e também porque se não tiver um livro já publicado com seu nome eles não aceitam. Também há o preconceito de ambas as partes de que o tradutor não pode fazer versões, ou seja, partir da sua língua materna (no nosso caso o português) para o outro idioma e que isso deve ser feito somente por nativos. Fico perplexa com isso, pois então não deveríamos deixar que estrangeiros traduzissem para o português por não serem nativos.

Acredito que para traduzir literatura é necessário ter um bom histórico de leituras, pois assim ampliamos nosso léxico, além disso, com as traduções que já li por aí de clássicos como Orgulho e Preconceito de Jane Austen, percebi que até um estagiário de tradução poderia fazer melhor. Temos internet, acesso completo ao mundo; então é possível que jovens traduzam, não digo que devem logo de cara pegar um Shakespeare mas as obras de Charles Dickens, Sir Arthur Conan Doyle, etc podem ser traduzidas sem grandes complicações.

S/A: Fale sobre a importância da profissão do tradutor.

ACK: O tradutor é o coração do mundo globalizado, imaginemos um mundo sem tradutores, (façamos de conta que acontece o mesmo que na estória de As Intermitências da Morte de Saramago e todos os tradutores do mundo resolvam “tirar férias”) no primeiro dia não seria notado muita coisa, mas após 1 semana já poderíamos constatar dificuldade dos empresários de se comunicarem com o resto do mundo, novos medicamento sem bula no idioma do paciente, sem livros, filmes (até mesmo aqueles da sessão da tarde), sem diplomacia em áreas de conflito (há intérpretes que trabalham em zonas de risco) e por assim em diante…seria um caos completo.

S/A: Fale sobre planos, sonhos e metas pessoais e profissionais.

ACK: Meu maior sonho é romper preconceitos no meio da tradução literária, mostrar que, apesar de alguns acreditarem que certas obras são intraduzíveis, nós podemos nos esforçar para trazer a mensagem principal, afinal não são todos que podem ou conseguem apreender outro idioma, então porque privá-los do conhecimento passado através dessas obras?

Como humana, quero muito conhecer outras culturas, outros países e pessoas, esse mundo é cheio de surpresas mesmo dentro de nosso próprio país e eu tenho sede de viver.

Quanto À minha carreira, um dia pretendo viver de traduções na área literária, da legendagem, dublagem e da audiodescrição que é simplesmente apaixonante e nos mostra uma nova forma de reconhecer o mundo à nossa volta.

Ana Carolina Konecsni

Fonte: Tradução +

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