Pessoas cegas com O Mundo na Ponta de um Dedo

Ana tem 16 anos, frequenta a Escola Secundária Ginestal Machado, em Santarém, e quer ser psicóloga. É uma adolescente extrovertida e alegre, igual à maioria das meninas da sua idade. Contudo, algo a diferencia. Desde a infância, desenvolveu competências especiais. E aprendeu a não ter medo do escuro. Cegou quando tinha dois anos e meio de idade. Perdeu a visão mas não a capacidade de olhar o mundo com os olhos da mente, do coração e dos sentidos. No Dia Mundial do Braille (4 de Janeiro) descobriu, juntamente com outros invisuais, "O Mundo na ponta de um dedo". Assim se chama a exposição patente até domingo (entrada gratuita) no Centro Ciência Viva do Alviela – Carsoscópio.

A inauguração, a assinalar o Dia Mundial do Braille, contou com a visita de um grupo composto na maioria por sócios da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal – Núcleo de Leiria. Participaram também alguns estudantes, como é o caso de Ana e Cátia, da Escola Secundária Ginestal Machado, em Santarém.

Além de visitar a exposição temporária, o grupo usufruiu, também, das primeiras adaptações a cidadãos com deficiência, da exposição permanente interactiva e testou a introdução de folhetos em Braille. Curiosidade, vontade de aprender, bom humor e convivialidade foram a tónica dominante de uma jornada lúdica e didáctica em que todos partilharam de um maior entendimento do mundo.

Os equipamentos tecnológicos sofisticados deram uma grande ajuda, mas o tacto, o olfacto, o paladar e a audição revelaram-se indispensáveis. Mais importantes ainda, a comunicação, a camaradagem e a inter-ajuda entre todos os presentes.

Logo à entrada da exposição temporária, a representação em relevo do globo terrestre mereceu a atenção dos visitantes. Mesmo ao lado, o título da iniciativa, escrito em Braille: "O Mundo na ponta de um dedo". Todos foram capazes de fazer a leitura destas sete palavras, apesar do espaço entre as letras e entre as linhas ser maior do que o habitual. Por isso, houve quem revelasse alguma dificuldade, sem, contudo, deixar de brincar com a situação: "Isto está muito criativo e bem escrito… Eu é que, para já, não estou a ver o que é…", disse rindo um invisual, enquanto tacteava as letras.

Venda nos olhos

Mais adiante, um jogo interactivo permitiu verificar a eficiência dos cegos e compará-la com a atrapalhação dos cidadãos sem problemas visuais. Estes, depois de colocarem uma venda nos olhos, tentaram percorrer às escuras um corredor com vários obstáculos, encher um copo com água e distinguir diferentes frutos e ervas aromáticas pelo tacto, sabor e cheiro. Um exercício divertido que demonstra como as pessoas sem deficiência são, afinal, pouco eficientes em tarefas que a generalidade dos invisuais desempenha com facilidade, uma vez que, privados da visão, têm os outros sentidos mais apurados.

Depois de uma explicação prévia sobre o conteúdo da exposição permanente, os visitantes acederam ao Geódromo. Aqui, instalados na Plataforma de Simulação da Realidade Virtual, que se move, por vezes de forma abrupta, como uma nave de ficção científica, viajaram ao longo de 175 milhões de anos, desde as origens do Maciço Calcário Estremenho, até aos nossos dias. Impossibilitados de ver o filme em ecrã gigante, os cegos ouviram com atenção o texto que o acompanha – um diálogo bem humorado entre dois viajantes virtuais, através do qual é possível entender os fenómenos geomorfológicos que explicam a singularidade de todo o território da nascente do Alviela.

Seguiu-se a visita ao Climatógrafo (que inclui um módulo interactivo que permite provocar a precipitação e perceber as variações no caudal do rio) e ao Quiroptário (dedicado aos morcegos cavernícolas existentes na zona). A guia começou por explicar que o espaço do Quiroptário se encontra pouco iluminado para recriar o ambiente nocturno em que se movimentam os morcegos. "Não faz mal, não tenho medo do escuro!…", brincou a Ana, risonha e descontraída.

Esta unidade mereceu especial atenção, não só pelas experiências interactivas que proporciona, mas também porque introduziu uma matéria de grande interesse para os invisuais, designada por "Ecolocação".

Ecolocação

Trata-se de uma forma de orientação através do som e do eco que este produz, utilizada por animais como os golfinhos e os morcegos, que tem vindo a ser aplicada em tecnologias de uso corrente, como o sonar, o radar ou os aparelhos de ecografias. Recentemente têm sido desenvolvidos trabalhos científicos no sentido da utilização da ecolocação por cidadãos com dificuldades visuais, na certeza de que qualquer pessoa possui essa capacidade desde que devidamente treinada e potenciada. A Universidade de Alcalá de Henares (Espanha) está a realizar um estudo que serviu de base para um conjunto de painéis sobre o tema, incluído na exposição temporária do Centro de Ciência Viva.

No final, foi exibido um filme/documentário sobre a vida de Ben Underwood, um dos primeiros invisuais a recorrer à ecolocação. Com três anos de idade, Ben foi submetido a uma cirurgia de remoção dos olhos, única hipótese de sobreviver a um tumor maligno muito raro. Aprendeu a "ver" através daquela técnica, revelando capacidades surpreendentes de orientação e percepção do espaço.

Sugestões

Ao longo da visita, os invisuais foram transmitindo à equipa do Centro de Ciência Viva, as suas impressões sobre os diversos módulos interactivos e dando sugestões para uma melhor adaptação dos equipamentos a cidadãos com deficiência. "Estão de parabéns, por esta obra extraordinária, mas pode haver alguns aspectos a melhorar, na audiodescrição, por exemplo", disse José Monteiro, presidente da ACAPO de Leiria. "Nos próximos dias, o nosso grupo irá conversar sobre esta visita e, depois, enviará por e-mail as sugestões que achar por bem apresentar", adiantou.

Recolher a opinião dos invisuais e de outros cidadãos com deficiência é precisamente um dos objectivos pretendidos pela organização, como afirmou ao Correio do Ribatejo, Maria Jesus Fernandes, directora do Centro de Ciência Viva do Alviela. "Queremos começar a trilhar o caminho da acessibilidade para todos", realçou. "O Mundo na ponta de um dedo" foi o primeiro grande passo.

Sofia Meneses

Fonte: Correio do Ribatejo – Portugal

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