A história do criador dos Catecismos de Sacanagem

O espetáculo teatral sobre a vida e obra de Carlos Zéfiro, o criador dos "Catecismos de Sacanagem", disponibilizará o recurso da audiodescrição para pessoas com deficiência visual nos dias 11, 18 e 25 de março e 1º e 8 de abril. Teatro II, CCBB – RJ. Ingressos a preços populares. Classificação 18 anos. Audiodescrição: Cinema Falado Produções.

Flyer da peça

Descrição do flyer: Sobre fundo bege envelhecido lê-se: Eletrobrás apresenta – Os Catecismos segundo Carlos Zéfiro. Texto e direção: Paulo Biscaia Filho. Elenco: Clara Serejo, Jandir Ferrari, Leandro Daniel Colombo, Mariana Consoli, Marino Rocha, Martina Gallarza, Rafa de Martins. Ao lado do texto há uma silhueta negra de um homem de pé usando chapéu. Em primeiro plano, outra silhueta masculina, de um homem sem rosto, também de chapéu e a sua frente o desenho de uma mulher nua com as pernas abertas. No lado direito da imagem, sobre fundo preto estão as marcas dos apoiadores e o endereço do teatro: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – RJ. Informações: (21) 3808-2020.

Sobre Carlos Zéfiro:

Carlos Zéfiro era o pseudônimo de um funcionário público brasileiro, que em suas horas vagas e as escondidas, desenhava pequenas histórias em quadrinhos, semelhantes a um folhetim, que eram impressas clandestinamente, em preto e branco, e que continham desenhos mostrando várias histórias envolvendo homens e mulheres em diversas "sacanagens" e que eram conhecidos com o sugestivo nome de "catecismos de sacanagem", durante as décadas de 50 até 70.

foto de Carlos Zéfiro - o criador dos Catecismos de Sacanagem

O autor dessa proeza foi um brasileiro muito criativo chamado Alcides Aguiar Caminha, nascido em 25 de setembro de 1921, no Rio de Janeiro, casado com a dona Serat Caminha, com quem teve cinco filhos.

Os Alunos Sacanas: de Carlos Zéfiro

Durante toda a sua vida como funcionário público no setor de Imigração do Ministério do Trabalho, ninguém desconfiou que o seu Alcides fosse capaz de ter tamanha genialidade e criatividade para escrever e desenhar essas histórias em quadrinhos que batiam a vendagem de qualquer revista daquela época. A estimativa era que esses "catecismos de sacanagem" chegavam a um colossal número de tiragens, cerca de 30.000 exemplares, capazes de deixar qualquer escritor atual com "dor de cotovelo".

A Vingança do Bicheiro

Apesar de serem mal desenhadas e terrivelmente impressas essas "revistinhas pornográficas" conhecidas como "catecismos de sacanagem" satisfaziam o prazer tanto dos adolescentes, bem como dos bem mais velhos, que podiam se deliciar do sexo explícito, se excitar e fazer a sua "masturbaçãozinha", sempre às escondidas nos banheiros ou em algum lugar mais reservado. Provavelmente não exista nenhum brasileiro com mais de quarenta anos que não tenha, pelo menos um dia, se deliciado com esses magníficos "catecismos de sacanagem".

ilustração de mulher nua vista de costas

Dizem que essas publicações eram chamadas de "catecismos de sacanagem" porque eram feitas no tamanho certo para serem colocadas dentro dos "catecismos", já que a maioria dos garotos as comprava quando saíam da missa.

ilustração de mulher nua vista de frente

Esses folhetins contavam histórias de tudo quanto era tipo: transas com a empregada, dentro do caminhão, no mato, traições com cornos pra tudo quanto era lado, tudo isso mostradas de forma clara e em diversas posições, capaz de deixar qualquer Kama Sutra parecendo gibis para a criançada. As preferidas eram aquelas com sexo anal ou oral e Zéfiro sabia como ninguém colocar aquele "algo mais" em suas histórias.

capas de várias revistas de Carlos Zéfiro

Convêm lembrar que nos anos 50 a 70, eram raríssimas as revistas de sexo que temos atualmente e também havia uma repressão enorme cultural e social em relação ao sexo. Tudo era proibido e o pecado estava em tudo que se relacionava ao sexo. O moralismo imperava em todas as classes sociais. Num mundo tão repressivo como eram aqueles tempos, os "catecismos de sacanagem do Zéfiro" serviam como uma boa "válvula de escape" para as fantasias sexuais e liberar libidos.

capas de outras revistas

Os desenhos de Zéfiro não eram lá essas coisas. Os traços e suas figuras humanas eram pobres, copiadas de fotografias eróticas que depois passavam por um processo de modificação e adaptadas ao formato das histórias em quadrinhos, inclusive com os diálogos muito semelhantes aos gibis da época.

Atualmente os desenhos de Carlos Zéfiro são admirados como um "anti-estilo", algo maravilhoso com vida própria e marcante. Os "catecismos de sacanagem" de Zéfiro chegaram a virar um sinônimo de produto, como "Gillete", por exemplo. As pessoas iam até as bancas de jornal e pediam um "Zéfiro".

quadrinho erótico de Carlos Zéfiro

Nos anos 70, quando a ditadura se instalou no Brasil, Zéfiro também ficou na mira dos censores que queriam a todo custo a sua cabeça, mas ninguém sabia quem era o dito cujo, que conseguia produzir, imprimir e distribuir clandestinamente sua revista em tudo quanto era lugar.

ilustração de mulher nua deitada

O mais perto que chegaram foi quando conseguiram prender um editor chamado Hélio Brandão, que era amigo de Alcides, mas ficou o tempo todo de boca fechada e não conseguindo provar coisa alguma tiveram de soltar o pobre coitado depois de deixá-lo três noites na cadeia.

Sara, uma das personagens das histórias de Zéfiro

Uma das razões desse total sigilo, que somente mais tarde nós ficaríamos sabendo, era que na época, o senhor Alcides como funcionário público não podia ter seu nome envolvido em nenhum tipo de escândalo, ainda mais como autor de uma "revistinha pornográfica", pois a Lei 1.811 de 1952, estabelecia severa punição se acaso algum funcionário público fosse enquadrado por "incontinência pública escandalosa", o que poderia acarretar a demissão e com isso ficar sem dinheiro para poder manter a família.

banner da coleção de Zéfiro

Seu Alcides, que não era nada bobo e conhecia bem as leis que regiam o departamento público fez questão de guardar este segredo a sete chaves, praticamente ninguém sabia que era ele o autor dos "catecismos de sacanagem". Somente algumas pessoas de sua inteira confiança sabiam de suas atividades. Tudo ficou esclarecido menos de um ano antes de sua morte, quando ele resolveu tornar pública suas atividades clandestinas durante a década de 50 a 70 para uma reportagem da Revista Playboy.

A Meiga Elizete nº 5

A partir de então foi possível saber que Alcides Caminha, além de um desenhista autodidata, era também portador de outros talentos como de compositor, pois ele era inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil, foi parceiro de Guilherme Brito e Nelson Cavaquinho em quatro sambas para a Mangueira e tinha sucessos como o samba "Notícia", gravado por Roberto Silva na década de 50 e "A Flor de Espinho", quem diria, gravada pela Elizete Cardoso em 1956.

ilustração de mulher nua vista pela fenda de uma fechadura

Alcides Caminha era um carioca muito boêmio que adorava a boa vida com os amigos, suas cervejinha e muitas mulheres. As obras de Zéfiro (ou de Alcides Caminha) podem ser consideradas como um fato inédito, algo único dentro da literatura popular, tanto pelo seu conteúdo, como pela capacidade do autor conseguir permanecer tantos anos às escondidas.

Mariza Monte: Barulinho Bom

Alcides Aguiar Caminha, morreu no dia 5 de julho de 1992 e nesse mesmo ano recebeu o prêmio HQMix, pela importância de sua obra. Depois de sua morte, um de seus desenhos apareceu em homenagem a Alcides, na capa do CD da cantora Marisa Monte chamado "Barulhinho Bom", assim como nas vinhetas de abertura e intervalos do Video Music Brasil 1998, da MTV Brasil, que foram inspiradas em seus folhetins como forma de prestar uma homenagem a esse criador tão talentoso.

Nota:

Para quem desejar ver as obras de Carlos Zéfiro consulte o site: www.carloszefiro.com/.

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