JAIRO MARQUES – O rei, o maestro e a modelo

Três momentos de grande exibição no Carnaval da necessidade de ter um país mais acessível para todos. o samba meio atravessado de um maestro que comeu o pão que o diabo amassou e passou manteiga, o gingado arrastado do rei e um tombaço em plena avenida de uma modelo fossem sair como os expoentes do Carnaval deste ano. Para mim, porém, faltou um bocado para que a folia deixasse saudade. A história do pianista e maestro João Carlos Martins papou o título de campeã em São Paulo com a Vai-Vai, mas foi jogo duro aguentar a mídia azucrinar o ouvido da gente explorando ao máximo o chavão de que "venceu uma linda história de superação". Ah, "fafavor". Admito que a trajetória de Martins pelas funilarias da vida tentando dar jeito na lataria que foi avariada por trombadas diversas que acabaram por impedi-lo de tocar piano seja intensa e emotiva, mas, individualmente, histórias de pessoas com deficiência não costumam ganhar a guerra e muito menos promover mudanças sociais duradouras. Costumam mesmo só ser "lindas e admiráveis". Torci muito para que o maestro, sob o brilho dos holofotes, no alto dos carros alegóricos e no meio da folia fizesse uma homenagem a milhares de pessoas que também têm mobilidade reduzida como ele e lembrasse que elas não sambam na avenida, nem no mercado de trabalho, nem na escola, nem no transporte público. Nada. Por enquanto, elas continuam dançando. Mas o que me deixou mesmo mais chateado do que a dona do cachorro sumido no avião da Gol foi o discurso do rei, a que eu não daria o Oscar nem a pau. Conforme já havia dito em uma de suas colunas o fundamental Elio Gaspari, por que raios Roberto Carlos não admite nunca em público que tem uma prótese mecânica na perna? Na hora que ele tomasse essa atitude, "di certeza", a estima de milhares de amputados pelo Brasil ganharia um up para a vida toda e milhares de pessoas talvez conseguissem enxergar o diverso com mais naturalidade, com mais aceitação. Contudo, se o rei não pode ser gago, imagine se, no bico da Beija-Flor, ele seria deficiente. Lady Laura mereceu, mas teria sido "um momento lindo" se ele tivesse dedicado a vitória da escola do Rio a quem peleja para sacudir o esqueleto igual a ele. E essa menina que, pelo tamanho do salto e do esqueleto, caiu de uma altura comparável ao quinto andar, a Ana Hickmann, que tem preferido esconder as muletas que adotou até a recuperação de uma lesão no pé? No último programa dela, domingo, na Record, fiquei bege de ver que, em momento nenhum, enquadraram a moçoila de corpo inteiro. Ela só apareceu como "meia pessoa", da cintura para cima. Obviamente, é direito dela querer mostrar o que bem entende e que muleta não é lá nenhum símbolo fashion, mas a loira perde a chance de emprestar seu glamour à causa da acessibilidade quando ela se faz ainda mais legítima com o tal "sentir na pele". Enfim, três momentos de grande exibição da necessidade de ter um país mais acessível para todos e necas de pitibiriba de alguém levantar o grito de campeão para cobrar por rampas, pisos táteis, audiodescrição, elevadores e outras facilidades arquitetônicas e sensoriais. O rei, o maestro e a modelo curtiram mesmo foi o brilho do estandarte. O bom é que, no ano que vem, tem mais Carnaval. jairo.marques@grupofolha.com.br
@assimcomovoce
http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br

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