Leda Spelta fala sobre acessibilidade

De que forma a tecnologia pode ser usada para auxiliar na integração de pessoas com deficiência à sociedade? R.: Em primeiro lugar, gostaria de fazer algumas considerações sobre o termo "pessoa portadora de necessidades especiais". Eu posso ser portadora, por exemplo, de uma notícia, de uma encomenda, posso estar portando uma pasta ou uma sacola. Essas coisas não fazem parte de mim, apenas sou portadora delas e posso deixar de sê-lo quando melhor me aprouver. Mas as minhas necessidades especiais decorrem da minha cegueira, que é uma coisa que eu não posso deixar em casa e sair para a night… O termo "portador", neste caso, é um eufemismo que preferimos dispensar e, em vez disso, sermos simplesmente chamadas daquilo que somos, pessoas com deficiência. Respondendo à pergunta, penso que as possibilidades da tecnologia são praticamente ilimitadas. Existem atualmente próteses de membros muitíssimo mais sofisticadas e funcionais do que as que conhecíamos há uma ou duas décadas atrás; existem aparelhos telefônicos especiais para pessoas surdas; existem sistemas que permitem que uma pessoa utilize o computador sem poder ver a tela, teclando com os pés, com a língua, ou tendo apenas o movimento do pescoço, ou dos olhos, ou de um sopro; existe um aparelho do tamanho de um mouse que é um scanner que vai falando as letras, à medida que o deslizamos pelo texto; tenho um aparelinho do tamanho de um controle remoto que me diz as cores, evitando que eu "pague o mico" de sair de casa com uma meia branca e outra preta… Sem falar numa mesa com mapas em relevo, que vai descrevendo cada detalhe, à medida que o percorremos com as mãos; e num leitor que a gente põe o livro aberto e ele vai falando tudo e mostrando em braille! Claro que essas coisas não são perfeitas, mas estão se tornando melhores a cada dia. Atualmente é muito menos complicado uma pessoa com deficiência morar sozinha, quer se trate de uma deficiência visual, auditiva ou motora. A tecnologia, além disso, pode ajudar na coleta de informações sobre as necessidades das pessoas, na informação da sociedade, na formação de educadores… O número de produtos e serviços que vêm sendo desenvolvidos atende completamente às necessidades desse público? R.: Certamente não. Em relação aos produtos, por exemplo, costumo dizer que toda essa parafernalha é ótima, mas bom mesmo para cego é olho! Ou seja, o desenvolvimento tecnológico ainda tem muito pela frente até criar o olho perfeito, o ouvido perfeito, a mão perfeita, etc. Em relação aos serviços, pelo menos aqui no Brasil estamos ainda muito mais atrasados. Próteses sofisticadas são abandonadas por usuários que não tiveram treinamento adequado; crianças com deficiência são rejeitadas por escolas que não têm ou não querem ter condições de atendê-las, ou simplesmente são "passadas" de ano sem aprender. E de que servem recursos didáticos maravilhosos, se estes não chegarem às escolas, ou se os professores não souberem utilizá-los? Quais as principais barreiras que devem ser rompidas para o desenvolvimento de tecnologias voltadas a esse público? R.: A primeira barreira é o preconceito, que impede os cidadãos de verem uma pessoa com deficiência como idônea e capaz. Por que será que discriminar uma pessoa negra é crime, mas discriminar uma pessoa com deficiência não é? A segunda barreira é a falta de informação sobre as pessoas com deficiência. Quando será que, por exemplo, a deficiência de cada cidadão será registrada no censo demográfico do IBGE, de maneira precisa e individual e não de forma vaga e por amostragem, como tem sido feita? A terceira barreira é a corrupção, que sangra impiedosamente os recursos públicos e, por tabela, os recursos privados, através de impostos estorsivos. Se essa grana não estivesse sendo permanentemente desviada, parte dela estaria indo para a pesquisa de tecnologia assistiva (é este o nome que se dá a essa tecnologia). A quarta barreira é a gestão. Precisamos ter pessoas capazes e bem assessoradas nos postos estratégicos. Grande parte daquelas maravilhas tecnológicas citadas acima não está ao nosso alcance. Geralmente são caras, enquanto nós ganhamos pouco e, ao contrário de muitos países, não temos ajuda do governo para adquirí-las. Precisamos de políticas públicas eficazes para romper o ciclo vicioso: falta de recursos para adquirir tecnologia assistiva – educação e profissionalização deficientes – desemprego e baixos salários – falta de recursos… Penso que, se investirmos maciçamente na educação e profissionalização das pessoas com deficiência e se criarmos subsídios para a aquisição de tecnologia assistiva, esses milhões de pessoas formarão um mercado consumidor que poderá impulsionar a indústria nacional e, consequentemente, diminuir o preço desses equipamentos, tornando cada vez menores os subsídios governamentais, ou seja, revertendo o ciclo vicioso em ciclo virtuoso. A convergência de mídias deve facilitar o acesso de pessoas com deficiência às novas tecnologias? R.: Em tese, penso que sim, pois simplificaria o desenvolvimento de equipamentos, diretrizes e interfaces acessíveis. Na prática, porém, é uma perigosa faca de dois gumes; pois se esta convergência não contemplar a acessibilidade na sua essência, nós ficaremos alienados de tudo, sem ter por onde escapar. E a julgar pela dificuldade que estamos tendo, junto ao governo, para implantar a audiodescrição (recurso que permite às pessoas cegas acompanharem as cenas visuais) na TV, acho que tenho bons motivos para alimentar uma certa paranóia… Como é o envolvimento do poder público com o tema? R.: Tem muita gente séria e competente em órgãos governamentais, mas não no poder. Quando chega na hora de destinar recursos, de endurecer as leis, de peitar as grandes empresas (como no caso da audiodescrição na TV), aí a gente se sente abandonado, menos cidadão. Por exemplo, em dezembro de 2006 esgotou-se o prazo para que os sites públicos se tornassem acessíveis. Mas se uma pessoa cega precisar, por exemplo, agendar um atendimento no INSS pela internet, não consegue. Situação semelhante acontece no site da receita federal. E o que aconteceu com os responsáveis por estes e outros sites não acessíveis? Claro que não aconteceu nada; o prazo não era sério, nós não somos levados a sério. Existem políticas públicas de incentivo ao desenvolvimento de produtos e serviços para pessoas com deficiência? R.: Existem dois pontos onde ainda estamos muito atrasados: as telecomunicações (como já mencionei anteriormente) e o livro acessível, cujos projetos, por pressão das editoras, acabam por disponibilizar apenas o áudio do texto para as pessoas cegas, transformando-as em leitores de segunda classe, sem direito a saber como foram escritas certas palavras, como o autor pontuou o texto, etc. Quanto aos demais aspectos, creio que estamos evoluindo. O item acessibilidade, por exemplo, já está entrando em vários editais. Penso que o desafio atual é, uma vez desenvolvido um produto ou serviço, como tornar a sua comercialização sustentável, como fazer com que ele chegue aos seus destinatários. Esse é o nó. A gente fica vendo (ou às vezes nem isso, fica ouvindo, cheirando, apalpando, imaginando) essas maravilhas desenvolvidas dentro e fora do Brasil, fica "babando", mas a maioria delas a gente não pode ter… Não temos dinheiro para pagar os preços de primeiro mundo, mais frete, mais impostos; não temos como experimentar antes de comprar; não temos assistência técnica; ou simplesmente o produto é nacional, mas não está sendo produzido em escala por falta de investimentos. Há um compromisso da classe empresarial em desenvolver produtos e serviços para esse segmento? R.: Compromisso, penso que não. Aliás, nem vejo como é que a classe empresarial poderia se comprometer com uma fatia da população sobre a qual se tem poucos dados, inclusive sobre o poder aquisitivo. Como fazer um plano de negócio? Contudo, existem alguns empresários que apostam no desenvolvimento de um ou outro produto e, o que é maravilhoso, existem algumas empresas focadas no desenvolvimento de tecnologia assistiva. Neste ponto eu sou otimista. Acho que existe um nicho mal explorado do qual os empresários ainda não se deram conta. Dois exemplos muito claros para mim são o comércio eletrônico acessível e o ensino à distância acessível. Como surgiu a oportunidade de montar sua empresa? R.: A oportunidade de montar a Acesso Digital, de fato, não surgiu; nós é que a estamos criando, através da divulgação e da qualidade do nosso trabalho. Somos entusiasmados pelo que fazemos e acreditamos, sinceramente, que acessibilidade não é caridade. Acessibilidade é, para o poder público, um direito dos cidadãos; para o setor empresarial, uma oportunidade de negócio; e para a população em geral, uma garantia de democracia, levando direitos iguais para todos. Quais as soluções desenvolvidas pela sua empresa para facilitar o acesso de pessoas com deficiência à internet? R.: Criamos uma metodologia para avaliação da acessibilidade, que inclui exaustivos testes automáticos, semi-automáticos e humanos, realizados por especialistas com e sem deficiência. Mas o que cria a eficiência do seu resultado não é a introdução de nenhum procedimento mirabolante e sim o rigor e a seriedade com que é realizada cada etapa do processo. Esta metodologia garante que os sites estejam disponíveis, não só às pessoas com as mais diferentes deficiências, mas também aos sistemas de busca e ao maior número possível de pessoas, independentemente do fato de terem pouca experiência com a internet, de terem uma linha de transmissão lenta, de usarem um navegador incomum, um dispositivo móvel muito moderno, de estarem num ambiente com luminosidade inadequada, ou impossibilitadas de usar o mouse, etc. Ou seja, não queremos uma internet melhor para as pessoas com deficiência, queremos uma internet melhor para todos! Qual o resultado desse trabalho? R.: A criação de um vídeo sobre acessibilidade web, que está sendo mostrado em todo o país e, segundo o retorno que temos, está abrindo a cabeça de muitos desenvolvedores e empresários. A formação de dezenas de desenvolvedores nas técnicas de criação de sites acessíveis. O plantio de sementes de acessibilidade em diversas empresas e instituições, grandes e pequenas, privadas e públicas, em diversos estados do Brasil. Uma grande e permanente aprendizagem sobre o tema. O respeito dos nossos colaboradores, dos nossos clientes e das pessoas do meio acadêmico e empresarial, incluindo os concorrentes. E algum dinheiro, que infelizmente ainda não dá para nos sustentar com dedicação exclusiva, mas já estamos ganhando pelo nosso trabalho, ao contrário do que acontecia no começo, quando trabalhávamos muitíssimas horas de graça, ou precisávamos investir do próprio bolso… Na minha avaliação, estamos a um passo de comprovar a tese de que acessibilidade é um bom negócio, não só para os nossos clientes, mas também para nós. O futuro próximo dirá se tenho razão! Lêda Lucia Spelta Acessibilidade de Verdade! www.acessodigital.net Tel.: (21)2543-0220 8843-0220 Skype: llspelta Fonte: biblioteca Digital

Mais sobre audiodescrição
Grande parte dos projetos culturais é realizada via leis de renúncia fiscal, ou seja, com
O Observatório da Imprensa da última terça-feira debateu a prevista falta de acessibilidade durante a
O mais recente artigo de Izabel Maior, sobre o silêncio incompreensível , foi como a


Mais sobre audiodescrição
Grande parte dos projetos culturais é realizada via leis de renúncia fiscal, ou seja, com
O Observatório da Imprensa da última terça-feira debateu a prevista falta de acessibilidade durante a
O mais recente artigo de Izabel Maior, sobre o silêncio incompreensível , foi como a