O Espetáculo Da Audiodescrição

Cada vez mais disponibilizada em produções e eventos culturais, a audiodescrição amplia as possibilidades para aqueles que conseguem ver apenas com os olhos da alma. O recurso foi utilizado no último dia 20 de março, durante a última apresentação de La Bohème no Theatro Pedro II em Ribeirão Preto, e permitiu a cerca de 40 pessoas com deficiência visual acompanhar o espetáculo.

A iniciativa foi da jornalista e audiodescritora Flávia Machado, visando divulgar os benefícios da audiodescrição que aumenta o número de opções culturais disponíveis para a população com deficiências visuais, auditivas e também pessoas que não compreendem uma determinada língua, permitindo acesso às produções através de legendas ou intérpretes. “Esse recurso é usado para proporcionar acessibilidade, principalmente, para pessoas com deficiência visual, mas também para pessoas com deficiência intelectual, pessoas com dislexia e idosos com baixa acuidade visual”, explica Flávia.

O recurso consiste na descrição clara de todas as informações que podem ser vistas mas não estão contidas nos diálogos, como expressões corporais, informações sobre o ambiente, figurinos, além de toda informação escrita na tela. A audiodescrição permite que a pessoa com deficiência visual receba a informação contida na imagem simultaneamente, possibilitando compreender a obra da mesma forma que alguém que enxerga. As descrições acontecem nos espaços entre os diálogos e nas pausas entre as informações sonoras do ato, de forma com que a audiodescrição combine com os sons apresentados. O primeiro contato da jornalista com a audiodescrição aconteceu em 2009, durante sua pesquisa para o mestrado em televisão digital, a partir de então Flávia trabalhou em vários projetos de inclusão social como voluntária. “Eu vejo o trabalho com audiodescrição como uma das possibilidades para ação comunicativa. A audiodescrição permite preencher lacunas de entendimento de conteúdos visuais que não podem ser percebidos ou compreendidos por um receptor”, enfatiza. Para audiodescrever a ópera às pessoas com deficiência visual, Flávia participou dos ensaios e apresentações anteriores de La Bohème, fez um estudo sobre o produto e elaborou um roteiro para então produzir a locução ao vivo. “Trabalhar com a audiodescrição da La Bohème foi muito enriquecedor, conseguimos promover o acesso de pessoas com deficiência visual à ópera, divulgar a audiodescrição, mostrar que há uma demanda de público que tem o direito e precisa receber de forma adequada o conteúdo de produções artísticas e culturais e chamar a atenção dos produtores culturais de Ribeirão Preto para a ampliação de seu público-alvo”, diz entusiasmada. Parte das pessoas com deficiência visual presentes no dia 20 entraram em um teatro pela primeira vez, e poder compartilhar a emoção de assistir um espetáculo com audiodescrição foi uma experiência para a vida toda. “No meu caso foi uma experiência nova, nunca havia entrado em um teatro, como não enxergo, esse tipo de programa nunca despertou muito interesse. Com a audiodescrição tive a oportunidade de sentir uma emoção jamais sentida, adorei a ópera e mesmo com um final tão triste foi tudo maravilhoso”, conta Juliana Araújo, aluna da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (ADEVIRP). Segundo a presidente da ADEVIRP, Marlene Taveira Cintra, programas como esse faz com que pessoas com deficiência visual possam se sentir incluídas na sociedade. “Foi uma experiência única. Sem a audiodescrição se perderia a essência da cena, do espetáculo, e tudo isso é primordial para que o deficiente visual possa entender e interagir”, revela. Projetos como a audiodescrição na Ópera La Bohème mostram a necessidade de investir na acessibilidade e garantir a melhor recepção do conteúdo de um evento ou produto para o maior número de pessoas. “Da mesma maneira que na ópera foi colocada a legenda em português para que os presentes pudéssem compreender o italiano e entender o que estava sendo cantado, os portadores de deficiência visual precisaram ouvir a audiodescrição para compreender o cenário, o figurino e a movimentação dos solistas”, ressalta a audiodescritora. Outras iniciativas Em 2009, a audiodescritora Lívia Motta também coordenou uma audiodescrição no Theatro Pedro II, da peça teatral “Vestido de Noiva” de Nelson Rodrigues. A ADEVIRP promove concursos literários e programas voltados para a cultura como o Coral ADEVIRP, além de aulas de informática que auxiliam os deficientes visuais no mercado de trabalho. Helena Agostinho, coordenadora da Biblioteca Padre Hugo Grecco na ADEVIRP, revela que os alunos são incentivados a participar de eventos culturais para auxiliar no cotidiano, além de viver experiências diferentes. “Ouvimos depoimentos desta experiência e constatamos que a maioria dos deficientes visuais não frequentam teatro, cinema e exposições justamente devido à falta de acessibilidade. Iniciativas como esta são muito importantes para auxiliar nessa inclusão e despertar o interesse desse público para frequentar mais espaços culturais, também colaboram com o objetivo da instituição que é a inclusão”, explica à coordenadora. A inclusão social de pessoas com deficiência é uma transformação na situação de exclusão que esse grupo vive até hoje. “É necessário a ocupação de espaços que normalmente pessoas com deficiência não frequentam devido à falta de acessibilidade. A partir do momento em que as pessoas começam a perceber que acessibilidade não é uma questão somente para pessoas com deficiência, mas sim para todos, a inclusão social será focada em outros aspectos como o econômico ou cultural”, conclui Flávia Machado. Para conferir o mapeamento de tudo que já foi produzido com a audiodescrição no Brasil acesse AQUI o blog “Com audiodescrição”. Texto: Pâmela Silva
Fonte: Revide Vip

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