O poeta da visão avessa

Aos 9 anos de idade, Pedro José Ferreira da Silva conta que era capturado por um bando de crianças um pouco mais velhas, levado a um bosque de eucaliptos perto de sua escola, na Zona Leste de São Paulo, e abusado sexualmente. “Ali na selva, na terra de ninguém, ficava à mercê dos predadores, sem poder reagir. Ou eu fazia, ou apanhava, não tinha jeito”, relembra, 50 anos depois.

Glauco Matoso

Um nerd nascido com glaucoma, doença incurável que atinge o nervo óptico da retina e que deu origem a seu nome artístico, Glauco Mattoso, foi forçado desde cedo a compreender que era diferente. Para fugir da discriminação das outras crianças, mergulhou na leitura de Monteiro Lobato. “Ele foi uma espécie de passaporte para a cultura, traduzindo tudo que era importante de uma forma gostosa. Eu queria escrever igual a ele. Mas eu não era aquele aluno quadradinho, tinha uma vida mental muito clandestina”, diz.

de casa, e Augusto, operário da indústria gráfica que trazia para casa um exemplar de cada volume que imprimia, Glauco guardava em casa uma biblioteca “sem ser intelectual, sem ser erudita”. Ao entrar na fase da puberdade, entre alguns títulos de política, psicologia e sociologia, encontrou uma enciclopédia de sexualidade que tratava, entre outros temas, de desvios sexuais.

Com o passar do tempo, começou a ver que era diferente também em matéria de sexo: “Percebi isso de forma bem cruel. Eu tinha medo dos que abusavam de mim, mas, ao mesmo tempo, quando estava sozinho, ficava me imaginando como vítima e comecei a gozar pensando nisso”. Ao descobrir-se masoquista desde cedo – uma lição de vida meio às avessas, meio cruel, mas que abriu as portas para um entendimento maior de si mesmo –, aprendeu a lidar com as dicotomias. “Não existe só uma posição. Você é mocinho e bandido, certo e errado, bom e mau. Essas dualidades é que foram moldando a minha vida”, diz.

Duas caras

De um lado, tornou-se o típico bom filho. Diplomou-se em biblioteconomia (ou “cursinho Walita”, como apelidado na época, pela quantidade superior de alunas mulheres) pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo aos 21 anos e, em seguida, ingressou no curso de letras da Universidade de São Paulo (USP), que interrompeu após dois anos.

Àquela altura, era funcionário do Banco do Brasil e a rotina havia se tornado estressante. Simultaneamente, sua faceta “marginal” emergia: “Fui ser funcionário careta, eu não podia ser hippie nem punk, tinha de seguir uma vida normal. Mas tinha meu outro lado maluco, bandido, literato”. E foi esse o lado que aflorou quando se mudou para o Rio de Janeiro, pouco tempo depois, ao aceitar uma proposta do banco.

Morando no bairro de Santa Teresa, uma espécie de reduto hippie, conheceu pessoas ligadas ao mundo artístico. Nessa época, começou a colaborar com a imprensa alternativa, em periódicos como o tabloide gay Lampião e o humorístico Pasquim, driblando a repressão da ditadura militar. “A censura ainda era muito forte, mas já tinha todo aquele movimento de poesia marginal, aquela coisa meio contracultural e vanguardista que misturava poesia com sexo, drogas e rock’n’roll”, lembra.

Entre suas contribuições mais memoráveis, está o fanzine anarco-literário Jornal Dobrabil, um trocadilho com o nome do tradicional jornal carioca Jornal do Brasil e uma alusão ao formato dobrável do panfleto em folha solta, editado entre 1977 e 1981. “Era uma espécie de paródia de tudo, sem respeito por nada. Eu plagiava abertamente. Anarquizei mesmo, fiz algo bem desrespeitoso em relação ao conceito clássico de literatura e imprensa”, explica.

Em 1981, já de volta a São Paulo, as folhas do Jornal Dobrabil foram reunidas em um livro homônimo, tornando-se sua primeira obra publicada, com direito a lançamento badalado no antigo restaurante Spazio Pirandello, na emblemática Rua Augusta. A partir de então, durante a década de 1980, colaborou em diversos veículos, como as HQs Chiclete com Banana, Tralha e Mil Perigos, e as revistas de música Somtrês e Top Rock. Além disso, atuou na grande imprensa como crítico literário do Jornal da Tarde e publicou diversos volumes de prosa e poesia, como Memórias de um Pueteiro (Editora Trote, 1982) e Rockabillyrics (Editora Olavobrás, 1988) – tudo isso enquanto era bancário. Até que, no começo da década de 1990, foi obrigado a aposentar-se por invalidez.

Chegada das trevas

A dificuldade de locomover-se era grande, as leituras tinham de ser acompanhadas de uma lupa e a dor só aumentava. A perda do olho direito veio primeiro, e as cirurgias subsequentes foram feitas apenas no olho esquerdo, que recebia um curativo a cada operação, fazendo com que Glauco já se sentisse cego. A cada vez que retirava o curativo, a luz voltava aos poucos, mas cada vez menos. Um dia, não voltou mais. Aquela operação, em 1995, aos 44 anos de idade, foi a última. “Se eu lidei bem com isso? Eu queria me matar”, conta o poeta, que pensou em se atirar do Pão de Açúcar, longe de casa, para que o golpe fosse menos duro para a família. “Pensei no Assis Valente, um compositor gay do tempo da Carmem Miranda, que tinha impulsos suicidas. Essa era uma das ideias dele, e parecia fácil. Se você subir além de onde o bondinho para e avançar um pouco, já é o abismo”, diz.

Assis Valente morreu de modo bem menos glamouroso (ingerindo formicida num banco de rua) e Glauco Mattoso, aos poucos, reaprendeu a viver. Primeiro, por meio da música. Juntou-se ao baterista da banda Garotos Podres, o Português, para criar o selo musical Rotten Records. Juntos, produziram bandas de gêneros considerados periféricos em relação ao rock comercial, como punk, rockabilly, hardcore e ska. Entre as produções está o disco Melopeia: Sonetos Musicados (2001), em que os sonetos de Glauco são transformados em música com diferentes ritmos e arranjos. Entre os artistas participantes do projeto estão o cantor brega Falcão, Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, Wander Wildner e Arnaldo Antunes. O nome do selo, Rotten Records, representa uma alusão ao nome da banda Garotos Podres e ao heterônimo punk usado pelo poeta: Pedro, o Podre.

Segundo Glauco, apesar de a maioria das pessoas achar que a alcunha tem relação com o ídolo punk Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols, a real inspiração vem do personagem Alex DeLarge, do filme Laranja Mecânica, seu cult movie mais estimado. Acredita-se que o autor, Anthony Burgess, tenha criado o nome pensando em Alex the Great (Alexandre o Grande, em inglês) e trocado o adjetivo great por large, modificando o sentido de “grandioso” para “grandalhão”. Assim, de Alexandre, o Grandalhão, surgiu Pedro, o Podre. “O gosto por Laranja Mecânica surgiu primeiro de uma identificação pessoal”, conta Glauco, referindo-se às cenas de violência, como quando a câmera dá um close-up em uma língua lambendo uma sola de sapato – algo por que passou e que aparece em muitos de seus sonetos, como o “Soneto Efêmero”: “Já cego, minha língua suja lia / em Braille a sola onde eu ia lamber / A mesma terra ali vim a comer / enquanto a molecada toda ria”. Mas, mais do que isso, o que o atrai é o caráter universal do protagonista: “Alex é uma espécie de paródia da civilização. Ele não é bom nem mau. Tem horas em que você pensa ‘coitado, ele é uma vítima do sistema’, e horas em que você pensa ‘esse cara é um nazista, filho da puta, um sádico irrecuperável’. Então ele é tudo com o que me identifico. Eu sou um Alex”.

Glauco Matoso

Além da música, um fato esotérico, como ele mesmo diz, contribuiu para que Glauco voltasse a escrever. Jorge Schwartz, professor de literatura hispânica da USP, o convidou para traduzirem juntos para o português o primeiro livro publicado por Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires. Enquanto Schwartz dominava o idioma, Glauco encarregava-se da parte poética. O trabalho acabou rendendo aos dois o Prêmio Jabuti de 1999.

Com o dinheiro que ganhou, comprou um computador falante, adaptado para cegos, e foi percebendo que tinha autonomia para criar textos. “Não precisei consultar dicionários nem enciclopédias. As rimas iam surgindo na cabeça. Comecei a fazer uma poesia rimada, metrificada, de mais fácil memorização. Mas com uma diferença em relação ao soneto clássico: temas completamente podres e sujos”, diz. Mais uma vez, a dualidade tomou conta. Majoritariamente autobiográfica, a temática de Glauco é politicamente incorreta, desagradável e polêmica. Com recorrência de temas como podolatria, escatologia e masoquismo, sua obra é permeada por versos que chocam: “A boca do ceguinho atura tudo / sebinho, porra, mijo, o que vier”, diz o soneto “Quebra-galho”, publicado em 1999 na revista masculina G Magazine. No soneto “Antiestético”, feito no mesmo ano e publicado na internet, escreve sobre pés masculinos: “O pé que almejo é sujo e chulepento / e, em vez de curva, tem a sola chata / provando que tamanho é documento”.

Apesar de os temas controversos representarem uma barreira entre Glauco e um possível público maior, ele parece não se importar. “O Millôr Fernandes me disse uma vez: ‘Você tem todo o potencial para ficar famoso, ser tão conhecido quanto um Paulo Coelho, ou um destes roteiristas de novela’. Mas a questão é que eu não quero sair destas verdades da minha vida”, diz o poeta, que se recusa a assinar contrato com grandes editoras para não ficar amarrado e preso pela exclusividade.

Assim, numa mistura de libertinagem com erudição – que é, inclusive, o aspecto mais característico de sua obra –, os sonetos tornaram-se o principal foco literário de Glauco. Produzindo incansavelmente, muito mais do que quando enxergava, bateu todos os recordes conhecidos. “Fiz mais sonetos que Camões e Petrarca, mais que Luís Delfino, o recordista brasileiro, e mais que Giuseppe Belli, um italiano do século 19 que compôs 2.279 sonetos. Eu já estou com mais de 4 mil. Se tivesse um Guinness pra isso… Deve ter, mas eu não vou atrás”, diz. Todos os seus sonetos podem ser encontrados no site http://www.uolhost.uol.com.br/.

Produzindo sonetos incansavelmente, a ideia de suicídio tornou-se apenas um ruído distante que ficou no passado. Hoje, Glauco leva a vida metodicamente, respeitando a diferença entre dia e noite e os horários das refeições. Sai de seu apartamento na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, somente para caminhadas durante o dia – agitação noturna, nem pensar. “O cego precisa de sons nítidos, se tiver barulho, em menos de meia hora eu me estresso e deixo o local”, diz.

Para se distrair, ouve rádio noticiosa e muita música. Com a ajuda do companheiro Akira, de 37 anos, um fã que conheceu em 2000 por uma troca de e-mails e com quem desenvolveu uma relação afetiva, ouve a recitação de livros e assiste a filmes por meio de audiodescrição. “O último que vimos foi O Segredo de Brokeback Mountain. Eu visualizava a paisagem de montanha, dava para imaginar perfeitamente o contexto”, diz. Mas o que gosta de fazer mesmo é, fatalmente, escrever. “A comparação mais exata que se pode fazer é a de um vício. A literatura foi o que me impediu de me matar. É minha válvula de escape”, diz. E, apesar de ser considerado e considerar-se polêmico, não o faz intencionalmente: “Eu não tenho pretensões de ser palmatória do mundo. O que eu quero é jogar na cara das pessoas. Se isso agredir, foda-se. Eu não estou nem aí. Agora, se servir pra alguma coisa, se isso aí abrir alguma cabeça e as pessoas começarem a pensar melhor nas múltiplas facetas do ser humano, tanto melhor”.

Fonte: Atitude

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