Palavra que vale mais do que mil imagens

Centro Braille da Fundação Cultural de Blumenau oferece DVDs com audiodescrição, promovendo a inserção de cegos no mundo do cinema. Silêncio. Silêncio. Gemidos. Mais um pouco de silêncio e, só então, depois de um minuto e meio sem saber o que se passava, vem a primeira fala. Assim seria a experiência de um cego assistindo a um filme. Mas desde a semana passada, Cão Sem Dono, adaptação do romance do escritor Daniel Galera, está disponibilizado com o recurso de audiodescrição pelo Centro Braille, da Fundação Cultural de Blumenau, junto a outros 30 títulos. Com esta tecnologia, o narrador explica o que ocorre nas cenas onde não há fala, apenas ações.

Os DVDs integram o projeto Cinema Nacional – Versão Videoteca, da Petrobras e da Associação de Reabilitação e Pesquisa Fonoaudiológica. O objetivo é garantir, por meio do cinema, a difusão da cultura para cegos. Na Fundação Cultural de Blumenau, o empréstimo é gratuito por 48 horas.

De acordo com o coordenador da Imprensa Braille da Fundação Cultural de Blumenau, Giovani Machado, para fazer a audiodescrição é realizado um estudo. Nele, são identificados os elementos necessários para a melhor descrição das cenas com um roteiro de narração.

–É transferir para a retina da pessoa cega o entendimento da cena muda– expõe o coordenador.”

Machado, cego desde os 10 anos, diz que a diferença entre filmes audiodescritos e os normais é enorme. "A gente perde quase que 50% das cenas do filme. Você compreende a história, mas perde pormenores. Como no início do filme (Cão Sem Dono) a moça está com o corpo reclinado numa sacada, com o cabelo balançando. É uma informação que você pode visualizar, você pode criar essa imagem". Ele explica que a pessoa cega desde o nascimento também cria imagens na hora em que assiste ao filme, mas a partir de informações espaciais e táteis, da lembrança das coisas que tocou, experiências adquiridas ao longo da vida. Em Blumenau, segundo o coordenador, há cerca de 250 deficientes visuais, entre cegos e pessoas com baixa visão. Na região, passam de 2 mil pessoas, entre adultos e crianças.

Recurso preenche lacunas durante os filmes

No final de fevereiro, a Fundação Cultural de Blumenau produziu uma sessão especial com deficientes visuais, profissionais da própria instituição e jornalistas, para que compreendessem melhor o funcionamento do recurso de audiodescrição. Os espectadores que não possuíam problemas visuais utilizaram vendas. A aposentada Claudete Dauer, 32 anos, tem de 30% a 40% de visão. Ela nunca havia assistido a um filme com esta tecnologia. Com uma venda nos olhos, considerou a experiência importante até mesmo para ela, que tem parte da visão. Por precisar de muita luz para ver TV, não consegue acompanhar uma exibição até o final. – Se eu for assistir assim com os olhos vendados, consigo prestar mais atenção. Para mim, na verdade, é bom. O que acontece hoje é que meu marido vê e depois me conta o fim.

Denise Schmutzler, 43, perdeu a visão gradativamente desde 1991. Para ela, a audiodescrição preenche a lacuna que os filmes normais deixam. – O diferencial é que você não fica “boiando”. Quando não tem diálogo, ficamos imaginando o que pode estar acontecendo na cena em silêncio. É bem mais fácil com a audiodescrição. Os narradores só dão dicas bem objetivas, por exemplo, “balançou o cabelo”, não ficam descrevendo pormenores que, na verdade, iam deixar o filme bem cansativo. A descrição é só para compreensão da cena.

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Fonte: Diário de Santa Catarina

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