Adriana Lage comenta as dificuldades do cotidiano de pessoas com deficiência

Belo Horizonte – MG, 27/04/2011 Adriana Lage comenta as dificuldades do cotidiano de pessoas com deficiência que foram apresentadas no programa A Liga, da Rede Bandeirantes.

Adriana Lage Ontem, estava assistindo um programa da Band sobre pessoas com deficiência. Minha irmã mais velha saiu da sala falando que o discurso do Rafinha Bastos estava muito piegas e parecia de militante. Ri e comentei que meu discurso é bem parecido com o dele. Acho interessante o fato de muitas pessoas criticarem posturas mais ofensivas na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e, em muitos casos, preferirem sair da sala, trocar de canal, mudar de calçada ou tomar qualquer outra atitude que permita a fuga do problema. Afinal, diz a sabedoria popular que, aquilo que os olhos não vêem, o coração não sente!

Não assisti ao programa todo. O Rafinha, se passando por cadeirante, acompanhou outro cadeirante em um passeio por São Paulo. Como era de se esperar, teve sérios problemas com a acessibilidade. Precisou de ajuda de outras pessoas para sair dos buracos, capotou a cadeira de rodas, não pôde entrar em uma farmácia por causa dos degraus, sentiu a falta de calçadas rebaixadas, não conseguiu embarcar no mesmo ônibus com o outro cadeirante, etc. Acho válidos programas como esse. Mesmo que não resolvam a situação – obrigação dos nossos governantes -, sensibilizam uma parcela da população. Mesmo morando em outra cidade, dá pra ver como os problemas se repetem. A falta de acessibilidade e o preconceito estão presentes em todos os lugares. Acabei me identificando com as situações vividas pelos dois cadeirantes. É engraçado como muitas pessoas preferem ficar de longe olhando, algumas rindo, sem oferecer ajuda a quem precisa. Muitas vezes, só ajudam quando são solicitadas. Ou quando o acidente já ocorreu. A questão da ajuda é complicada: alguns têm a maior boa vontade e ajudam; outros possuem boa vontade, mas são atrapalhados; alguns sentem vergonha ou medo de ajudar e fazer algo errado; outros são egoístas e individualistas mesmo e não querem nem saber. Certa vez, um funcionário e um aluno da PUC/MG me disseram que não eram pagos pra carregar cadeira de rodas escada acima.

O Rafinha também falou um pouco sobre os relacionamentos amorosos. O preconceito ainda é grande. Achei muito legal uma ONG que leva pessoas com síndrome de down, em pequenos grupos, para a balada. Realmente, isso faz falta! Que eu saiba, aqui em BH, não temos nada disso. Caso exista, não é divulgado. Só que, ainda acho que o principal problema é a falta de conhecimento. Minha irmã comentou que passaria longe dessa boate. Ela é traumatizada desde o dia em que foi me assistir numa competição de natação e recebeu um monte de cantadas. Acho que só com a convivência é que poderemos minimizar esse tipo de preconceito. Eu mesma, algumas vezes, ainda fico meio sem jeito quando vou competir e me deparo com algum down ou cego. Quando fui competir pela primeira vez, em 2009, estava no balizamento(momento em que o nadador recebe a informação da raia na qual irá nadar e se prepara para ir pra piscina), tremendo de medo e com cara de pânico, quando um down paulista pegou na minha mão, se ajoelhou aos meus pés, me dizendo que daria tudo certo, que torceria por mim e, assim que voltasse a andar, nos casaríamos. Agradeci, dei um sorriso e fiquei sem reação. Quando olhei, meu técnico estava gargalhando com a cena. O Tiago me alugou dizendo que voltei de Brasília sem ganhar medalha, mas, em compensação, marido eu tinha encontrado e esnobado. Nessa mesma época, atropelei meu companheiro de equipe cego – dei ré na cadeira e não notei que ele estava atrás de mim. Não sabia o que fazer, como chegar até ele nem como conversar. No ano passado, li algumas dicas de relacionamento com cegos antes de ir pra competição. Minha amiga e grande nadadora Tainara me ensinou muita coisa, desmistificando a idéia que eu tinha do cego. É só agir com naturalidade mesmo. Estava dando bobeira à toa. Por exemplo, agora já sei que preciso chegar perto e me identificar, avisar quando estou indo embora, quando for descrever um gatinho pra ela, caprichar nos detalhes… Por falar em cegos, embora a acessibilidade seja lei, é triste ver como ainda estamos atrasados. Citando por alto, faltam cardápios em Braille, sinalização sonora nos estabelecimentos comerciais e ainda são poucos os teatros e cinemas com audiodescrição. A tecnologia facilitou bastante a vida dos cegos. Há pouco tempo, não existiam audiolivros, os softwares para reconhecimento de voz eram poucos, não se pensava em utilizar Braille em embalagens de produtos, etc. Tive um colega, na PUC, que era voluntário lendo os livros para uma aluna de outro curso. Ele passava as manhãs com ela, lendo e gravando fitas cassete. Por isso, puxei a orelha da minha amiga quando pensei em dar de presente pra ela um audiolivro. Ela me disse que fiz bem em comprar um presente numa loja de cosméticos ao invés do livro, pois tem preguiça de escutar um audiolivro. Brinquei com ela que, os cegos das gerações anteriores a dela, devem amar essa idéia do audiolivro, já que lutaram bastante e passaram muito aperto nos anos anteriores. Imagino como devia ser difícil viver num mundo onde os ‘meros mortais’ não sabiam Braille, as publicações eram caríssimas, não existiam celulares nem computadores com reconhecimento de voz. Sem sombra de dúvida, as novas tecnologias facilitaram bastante a vida das pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Mas, como nem tudo é perfeito, as tecnologias assistivas são sempre mais caras e nem sempre são acessíveis a todos.

No programa da Band, uma repórter teve seu dia de cega. Muito interessante a matéria. Ela passou aperto andando pela cidade: trombou em orelhão, custou para atravessar um cruzamento, não encontrou cardápio em Braille no restaurante, teve dificuldades em cortar sua carne e se alimentar. Acho muito legal utilizarem as horas para identificar a comida no prato. Por exemplo, pode-se dizer que o arroz se encontra na posição das 12:15h, a carne nas 12:30 h e por aí vai. Outra coisa que me chamou atenção no programa foi o fato de um deficiente dirigir utilizando os pés. Já tinha visto um artista da Guatemala que faz isso – ele dirige, pinta e toca violão com os pés. Fiquei encantada. Se não me engano, li algo sobre esse paulista na Rede Saci. Tudo isso me serve de inspiração e exemplo para continuar lutando. Às vezes, a cruz fica pesada demais…

Depois vou assistir ao resto do programa. O Thaíde iria participar de um jogo de futebol de 5 para cegos. Adoro assistir essas coisas. Quando participo de competições, embora só tenha contato com o povo da natação, halterofilismo e atletismo, fico admirada com as histórias que escuto. São exemplos maravilhosos de superação de downs, cegos, paralisados cerebrais e todos os tipos de deficientes físicos. No ano passado, pude ver o Clodoaldo nadando. É uma coisa mágica! Não é à toa que o chamam de tubarão das piscinas. Outro nadador que sempre me faz chorar é o Lucas Ito. Só assistindo uma prova dele pra entender a grandiosidade do momento. As histórias dos atletas anônimos, pra mim, são as melhores! Vez ou outra me pego chorando. Essas competições sempre me dão uma sacudida; fazem-me lembrar o quanto Deus foi generoso comigo e que preciso sempre agradecer por chegar aonde cheguei.

A única crítica que faria ao programa seria a escolha da cadeira de rodas utilizada pelo Rafinha! Aquele modelo é horroroso! Ninguém merece usar aquela cadeira. Certa vez, minha cadeira de rodas ficou presa na garagem do banco e tive que pegar uma cadeira de rodas na agência, igual à utilizada pelo Rafinha, para chegar ao 8º andar onde trabalhava. Fiquei 3 horas na cadeira e passei o resto do dia com dores no bumbum. O cômodo é horroroso. O material dos pneus é tão estranho que a cadeira pára em qualquer buraquinho ou pedrinha. Se não me engano, esse modelo de cadeira é a mais barata que existe. Andar pelas cidades brasileiras, em uma cadeira de rodas, já é turismo de aventura. Com uma cadeira dessas, só um milagre para o cadeirante chegar sã e salvo ao destino. Enfim, as coisas estão melhorando para todas as pessoas com deficiência. Mas, ainda falta muito. Só através de reivindicações é que chegaremos lá. Programas como esse da Band ajudam a sensibilizar as pessoas para o problema. Para mim, as barreiras arquitetônicas são mais fáceis de serem dribladas. Mas, quando se trata de barreiras atitudinais, as coisas são mais difíceis. Prova disso são os relacionamentos amorosos. Estou começando a achar que minha mãe tem razão: do jeito que as pessoas andam mais individualistas, muitas vezes, está mais interessante ficar sozinha e curtir a vida de solteira viajando e conhecendo gente nova do que arrumar um namorado. Pra piorar, depois que a gente tem independência financeira e uma vida estável, acaba ficando mais exigente e cheia de manias. Por exemplo, sou romântica e adoro receber uns carinhos, sejam físicos os à distância. Para mim, quanto mais puder ter a presença do meu amor, melhor! Acho pouco conversar só uma vez por dia quando se tem tantos recursos tecnológicos ao alcance. Uma coisa é você imaginar que a pessoa gosta de você e que sente sua falta. Muito melhor é saber disso através de atitudes do seu amado. Sou muito diferente do Alexandre nesse ponto. Não sei se conseguiremos entrar num acordo. Vander Lee, em sua canção Românticos, retrata uma triste verdade: Romântico É uma espécie em extinção!
Românticos são poucos
Românticos são loucos
Como eu!

Fonte: Rede SACI

Mais sobre audiodescrição
O dicionário Michaelis põe uma pá de cal na polêmica sobre a grafia de audiodescrição
Poesia com deficiência, de SÉRGIO CUMINO, pessoa com deficiência Com sorriso contemplativo O horizonte banha
O Futuro que Queremos: Trabalho Decente e Inclusão de Pessoas com Deficiência é uma série


Mais sobre audiodescrição
O dicionário Michaelis põe uma pá de cal na polêmica sobre a grafia de audiodescrição
Poesia com deficiência, de SÉRGIO CUMINO, pessoa com deficiência Com sorriso contemplativo O horizonte banha
O Futuro que Queremos: Trabalho Decente e Inclusão de Pessoas com Deficiência é uma série