Mídia inclusiva produzida pela Folha conta com Libras, legenda e audiodescrição

Nos vídeos, são explicados os critérios para inscrição no Prêmio Empreendedor Social e no Prêmio Folha Empreendedor Social de Futuro, além de relatos sobre vencedores e finalistas. No primeiro filme, a editora Patrícia Trudes da Veiga conta o motivo desse passo em direção a uma comunicação "para todos".

"Para quem vê, temos a imagem. Para quem não enxerga, a audiodescrição. Para quem ouve, o som. Para quem não escuta mas lê, a legenda. Para quem não escuta e usa a língua de sinais, a Libras. Para qualquer cidadão brasileiro, a informação. ".

A fonoaudióloga Cláudia Cotes, 42, fundadora da ONG Vez da Voz (finalista do Prêmio Empreendedor Social em 2009) e parceira nessa iniciativa, classifica a nova mídia inclusiva como "fantástica". "É o primeiro passo para que a inclusão aconteça. Tenho certeza de que milhares de pessoas cegas e surdas ficarão alegres. Só que esse fato não pode e nem deve ser uma ação pontual. Precisamos desse formato hoje e sempre. Acredito que a TV Folha pode fazer projetos inclusivos com muita competência."

O presidente da Associação de Surdos de São Paulo, Paullo Vieira, 40, diz que os vídeos acessíveis irão ajudar muitas pessoas a terem mais informações. "E será um atrativo para esse público que também é consumidor."

Para Paulo Romeu, 53, cego desde 1980 e criador do Blog da Audiodescrição, a "Folha reafirma seu respeito a todos os leitores, demonstra seu nível de conscientização e apoio para as causas sociais legítimas, além de dar exemplo do real significado da expressão responsabilidade social corporativa".

A Folha conversou com Cotes, Romeu e Vieira para trazer à tona uma discussão que nem sempre está presente em grandes veículos: como fazer uma comunicação acessível?

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.

Folha – Os meios de comunicação do Brasil cometem muitas falhas quando se trata de acessibilidade?

Cláudia Cotes – Muitas! Hoje, a mídia brasileira só é feita para quem escuta e enxerga. São 6 milhões de surdos e 17 milhões de cegos no nosso país. No total, quase 30 milhões de pessoas com deficiência. Eles também querem fazer parte da cultura e da educação porque são cidadãos. Pena que profissionais da comunicação não pensem neste público. A mídia está deficiente…

Paulo Romeu – Para as pessoas com deficiências relacionadas à visão e à audição, as barreiras na comunicação representam o principal obstáculo em termos de acessibilidade. Como uma pessoa cega compreende os programas de televisão se, para ela, as imagens não existem? Como usa o computador? Poderia citar dezenas de exemplos como esses para os quais já existem soluções tecnológicas, bastaria que fossem corretamente aplicadas… No computador, há mais de 15 anos, existem os chamados programas leitores de telas que capturam todas as informações apresentadas no monitor em forma de texto e as convertem para "fala" por meio de uma síntese eletrônica de voz. Mas sempre empacamos quando uma página contém uma foto que funciona como link para outra página ou quando precisamos clicar em um botão de ‘play’ que não consegue ser traduzido para fala pelos leitores de telas para assistirmos a um vídeo. Nesses casos, somente implementar tecnologias não é suficiente, também é necessário que os responsáveis pelo desenvolvimento dos aplicativos para a internet se conscientizem de que precisam construí-los de modo que sejam acessíveis.

Paullo Vieira – Sim, muitas. No caso dos surdos, não temos acesso a muitos programas na TV, pois o close capition aparece somente em programas gravados e não são todos. Os pacotes de celulares estão mais acessíveis, mas ainda não têm a tecnologia necessária para suprir uma comunicação 100% a comunidade surda. A videochamada é uma dessas tecnologias que facilita a vida dos surdos, mas que atualmente é muito cara.

Folha – Na sua percepção, como é possível diminuir essas falhas?

Cotes – Quem faz comunicação precisa entender que as pessoas cegas precisam da audiodescrição. E que não existem surdos-mudos! Eles só não falam porque não escutam e normalmente se comunicam em Libras, a língua brasileira de sinais. As pessoas com deficiência auditiva são aquelas que usam aparelho auditivo, falam e possuem uma boa leitura da língua portuguesa. Por isso, precisam da legenda e/ou closed caption para entender as informações nos vídeos, TV e cinema. As falhas serão diminuídas quando os profissionais que fazem mídia entenderem que o mundo precisa ser acessível para todos, independentemente de nossas diferenças. A informação é uma só, mas pode ser divulgada de várias formas diferentes. Se não for pela TV, então, que seja via web. Em um mundo tão plural, cheio de tecnologias e invenções, como podemos não pensar no ser humano?

Romeu – É uma questão de informação, conscientização, determinação, tempo e, quando nada disso for suficiente, punição. A partir de 2008, quando o Brasil ratificou a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas), passamos a ter uma legislação bastante completa e coerente, mas que ainda precisa ser regulamentada para se tornar totalmente aplicável, inclusive com o estabelecimento de sanções para os casos de descumprimento. Em todas as esferas de governo, políticas públicas de acessibilidade e valorização da pessoa com deficiência vêm sendo implementadas, as próprias pessoas com deficiência estão se conscientizando de seus direitos e exigindo que sejam respeitados.

Vieira – Melhor entendimento da necessidade do surdo, mais investimento e estudo em novas tecnologias e disponibilidade para sugestões do próprio deficiente.

Folha – O que acha da nova proposta da Folha em fazer uma mídia inclusiva, com Libras, legenda e audiodescrição?

Cotes – Fantástica! É o primeiro passo para que a inclusão aconteça. Tenho a certeza de que milhares de pessoas cegas e surdas ficarão alegres. Só que esse fato não pode e nem deve ser uma ação pontual. Precisamos desse formato hoje e sempre. Acredito que a TV Folha pode fazer projetos inclusivos com muita competência.

Romeu – Com essa nova iniciativa, a Folha reafirma seu respeito a ‘todos’ os leitores, demonstra seu nível de conscientização e apoio para as causas sociais legítimas, dá exemplo do real significado da expressão "responsabilidade social corporativa".

Vieira – Maravilhosa. Acredito que vai ajudar muitas pessoas a terem mais informações e será um atrativo para este público que também é consumidor.

ENTREVISTADOS

Cláudia Cotes, 42, casada, fonoaudióloga, mãe de Carolina, 13, e Victor, 10. "Há coisas que me tocam profundamente nesta vida… Poder conviver com as pessoas com deficiência é uma delas. Desde pequena, aprendi a dividir os meus brinquedos com um irmão Down."

Paulo Romeu, 53, analista de sistemas, casado, dois filhos — Daniel, 22, e André, 18. O mais novo nasceu com síndrome de Down. Romeu perdeu a visão em 1980 em decorrência de um acidente de carro. "Cursava o 4º ano de engenharia química nessa época. Depois do acidente, achei que teria mais oportunidades profissionais na área de informática."

Paullo Vieira, 40, divorciado, estudante de educação física, pai de Felipe, 12. "Tenho um grande sonho de participar da educação bilíngue para surdos." A mãe de Vieira teve rubéola na gestação, o que ocasionou a surdez do filho.

Fonte: Prêmio Empreendedor Social

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