Em defesa da dublagem: um direito de milhões de brasileiros

É hábito corrente, entre pessoas que gostam bastante de cinema, achar que um filme visto com o áudio da dublagem é um sacrilégio imperdoável e que quem ousa adotar tal prática é um herege.

Há bastante tempo, convivo próximo a pessoas que gostam e entendem bastante de cinema. E isso sempre me acrescentou bastante, costumo aprender com quem convivo. Mas isso também me trouxe algumas conversas nas quais tive que exercitar argumentos contrários aos dos meus interlocutores. E um dos temas reincidentes nestes diálogos – por vezes triálogos – era a tal da virtude ou não de se assistir a filmes dublados.

Pois então, nos idos anos em que se locava fita VHS, ou pegávamos uma fita dublada ou legendada, nunca uma com os dois recursos, era a linearidade ainda conduzindo nossa percepção e fruição dos produtos culturais como o cinema. Poder escolher o idioma do áudio ou da legenda ou uma combinação entre um e outro dentro de uma mesma mídia, foi uma Torre de Babel construída pelo DVD.

Desde muito cedo, descobri que gostava de ler e, ainda assim, nunca gostei de filmes legendados, minha intuição pueril me dizia que aquilo era subentender um filme. Achava, na verdade, estranho que as pessoas locassem um filme legendado. Devo dizer agora, para que esse texto ganhe um sentido mais convincente, que cresci em meio a fotografias e, por isso, talvez tenha sido alfabetizado primeiro pelas imagens e só depois pelas letras.

Bem, hoje ainda é bastante comum que as pessoas continuem assistindo aos filmes legendados apesar de terem a opção de vê-los dublados, ação essa ainda considerada um sacrilégio. Tecem-se argumentos em prol da legenda:

  • Ela é mais fiel ao texto original;
  • Ela valoriza a interpretação do ator;
  • Ela mantém uma qualidade de som melhor;
  • Ver filme dublado é coisa de quem não sabe ler;
  • As dublagens são pouco convincentes;

E outros que, provavelmente, tenha-me esquecido. Mas esses argumentos nunca me pareceram convincentes. Sempre os entendi e, eventualmente, concordei com eles, mas não os avaliava como convincentes.

Então, vou romper agora um silêncio de anos e vou dizer o que penso sobre isso: acho que essa compreensão é um logocentrismo. Herança de uma sociedade que tinha na palavra escrita uma forma de dominar e subjugar quem não conseguia decifrá-la. Para o Ocidente a idéia de cultura sempre esteve associada mais ao livro do que a imagem, ao contrário do Oriente e até de parte da Europa. É como se a imagem fosse analfabeta. Esse é um raciocínio meio sociológico.

O raciocínio meio fisiológico é o seguinte: uma obra cinematográfica não é feita para ser lida. Óbvio, é feita para ser vista. E quando nosso olho foca uma legenda, ele desfoca a imagem e, portanto, desfoca a mensagem principal da obra audiovisual. A visão humana não consegue focar dois elementos em planos diferentes de uma só vez.

Há ainda a justificativa técnica: uma obra audiovisual é concebida, planejada, normalmente para ser compreendida principalmente pela visão, daí a necessidade, por exemplo, do story board de planejar cada enquadramento de um filme, o som merece atenção, mas uma atenção menor se comparada a que a imagem demanda. Um argumento que pode ratificar essa afirmação é o fato de existir "cinema mudo" (ok, reconheço o problema desse termo, existiam as orquestras, mas vocês estão me entendendo, né?) mas não existe cinema "cego" (ok, sei que existe a audiodescrição, mas vocês estão me entendendo outra vez, né?).

Por fim, existem outros argumentos, mas vou deixar para os comentários, caso sejam necessários. Concluo dizendo que acho mais respeitoso assistir a uma obra audiovisual dublada do que legendada. Quero ler o que vocês têm a dizer, acho que essa discussão deve render, até.

Alexandre Brito

Fonte: Trapiche Amazônico

Nota do Blog:

Existem no Brasil mais de 16 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual segundo o censo realizado em 2000 (os dados relativos a pessoas com deficiência do censo realizado em 2010 ainda não foram divulgados).

Não tenho dúvida em afirmar que a ínfima minoria dessas pessoas tem fluência no idioma inglês suficiente para que possam acompanhar um filme no idioma original.

Uma vez que, obviamente, estas pessoas também não são capazes de ler as legendas de tradução, estes milhões de brasileiros estão alijados do direito à comunicação, à educação, à informação e ao lazer proporcionados pelas TVs por assinatura que tem programação majoritariamente falada em inglês.

Confiamos que nosso direito será efetivamente respeitado e que, a partir de 1º de julho próximo, possamos começar a acompanhar as míseras duas horas de programação semanal com audiodescrição transmitida pelas emissoras de televisão aberta.

Mas nossa batalha pela acessibilidade na televisão não estará terminada. Continuaremos lutando para que o Ministério das Comunicações reveja o cronograma de implantação da audiodescrição nas TVs abertas, e iniciaremos uma nova batalha para que a acessibilidade também chegue às TVs por assinatura, o que significa: "dublagem", audiodescrição, closed caption e interpretação em LIBRAS.

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