Missão: acessibilidade

O trabalho do grupo Lead é realizado em laboratório da Universidade Estadual do Ceará: filmes, peças de teatro e exposições acessíveis para deficientes. Para permitir que os portadores de deficiência tenham acesso a filmes e vídeos, alunos e professores da Uece somam esforços e conhecimentos.

Entre os projetos de maior destaque no Estado voltados à acessibilidade de portadores de necessidades especiais está o Lead – Legendagem e AudioDescrição, grupo de estudo filiado ao grupo de pesquisa da Universidade Estadual do ceará (Uece), coordenado pela professora Vera Lúcia Santiago.

O grupo, criado em 2008, reúne 12 alunos do curso de Letras, do mestrado em Linguística Aplicada e da especialização de Formação em Tradutores da Uece. "Com o objetivo de atuar no mercado profissional, fundamos em 2010 a Associação dos Tradutores Audiovisuais do Brasil – Atav, que funciona paralelamente às pesquisas do grupo", explica Bruna Leão, integrante do Lead e do Atav.

"A associação já realizou alguns trabalhos pagos, como a audiodescrição do vídeo coletivo "Fortaleza em Todos os Sentidos", da Vila das Artes, equipamento da prefeitura de Fortaleza", complementa a mestranda.

Além de filmes e vídeos, o grupo trabalha com peças de teatro e exposições. Bruna explica que a tradução audiovisual tem várias modalidades, como a dublagem, a voice over (voz em off), a legendagem normal e aquela para surdos e a audiodescrição – estas duas últimas, objetos de pesquisa do Lead. "A audiodescrição consiste na tradução das imagens em palavras. Por exemplo: em momentos de silêncio de um filme, quando só há trilha sonora ou ação, sem diálogos, o cego não sabe o que acontece. Então descrevemos as imagens e a incluímos no filme como um segundo áudio", esclarece a mestranda.

"A descrição inclui ainda informar mudanças de cenário, de tempo e outros aspectos desse tipo. Procuramos inseri-la em espaços de silêncio do filme. Fazemos sobreposição de áudios apenas quando extremamente necessário", diz Bruna.

Já a legendagem para surdos é diferenciada por contemplar outros elementos, como a identificação do personagem falante e de efeitos sonoros. "Por isso esse tipo de legenda é um pouco mais condensada", observa a estudante.

Em museus, o trabalho consiste na descrição das obras. "Os visitantes recebem um MP3 com o áudio. Às vezes conseguimos articular esse recursos a outros, como o piso tátil, que sinaliza onde está cada obra. Ou quando eles podem tocar as obras", afirma a integrante do grupo.

No teatro, diferente do cinema, a audiodescrição é ao vivo. "Utilizamos aqueles fones de tradução simultânea, para não atrapalhar os outros espectadores. Por um fone eles escutam a descrição; pelo ouvido livre, os diálogos e a trilha", esclarece Bruna. "As salas de cinemas também deveriam ser equipadas com os fones, para sessões mistas (deficientes e não-deficientes). Mas são raríssimas", lamenta a estudante.

Público do futuro

"Fizemos, por exemplo, a primeira mostra de filmes acessíveis do Cine Ceará, na 19º edição do festival. Elaboramos também a audiodescrição das peças "Astigmatismo", de uma turma do Curso Princípios Básicos de Teatro; "Curral Grande", de formandos do Curso de Arte Dramática da UFC; do solo de dança "Magno Pirol"; e da peça "A Vaca Lelé", enumera Bruna.

Esta última foi um dos primeiros trabalhos do Lead voltado ao público infantil. "Percebo que eles são muito mais preparados para receber os recursos do que os adultos. Muitos nunca tinham ido ao teatro ou usado fones de tradução, mas não tiveram dificuldades em acompanhar", recorda Bruna.

"O público adulto é mais relutante, acomodado. Se prepararmos e investirmos nas crianças, são elas que, mais à frente, irão brigar pelos direitos dos deficientes", acredita a mestranda, cuja dissertação aborda exatamente a audiodescrição para o público infantil.

Mobilidade

Outra dificuldade mencionada por Bruna nos projetos do Lead é o transporte dos portadores de deficiência. "Se não providenciamos locomoção, não há público nos eventos, diferente do que acontece em outras cidades", lamenta a estudante. A mesma queixa aparece na fala de João Monteiro, jornalista e coordenador do Laboratório de Inclusão da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, do Governo do Estado. "Coordeno o laboratório há 20 anos. Se você me perguntar qual principal entrave que temos hoje eu respondo: transporte", critica Monteiro.

"A cidade não tem projeto de acessibilidade, e é consenso entre paraplégicos e tetraplégicos, por exemplo, que o ônibus adaptado não resolve. Como eles podem percorrer cinco quarteirões até o ponto, se não há calçadas, se há buracos, barreiras? Além disso, só para entrar no ônibus são uns 15 minutos. A única saída para cadeirantes são os transportes específicos", afirma Monteiro. "Eles tem que ser levados do ponto de partida ao ponto de chegada. Como não acontece, a maioria que não dispõe de transporte particular ou não pode arcar com taxi está em casa. Alguns corajosos ainda enfrentam tudo isso pelo trabalho ou estudo, mas são poucos", complementa.

Criado em 2008, o Laboratório de Inclusão da STDS vem sendo desenhado desde 1991. "Começamos como um programa de estágio curricular universitário para estudantes em situação social vulnerável, ou seja, portadores de HIV, vítimas de câncer, de orfandade prematura – qualquer condição que atrapalhasse a obtenção de um estágio", recorda Monteiro.

Em 2004 o programa de estágio transformou-se em um projeto mais amplo, com ações que incluíam também pessoas com deficiência. "Hoje temos uma equipe multidisciplinar, com assistentes e cientistas sociais, arquitetos, pedagogos e outros. Temos dentro da STDS 40 vagas de terceirizados, que começamos a mapear em 2006, cruzando as exigências de cada função com as características de cada deficiência", explica Monteiro. "Atualmente todas são preenchidas por portadores dos quatro tipos de deficiências: cognitiva, auditiva, visual e motora. Isso chama-se inclusão qualitativa. Trabalhamos exclusivamente com geração de emprego e renda, não com assistencialismo", ressalta o coordenador.

Dentre os projetos do laboratório de Inclusão está o grupo Acessibilidade Apresenta, que reúne músicos, atores, bailarinos e artistas plásticos. A iniciativa, criada em 2010, é coordenada por Sérgio Rotschild.

"Por meio desse projeto o Sérgio descobre pessoas incríveis, como Ítalo Gutierrez, estudante de17 anos, cantor e compositor. Ou a cantora Bia Marques, que inaugurou as apresentações do grupo. Ambos são deficientes visuais", esclarece Monteiro.

"Mas para participar, o interessado passa por uma seleção. Ele já precisa ter nível de mercado, porque não trabalhamos com formação, mas com inserção", observa o coordenador.

Fonte: LEAD / UECE

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