Gulbenkian viabiliza projeto de descrição de imagens para cegos

Imagine que está de olhos vendados e uma voz lhe descreve, pincelada por pincelada, um quadro emblemático, com o objectivo de lhe permitir ter as mesmas sensações que teria se estivesse a ver a pintura. Uma experiência que pode ser alargada a peças de teatro, filmes ou programas de televisão. A ideia é transformar as imagens em sons que se sentem no ouvido. É este o objectivo do projecto Ouço, logo vejo – uma iniciativa da Companhia Nacional de Actores que trabalha com audiodescrição para pessoas com deficiência visual e tem o apoio da Bolsa de Valores Sociais e do Museu gulbenkian.

E foi no Museu Calouste Gulbenkian que Rui Vilar, presidente da Fundação, se deixou guiar pela audiodescrição no quadro que escolheu: La Table Garnie, de Henri Fantin Latour. "Eu beneficio do facto de conhecer muito bem o quadro mas foi uma descrição muito rigorosa, de uma forma que qualquer pessoa podia segui-la", considerou o presidente da Fundação, após a experiência de audiodescrição.

Já Anaísa Raquel, audiodescritora, explica que o projecto foi criado em Janeiro de 2010 e entrou na Bolsa de Valores Sociais (BVS) em Março. A equipa é constituída por nove pessoas, sendo que duas são cegas ou com visibilidade reduzida e fazem, no fundo, o "controlo de qualidade dos textos".

A Gulbenkian, aliás, vai comprar as acções que sobram deste projecto na Bolsa de Valores Sociais. "A Fundação vai subscrever as mais de 15 mil acções que estão ainda em bolsa, para que o projecto Ouço, logo vejo possa voar", anunciou o responsável.

Questionado sobre se o Museu Gulbenkian iria adoptar este projecto, Rui Vilar disse apenas que essa questão "ainda terá de ser avaliada". O investimento rondará os 15 mil euros. Rui Vilar refere, contudo, a importância das boas práticas de gestão para o projecto manter o sucesso. "É preciso lembrar a importância das competências e esse é o maior desafio. Investir nas competências necessárias e utilizá-las para melhorar a eficácia".

Com a saída deste projecto da BVS entrará um novo, que está já em lista de espera. A Bolsa de Valores Sociais conta com "24 projectos ‘cotados’ em permanência e quando um é totalmente subscrito entra outro", explica Luísa Villar. A recém-eleita vice-presidente da entidade não disfarçava a satisfação com o anúncio do presidente da Gulbenkian. "Este é o primeiro projecto que apresento e sai logo o bingo! É muito importante para nós esta subscrição". A BVS funciona como uma réplica de uma bolsa de valores mas tendo em vista organizações sociais. Os projectos são apresentados a "investidores" que podem comprar acções, ou seja, fazer um donativo para o projecto. E, através da BVS, o investidor terá o acompanhamento do uso dos recursos financeiros doados.

Até ao momento a BVS já garantiu o financiamento a 100% de três projectos: o "Oiço, logo vejo", o projecto "Cozinhar o Futuro", direccionado para mães adolescentes e a Unidade Móvel de Apoio, com a assinatura da fundação Gil, para crianças com doenças crónicas. Estes dois projectos angariaram um financiamento de 215 mil euros.

Cátia Simões

Fonte: Jornal Econômico-SAPO.PT



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