Seminário Nacional de Acessibilidade em Ambientes Culturais: deficientes são as pessoas ou os espaços?

A motivação pelo debate sobre o tema da acessibilidade em exposições, museus e outros espaços que abrigam coleções e patrimônio, fez com que reuníssemos arquitetos, designers, museólogos, bibliotecários e demais profissionais e estudantes interessados em reavaliar seus espaços de trabalho, durante o Seminário Nacional de Acessibilidade em Ambientes Culturais. Mudança no olhar sobre o espaço que nos acolhe e nos permite, ou não, ter autonomia frente ao que temos o direito de conhecer e interpretar, esta foi a tônica do evento realizado em maio de 2011, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre, RS, Brasil.

O seminário de acessibilidade representou um encontro de pesquisadores, profissionais e estudantes preocupados em compreender a chamada cultura inclusiva e os termos utilizados para definir desenhos, no sentido projetual, universais e viabilizadores do pleno uso do espaço privado e público, e, sobretudo, de finalidade cultural. Nas manhãs dos três dias de evento, acompanhamos sessões de caráter técnico-metodológico sobre o tema da acessibilidade. Abrimos a manhã do primeiro dia, com a esclarecedora palestra da arquiteta Silvana Cambiaghi, funcionária da Prefeitura de São Paulo e consultora da ONG Mais Diferenças, parceira na organização desse evento. Uma manhã com auditório lotado, que nos possibilitou rever as orientações sobre desenho universal contidas na obra – com edição esgotada – da palestrante. Nas duas manhãs subseqüentes, tivemos a oportunidade de conhecer a técnica da audiodescrição para cinema e de alguns projetos realizados pela Ong Mais Diferenças em São Paulo com esse universo. Participaram dessas discussões a audiodescritora Letícia Schwartz e o editor de vídeo Gabriel Bohrer Schmitt (), profissionais que atuam nessa mesma área, especialmente junto ao mercado gaúcho.

Durante as três tardes do evento, tivemos a oportunidade de repensar nossos museus e as exposições nele abrigadas, através das orientações, dos exemplos e do método proposto pela ministrante do curso Acessibilidade em Museus e Exposições, Viviane Sarraf, representando a Fundação Dorina Nowill e a empresa Museus Acessíveis. Entre debates de conceitos e princípios do campo da acessibilidade, pudemos vivenciar, mesmo que brevemente, o que pode significar a privação dos sentidos da visão e da audição no cotidiano de um universitário. A professora Viviane propôs ainda a experiência de avaliação da acessibilidade no Museu da UFRGS, através de um método quantitativo explicado previamente. Ao final das três tardes, o expressivo número de participantes do curso, pode debater boas práticas e repensar a situação observada no Museu da Universidade.

As noites do seminário nos reservaram sessões temáticas de grande impacto emocional, sobretudo na primeira noite, quando a diretora da Mais Diferenças, Carla Mauch, apresentou uma pesquisa realizada pela ong sobre a história do cinema através do olhar da inclusão e exclusão. Belíssimas imagens nos possibilitaram entender que exclusão e inclusão caminham juntas até que possamos nos libertar das amarras do preconceito, o qual serve apenas para superdimensionar as deficiências e impossibilitar de ver que a diferença é característica própria do ser humano. Em um dos filmes mostrados durante a noite, um menino cego tateava um terreno, tomado por folhas caídas, guiado pelo som de um pássaro recém-nascido que havia caído do ninho. Esse menino enfrenta e afasta, apenas com sua percepção auditiva, um gato que estava igualmente à procura do pássaro. Ao localizar o animalzinho, o menino o coloca no bolso da camisa e começa uma nova aventura, agora na escalada da árvore onde deveria estar o ninho do pequeno pássaro. Com bastante dificuldade ele escala a árvore, com o tato e, sobretudo muita sensibilidade, o menino localiza o ninho e recoloca seu integrante caído.

A comoção pelas imagens mostradas e pela excelente pesquisa realizada pela Mais Diferenças com cinema inclusivo, proporcionou-me retomar pesquisas no campo da interpretação da imagem fílmica, entre as quais aqui me permito fazer breve referência. Quando da elaboração da minha dissertação de mestrado, defendida em 2006, no Propur/UFRGS, sob o título de Cinema & Cidade: Porto Alegre entre a lente e a retina, tive a oportunidade de analisar um filme curta-metragem, que trazia no papel principal um menino cego. O objetivo da dissertação era analisar a cidade representada pelo cinema e de investigar os múltiplos olhares sobre a cidade que nos transforma e é por nós transformada.

Diante das muitas dificuldades e até impossibilidades detectadas por nós videntes, o jovem protagonista do filme O Branco (2000), de Liliana Sulzbach e Ângela Pires, apresenta uma deficiência real – a cegueira – que não o impede de alcançar o seu propósito. Logo no prólogo do filme, na primeira fala do menino, ele pergunta ao seu pai qual a cor do sol e assume que, entre as variações de cor descritas, prefere o branco. Na cena seguinte, o menino se prepara para ir ao parque com sua mãe. A casa do protagonista é o espaço de convívio exclusivo com a mãe e eventual com outras pessoas. A cidade – como espaço de morada – é usufruída apenas na companhia da mãe e nos lugares escolhidos por ela. Estranhos não são bem-vindos e não devem receber atenção, apenas devem ser mantidos à distância.

No trajeto ao parque, visitado sempre aos sábados, mãe e filho embarcam num ônibus que os deixa num ponto identificado pela música alta de uma loja de discos. O espaço externo à casa, habitado por seres desconhecidos, não tem a mesma tonalidade da casa, pois "a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz" (Bachelard, 2000, p. 26). Bachelard defende que "a casa é uma das maiores forças de integração entre os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem" (Bachelard, 2000, p. 26). No ambiente externo, deve-se manter atento às variações do espaço e das pessoas. Por outro lado, é no espaço público que se dá a possibilidade e o desafio do encontro.

Circular pela cidade em busca de alguém joga o protagonista numa imensidão: "O excesso de espaço sufoca-nos muito mais do que a sua falta". (Rilke apud Bachelard, 2000, p. 223). Mesmo não enxergando, ele não desiste e lança-se na sua busca. No percurso e na sua inevitável perda pelo Centro da cidade, evidenciam-se as incompatibilidades e inacessibilidades do espaço urbano e sua precária infraestrutura, despreparada para libertar quem não dispõe de visão ou de qualquer outro sentido. O filme não chega a questionar a cidade e sua incapacidade de planejamento, mas abre curiosas leituras poéticas e contraditórias.

O ponto alto do filme certamente encontra-se no trajeto do ônibus que leva o menino ao parque, sozinho. O protagonista, que já está confuso com a mistura de vozes e ruídos e compartilha com o espectador de sua percepção no momento que o ônibus entra no túnel da Conceição. Voilá, a escuridão da cena lança o espectador no universo perceptivo da personagem.

A estranha comunicação entre o indivíduo (tornado sujeito dessa ação, protagonista na cidade) e o espaço está colocada numa seqüência de planos logo após a imersão no túnel. A metáfora é perfeita: no instante em que se dá a escuridão absoluta, o fluxo de produção de imagens sobre a cidade poderia ser substituído apenas por sons ou por outro recurso que mantivesse o espectador em sintonia com a personagem.

A cidade que se apresenta à personagem pode ser qualquer uma. Ela é barulhenta e superlotada de pessoas impacientes e indiferentes. Cada um segue sua enlouquecida trajetória diária, enquanto a personagem se perde, repetindo-se por caminhos já percorridos. O seu lugar predileto no mundo, naquele momento, está situado no banco do parque, na companhia da menina que o espera. E o filme segue infelizmente. A possibilidade de construção e desconstrução espacial e temporal, pelo espectador, é negada pelas realizadoras do filme.

Pensando, enfim, coletivamente em novas perspectivas sobre os ambientes culturais

Na segunda noite do seminário, novamente os participantes foram premiados pelas palestras das arquitetas Flavia Boni Licht e Regina Cohen (pesquisadora do Núcleo Pró-Acesso, do PROARQ/FAU/UFRJ) e pela pesquisadora Viviane Sarraf. Cabe destacar o valioso material exposto por Regina Cohen, trazendo a sua leitura de espaços culturais pelo mundo, destacando que ela é cadeirante. Regina nos possibilitou refletir sobre a impressionante deficiência dos espaços de interesse cultural brasileiro, mostrando que ela conseguiu transitar livre e autonomamente pelas ruelas de traçado medieval na Europa, usufruir da visita em castelos e catedrais de muitos séculos em países como a Espanha e Portugal, mas não conseguiu acessar alguns museus no Brasil e mesmo transitar por ruas em cidades como Paraty, Ouro Preto e partes da cidade do Rio de Janeiro, pois os regramentos de tombamentos federais e em outros níveis, impossibilitaram intervenções que poderiam viabilizar o acesso universal. Com desenhos muito mais recentes que as catedrais e os castelos de 1200 na Europa, nossos centros culturais e nossas cidades tombadas ainda precisam se atualizar.

Sabemos, entretanto, que as políticas por aqui estão se formando e não se reformulando como acontece em outros países. Estamos ainda dando primeiros passos nessa discussão, a qual apresenta legislação de sobra. Muitos mais do que debater espaços que acolhem o patrimônio tombado e musealizado, estivemos reunidos gaúchos, cariocas, paulistas, cearenses e outros – durante três dias inteiros e intensos no Seminário Nacional de Acessibilidade em Ambientes Culturais – para pensar em uma cultura inclusiva possível e aplicada ao nosso cotidiano.

Referências

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

CUTY, Jeniffer. Cinema & Cidade: Porto Alegre entre a lente e a retina. Porto Alegre: UFRGS (Dissertação de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, UFRGS), 2006.

DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

Fonte: Expo Museus

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