Linguagem, a mais humana das invenções

A linguagem, a mais humana das invenções ou de como os cegos podem nos ajudar a ver

Marta Gil (*)

Dizemos frequentemente que a inclusão é uma via de mão dupla. Dizemos, também, que aprendemos muito ao interagir com pessoas com deficiência.

Porém, nem sempre essa situação de troca e de aprendizado fica clara, nem sempre o “sinal invertido” aparece explicitamente.

As frases finais do livro "O olhar da mente", de Oliver Sacks[1], me trouxeram duas reflexões: uma sobre a importância da audiodescrição e outra sobre esse tal “sinal invertido”, ou seja, os ganhos que nós, pessoas sem deficiência, temos ao viver situações inclusivas.

O livro foi escrito em 2010 e a AD (audiodescrição) começou a ser utilizada nos Estados Unidos em meados da década de 80. Não há como saber se o Dr. Sacks a conhece, pois não a menciona no livro.

Mas leiam o que ele escreveu, a partir do depoimento de uma senhora, Arlene Gordon, assistente social, que perdeu completamente a visão:

Depois de ficar cega na casa dos quarenta, Arlene Gordon descobriu que a linguagem e a descrição eram cada vez mais importantes, pois estimulavam sua capacidade de lidar com imagens mentais mais do que antes e, em certo sentido, permitiam-lhe ver. "Adoro viajar", ela me disse. "Eu vi Veneza quando estive lá". Ela explicou que seus companheiros de viagem descreviam os lugares, e ela então construía uma imagem mental baseada nos detalhes que eles lhes forneciam, em suas leituras e em suas próprias memórias visuais. "Pessoas que vêem têm prazer em viajar comigo", ela comentou. "Faço perguntas, e elas então olham e vêem coisas que, se não fosse por mim, passariam despercebidas. É tão comum pessoas que têm visão não verem nada! É um processo recíproco – enriquecemos mutuamente os nossos mundos."

Temos aqui um paradoxo – delicioso – que não consigo resolver: se de fato existe uma diferença fundamental entre a vivência e a descrição, entre o conhecimento direto e o conhecimento mediado do mundo, por que então a linguagem é tão poderosa? A linguagem, a mais humana das invenções, pode possibilitar o que, em princípio, não deveria ser possível. Pode permitir a todos nós, inclusive os cegos congênitos, ver com os olhos de outra pessoa.

Esse trecho não descreve perfeitamente o trabalho do audiodescritor e a importância de estimular a capacidade de evocar (ou até mesmo criar) imagens mentais? Acho que essa é uma das melhores explicações sobre a audiodescrição e sua importância.

A segunda reflexão veio da constatação de Arlene sobre o prazer que seus companheiros de viagem tinham, ao viajar consigo. Nem ela se sentia um fardo e nem eles a viam como tal. Muito pelo contrário: todos ganhavam com a convivência mútua, todos enriqueciam mutuamente os seus mundos, nas palavras dela.

Sua presença, suas perguntas, sua curiosidade estimulavam o olhar, aquele olhar empenhado em ver de verdade, em desvendar, em entender.

Viva a linguagem, “a mais humana das invenções!”

(*) Socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas e consultora na área da Deficiência.

[1] Tradução de Laura Teixeira Motta, São Paulo, Companhia das Letras, 2010. p. 210. Dr. Sacks é médico, com especializações em Neurologia e Psiquiatria; escreveu diversos livros.

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