MIDIACE alerta: a guerra pela audiodescrição não acabou, apenas está começando

Depois do chá de cadeira, audiodescrição de tudo Rodrigo Campos
Felizmente a batalha pela audiodescrição nas tevês chegou ao fim. E o que é melhor, os vencedores foram os deficientes visuais que finalmente terão seus direitos de acesso à informação, cultura e lazer respeitados. É verdade que o percentual de programação audiodescrita está longe de ser o ideal, mas, já é um começo. A guerra, contudo, ainda não terminou. Há ainda muitos louros a serem colhidos e as táticas precisam ser pensadas desde já.

Se, por um lado, temos visto o nascer do cinema nacional audiodescrito, de outro, temos visto que as salas de cinema no Brasil ainda não estão preparadas para disponibilizar o recurso aos deficientes visuais que queiram frequentá-las. Não basta exigirmos que as produções sejam audiodescritas. As salas de cinema também têm de se adaptar. No que diz respeito às salas de cinema cuja transmissão é digital, há pouco tempo atrás, a RAIN (empresa brasileira administradora desse tipo de serviço no Brasil) ao ser contatada pela MIDIACE, disse estar fazendo testes e que, à primeira vista, não haveria grande dificuldade para a implantação do recurso, porque dispunham de canais de áudio extra que poderiam ser usados para a transmissão da audiodescrição. Contudo, esta rede de serviços abrangia apenas os títulos nacionais. Seria necessário se pensar em como disponibilizar o recurso também para os bluckbusters. Nos cinemas convencionais, onde é utilizada a velha e boa película, o recurso ainda é inviável, porque a película tem disponibilidade apenas para um canal de áudio (por isto, a razão de existirem as cópias legendadas e as dubladas). Seria o caso de uma terceira matriz do filme com a audiodescrição? Não, porque, primeiramente, a logística de distribuição dessas cópias seria complicada e sessões só com audiodescrição, não democratizariam o acesso, afinal, o que queremos é uma sala onde todos (pessoas sem deficiência, deficientes auditivos, deficientes visuais, cadeirantes, etc) possam desfrutar da mesma sessão. Este sim é o ideal da inclusão.

Bom, neste mundo onde os avanços tecnológicos andam a passos largos, não estaria na hora de aperfeiçoarem as películas de filme, bem como, os equipamentos utilizados para a sua transmissão a fim de que pudessem comportar as referidas trilhas de áudio num mesmo rolo? Mãos à obra “Cnpquistas”! E mãos à obra também Poder Público. Já está na hora de o Ministério da Cultura e demais entes públicos ligados à produção cinematográfica exigirem que todo filme subsidiado com recursos públicos contemplem a audiodescrição. E hora também de avisarem aos pareceristas do Ministério da Cultura, que se o custo com a audiodescrição (ínfimo, aliás) não estiver no orçamento do filme, que ele seja devolvido a seus proponentes e não seja aprovado enquanto o recurso não vier a ser contemplado.

Existe hoje um projeto inclusivo realizado pela ARPEF, chamado Cinema Nacional Legendado e Audiodescrito, projeto este, que entregou 200 kits contendo 30 filmes nacionais legendados e audiodescritos às instituições ligadas a pessoas com deficiência auditiva e visual. A MIDIACE fez contato com a ARPEF no intuito de adquirir o kit para que pudéssemos realizar sessões na capital e outras cidades do interior de Minas Gerais, no intuito de colaborar para a formação de público. No entanto, não nos foi fornecido o kit sob a alegação de que o projeto prevê algumas contra-partidas, sendo uma delas, o fato de não poder haver exibição pública, segundo rezam os contratos com as distribuidoras e produtoras dos filmes.

No site www.comaudiodescricao.blogspot.com é possível constatar que essas produções tratam-se realmente de natureza restrita, ou seja, os DVDs não são comercializados. Não seria mais fácil as distribuidoras e produtoras de filmes disponibilizarem o recurso no DVD comercial? Assim, qualquer cego, em qualquer lugar do Brasil, poderia alugá-lo numa locadora de filmes, sem que fosse necessário contar com a sorte de que a associação frequentada por ele tenha sido contemplada por este ou aquele projeto. A propósito, é estranho as distribuidoras brasileiras ainda não terem adotado a audiodescrição de forma regular nos DVDs, uma vez que fora do país, a maioria dos bluckbusters já possui o recurso. Para se ter uma idéia, só este ano, já foram audiodescritos nos Estados Unidos os seguintes filmes: Tron O Legado; Enrolados; A Invasão; O Turista; Como Você Sabe; Uma Manhã Gloriosa; Burlesque; Megamente; Atividade Paranormal 2; A Sétima Alma; Secretariat; A Rede Social; Um Jantar para Idiotas.

Se houve o interesse das distribuidoras em audiodescrevê-los lá, por que não haveria o mesmo interesse em vendê-los aqui com o recurso? Afinal, teriam, a mais, um público de, no mínimo, 148 mil pessoas cegas e 2,4 milhões com grande dificuldade de enxergar, dados estes, segundo o Censo do IBGE realizado em 2000, ou seja, hoje o público em potencial seria ainda maior. Faltou alguém avisar para as distribuidoras brasileiras sobre o recurso da audiodescrição e o mercado que ela promete movimentar? Não seria o caso, por exemplo, de, no processo de dublagem do filme, dublarem também a audiodescrição que já existe no original? Uma pesquisa recente realizada pelo Departamento de Mídia e Cultura do Royal National Institute of Blind People, de Londres, publicada em maio deste ano, revelou que, apesar de não poder generalizar os resultados, o intercâmbio de audiodescrições é bem visto, uma vez que pode levar a um aumento de conteúdo de produções audiodescritas. Assim sendo, reforço a idéia de que há ainda muito o que se dialogar com os mais diversos personagens do universo da audiodescrição. A cadeia alimentar da audiodescrição ainda está incompleta aqui no Brasil.

É preciso filme audiodescrito. Então mãos à obra Ministério da Cultura, exija o recurso nos filmes a serem subsidiados pelas leis de incentivo.
É preciso audiodescritor para audiodescrevê-lo. Mãos à obra Ministério do Trabalho, está na hora de regulamentar a profissão.
É preciso cinema para passá-lo. Mãos à obra Iniciativa Privada, o lucro será de vocês. E mãos à obra, também, Poder Público; caso seja necessário a compra de equipamentos importados para se equipar as salas, pensem em diminuir os impostos para os equipamentos que forem necessários.
É preciso público para assisti-lo. Mãos a obra Imprensa de Massa, é necessário a divulgação para haver formação de público.

Enfim, para que isto tudo aconteça, é preciso haver um melhor entrosamento entre todos os envolvidos e está nas mãos do Poder Público orquestrar toda esta evolução. Evolução esta, que aliás, está apenas começando.

A aplicabilidade da audiodescrição vem tomando grandes proporções. O trocadilho é horrível, mas a constatação é verdadeira: a audiodescrição está parecendo chá, tem audiodescrição de tudo enquanto há. Audiodescrição de filme, de programa de tevê, de fotografia, de exposição de museus, de ópera, de espetáculo de dança, de desfile de moda, de partidas esportivas, de jogos de video game, de palestras, de aulas, de catálogo de peças. Já temos audiodescrição até de casamento. Também, depois do chá de cadeira que os deficientes visuais tiveram que tomar.

Fonte: Midiace

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