Sobre dublagem: Octavio Caruso responde a Pablo Villaça

Lendo novamente polêmicas acerca da dublagem, vejo-me na obrigação de tocar novamente neste assunto, esperando que estejamos rumando para uma época em que o respeito seja a palavra de ordem…

Já escrevi um texto sobre este assunto, mas acho interessante (mais que isto, importante) reiterar e propor uma nova compreensão a respeito da dublagem e seus profissionais.

Pessoas públicas ou que falam para um público, deveriam ter a consciência de que são formadores de opinião. Ferramentas modernas como o twitter proporcionam (àqueles que possuem tempo disponível para tal) um campo fértil para declarações polêmicas, pois em poucos caracteres, o simplismo normalmente é a via mais utilizada. Radicalismos como #OdeioDublagem ou #DublagemNAO chamam muita atenção, causando discussões infrutíferas, pois nascem de um argumento frágil e tolo.

Eu fiz um curso de dublagem (com Flávio Baack, ótimo por sinal!) motivado pelo desejo de entender como funciona este trabalho. Saí respeitando ainda mais estes profissionais. Hoje, entendendo melhor os meandros desta profissão, consigo enxergar os maus profissionais, os estúdios picaretas que realizam um trabalho porco (e mais barato!) e as péssimas iniciativas, como (por exemplo) convidar artistas de televisão, sem experiência alguma na área, para encabeçar personagens importantes. Graças a estes erros, forma-se em grande parte da população este preconceito, alimentado vez ou outra por formadores de opinião irresponsáveis, que parecem se nutrir de pequenas polêmicas.

Os idosos, aqueles que não conseguem acompanhar as legendas ou que simplesmente tem preguiça de acompanhá-las, as crianças e aqueles que admiram a dublagem nunca são levados em consideração pelos causadores destas polêmicas. Esquecem que eles próprios (provavelmente) iniciaram seu amor pelo cinema com o auxílio destes profissionais. Parecem não aceitar que para aqueles que não dominam uma língua estrangeira, o conteúdo das legendas (por mais bem trabalhadas que sejam) falham em sintetizar com perfeição o que os atores dizem em cena, escravos dos poucos caracteres. Esquecem também das boas dublagens que conseguem melhorar o original! Você consegue imaginar "ALF" sem a dublagem do genial Orlando Drummond? E o Eddie Murphy de Mário Jorge? O Richard Gere de Ricardo Schnetzer? O Stallone do saudoso André Filho? O eterno Chaves do também saudoso (e insubstituível) Marcelo Gastaldi?

Válido é criticar (duramente) os maus profissionais da dublagem, as distribuidoras que se vendem aos estúdios mais baratos e as dublagens ruins criadas pela junção destes fatores. Mas desrespeitar esta função nobre e o legado de Herbert Richers é prova de ignorância e acima de tudo, deselegância, com profissionais que já sofrem diariamente ataques tolos, desferidos (em grande parte) por "molecotes" (independente da idade) que a mídia irresponsavelmente incensa, formadores de opiniões mal embasadas.

Respeito! Você pode não gostar de comer pizza, mas respeite aqueles que gostam. Você pode não gostar de assistir filmes dublados, mas respeite aqueles que gostam e, mais ainda, os profissionais que dedicam suas vidas a este trabalho. Eu sou fluente em inglês (não costumo ler legendas em filmes desta língua), mas adoro assistir também os filmes dublados, quando são bem dublados, por equipes de alta qualidade. Uma coisa não desmerece a outra, qual a razão de tanto radicalismo? Você pode assistir Tom Cruise no original e depois aplaudir o trabalho de Ricardo Schnetzer, inclusive descobrindo admirado que por muitas vezes, a dublagem fica tão boa ou melhor que o original! Eddie Murphy (por exemplo) eu prefiro assistir na voz de Mário Jorge.

Finalizando gostaria de deixar claro que minha intenção não é "aplaudir" a dublagem como um todo, cegando-me perante os erros cometidos. Não digo que devemos preferir filmes dublados aos filmes no original, apenas que respeitemos esta arte e estes profissionais. Como formador de opinião não posso irresponsavelmente (e infantilmente) "jogar lenha" em uma "fogueira" que já se alastra por vários anos, mas sim informar ao meu público sobre a função e a importância da dublagem.

por Octávio Caruso

Fonte: CINEMA.COM.BR

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