Entrevista de Joana Belarmino

Vice-Coordenadora do Curso de Comunicação Social da UFPB e Doutora em Comunicação e Semiótica, Joana Belarmino é mãe e avó, jornalista, professora, escritora, pesquisadora, e ainda encontra tempo para muitas outras atividades,como por exemplo, utilizar as mais diversas redes sociais. Usuária do Sistema Braille, Joana Belarmino fala, entre outras coisas, sobre acessibilidade, audiodescrição e o projeto cão-guia.

Joana Belarmino

Asdef: Quais são as principais mudanças que escolas e universidades devem fazer para que haja o contínuo desenvolvimento dos alunos com necessidades educativas especiais?

Joana Belarmino: A principal mudança é a interior, que deve acontecer dentro da cabeça de cada um dos gestores, dos educadores. Pensar as pessoas com deficiência como cidadãos. Enfrentar seus próprios preconceitos e destruí-los. Abrir-se para a captação de recursos, com projetos competentes, que possam remover barreiras arquitetônicas, barreiras de acesso à tecnologia.

Asdef: Segundo Paulo Freire, o respeito à autonomia e à dignidade do ser humano é um imperativo ético.Qual a relevância da tolerância e da afetividade na relação professor-aluno e vice-versa, durante o processo de aprendizagem?

Joana Belarmino: Afeto, este nunca fez mal a ninguém. Ser afetuoso com o outro, este é um exercício indispensável na nossa sociedade. Tolerância. Esta deve ser dosada, equilibrada. As diferenças individuais de aprendizagem, de gostos e interesses, essa deve ser considerada. Cada pessoa saberá fazer bem alguma coisa, e esse saber deve ser valorizado no processo.

Asdef: Quais os maiores desafios, na sua opinião, que as pessoas com deficiência visual encontram na atualidade?

Joana Belarmino: Os deficientes visuais têm desafios diversos, dependendo de onde estejam. Nas cidades do interior, a luta ainda é pelos insumos de necessidades primárias, como apetrechos de escrita, aprendizagem do braille. Nas zonas urbanas, os deficientes visuais lutam com desafios de toda ordem. O direito de ir e vir é ameaçado, não há políticas de acessibilidade aos bens e serviços, o que nos faz pensar que o desafio, o maior deles, é ser uma pessoa normal, um cidadão. O deficiente visual, no Brasil, ainda gasta metade do seu dia, talvez até mais, tendo seus direitos desrespeitados, lutando por eles.

Asdef: Então a senhora acha que o Brasil tem avançado pouco em termos de acessibilidade?

Joana Belarmino: Penso que o Brasil possui um dos melhores arcabouços legais para a questão, mas, o seu cumprimento ainda é precário. Por isso os deficientes vivem mais como militantes, do que como cidadãos. Entretanto, sou otimista. O futuro será melhor.

Asdef: Segundo a resolução das Nações Unidas,elaborada na Conferência Mundial de Educação Especial em 1994,na Espanha,as escolas regulares que possuem uma orientação inclusiva constituem os meios mais eficientes de combater práticas discriminatórias. Na sua opinião,que outro aspecto da educação inclusiva é essencial para o exercício da cidadania?

Joana Belarmino: Acesso. Acessibilidade. Ter à mão os mesmos recursos que são dados aos outros estudantes. Ter oportunidades de escolha. Poder usufruir da vasta produção cultural da sociedade contemporânea. É por aí.

Asdef: Na condição de professora, escritora e pesquisadora que faz uso com frequência das mídias sociais, como a senhora avalia a contribuição que os avanços tecnológicos têm proporcionado às pessoas com deficiência visual ?

Joana Belarmino: Os avanços são incalculáveis.É como se tivéssemos ganhado uma espécie de ciber olhar, que nos permite transitar por qualquer zona de conhecimento e de cultura, como quem vê. As tecnologias, sem sombra de dúvidas, minimizam as limitações impostas pela cegueira. Equiparam oportunidades, potencializam nossas possibilidades de interação.

Asdef: Qual a importância da audiodescrição no tocante ao processo de inclusão cultural para as pessoas com deficiência visual?

Joana Belarmino: É fundamental. É como se as pessoas cegas ganhassem uma lente de aumento, e pudessem assistir a um filme, uma exposição, uma visita ao museu, um espetáculo teatral, como quem vê.

Asdef: A Lei Federal 11.126 de 2005 assegura à pessoa com deficiência visual, o direito de circular em ambientes coletivos com um cão-guia, entretanto, muitas vezes esse direito é violado por meio do preconceito, o que a senhora tem a dizer sobre isso?

Joana Belarmino: Vergonhoso. Uma sociedade que rejeita o trabalho colaborativo entre animais e humanos, tem muito de desumanidade em si mesma. O projeto cão-guia, além de ser uma conquista importante para as pessoas cegas, precisa ser abraçado pela sociedade. Lamentavelmente, a ignorância e a truculência de alguns, ainda empana o brilho dessa iniciativa.

Asdef: A senhora está participando de algum projeto que deseja destacar?

Joana Belarmino: Estou pesquisando sobre o ciberativismo das pessoas cegas nas redes sociais.Brevemente divulgarei alguns dos primeiros resultados.

Clique aqui e conheça o "Barrados no Braille", o blog da professora Joana Belarmino.

Anna Karolina Sá para o site da Asdef

Fonte: ASDEF

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