Rock In Rio: decepção para as pessoas com deficiência

Coração batendo a mil na manhã do dia 23/9, ainda mais com a previsão de tempo chuvoso no 1º dia do Rock In Rio. Uma honra curtir com minha filhota de 17 anos esse momento que, há tempos atrás, tinha experimentado.

Deborah Prates no Rock In Rio

Rock In Rio: POR UM MUNDO PIOR PARA TODOS!

Como cega tratei logo de conferir a acessibilidade para que tudo continuasse encantador. Então, foi que tremi nas bases com o que percebi que iríamos enfrentar.

O clima mudou para o de enduro.

Com base na nossa legislação, ante a dificuldade/irregularidade do terren,- foi que tentamos com vários taxistas chegar ao portão do Rock In Rio. Os guardas locais disseram NÃO em quaisquer hipóteses. Desumano, já que o terreno é totalmente irregular para qualquer deficiência. Fingem desconhecer os Organizadores a lição do filósofo Aristóteles que sugere sejam tratados os desiguais na medida de suas desigualdades.

Até o 1º portão tivemos que andar 1,5 km. Sozinha não conseguiria. Pesquisamos no site e ficamos felizes com a existência de um portão especial. Remetia ao último portão do lado esquerdo extremo, tomando-se a entrada principal da Cidade do Rock In Rio. Como saber qual o último portão? Um cego jamais o encontraria!

Ao encontrar o portão principal, perguntamos pelo especial. Claro que eu poderia entrar pelo principal, mas quis o meu! Nem os seguranças, com rádio, souberam informar. Diziam: ACHO que fica lá na frente! Vocês vão andando que, certamente, é para lá!

Perguntei se havia alguém para caminhar com o deficiente até o local. Óbvio que não! O fluxo das pessoas terminou no principal, onde todos entraram. Daí por diante fomos na sorte. Loucura!

Quase desistindo, um novo preposto disse ser "PASSANDO AQUELE VIADUTO"! Que alegria!

Ao entregarmos os ingressos indagamos pelo banheiro mais próximo. Ouvimos: "NEM IMAGINO! ACHO QUE É ALI DEBAIXO DA RODA GIGANTE"! Minha filha foi quem avistou um químico.

O local para lavar às mãos era fora e com um bom degrau. Naquela pia não havia rampa. Talvez em outras!

Ainda com fôlego tentamos chegar ao local que o Rock In Rio destinou aos CADEIRANTES, dando direito a um acompanhante. Absurdo! Será que os outros segmentos não tinham igual direito? Como cega também quis achar esse paraíso!

Mais de dez prepostos não souberam encontrar o setor. Até nos estandes perguntamos e as respostas pareciam combinadas: "VAMOS CHAMAR UM PROMOTOR DO EVENTO". Desistíamos de esperar.

E a festa rolava. Novamente tivemos que vestir a fantasia de "BOBOS DA CORTE"!

Um BOMBEIRO informou que estava no evento desde a sua CONSTRUÇÃO e desconhecia esses locais. Aduziu que vários cadeirantes e deficientes já haviam lhe feito a mesma pergunta. Constrangido, disse que FISICAMENTE esses locais não existiam. MUITO GRAVE A INFORMAÇÃO!

As toneladas de som ecoavam. A galera cantava!

Para minimizar os acidentes geográficos do terreno, rampas revestidas com grama artificial foram feitas sem o menor critério de acessibilidade. Sim. De qualquer maneira!

"EEE, VIDA DE GADO … POVVO MARCADO. POVO FELIZ"!

Algumas permitiam acesso aos cadeirantes, outras nem mesmo para os cegos com suas bengalas! Propaganda feia e enganosa dos DRS. Organizadores do Rock In Rio.

Constatamos total falta de acessibilidade física, de informação/comunicação e atitudinal. Falso é o slogan: "POR UM MUNDO MELHOR PARA TODOS".

Ao invés de alardearem plantio de árvores, deveriam os organizadores do Rock In Rio REFLORESTAREM OS PRÓPRIOS CÉREBROS! Dever-se-ia investir na "SUSTENTABILIDADE HUMANA"!

Bem, no tom: "ME ENGANA QUE EU GOSTO", mais consistente para o Planeta seria repetirmos o antônimo da proposta, qual seja: POR UM MUNDO "PIOR" PARA TODOS! QUERO MEU CÉREBRO VERDE!

Carinhosamente,

DEBORAH PRATES
delegada da CDPD/OAB/RJ

*** REFLITAMOS SOBRE UM PENSAMENTO DE AUTOR DESCONHECIDO: "SOMOS TODOS ANJOS DE UMA ASA SÓ. PRECISAMOS NOS ABRAÇAR PARA PODER VOAR"!

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