Audiodescrição é ferramenta de inclusão, diz especialista da área

Imagine um deficiente visual em uma sessão de cinema ou numa apresentação de ópera tendo sua imaginação, que já é fértil, aguçada pela descrição minuciosa de informações que não estão contidas nos diálogos, como expressões faciais e corporais, aspectos do ambiente, figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço. Sim, isso é possível a partir da audiodescrição, uma nova ferramenta de inclusão para pessoas com deficiência visual.

foto de Flávia Machado

Flávia Machado: estudiosa e militante da audiodescrição

Essas são janelas de inclusão sociocultural abertas pela chamada audiodescrição, área relativamente desenvolvida em países como o Reino Unido, onde mais de 300 salas de cinema e 20% da programação televisiva já contam com os recursos dessa ferramenta. No Brasil, porém, a audiodescrição ainda é incipiente e atinge pequena parcela de uma população estimada em cerca de 24 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência.

Estudiosa do assunto, a jornalista e mestre em televisão digital Flávia de Oliveira Machado ministra palestra nesta quarta-feira, 26, a partir de 18h, no auditório Professor Bicalho, da Fafich, a convite da Comissão de Desenvolvimento Humano e do Centro de Apoio ao Deficiente Visual da UFMG. Antes, nesta terça-feira, ela dará uma oficina a grupo de iniciados no assunto.

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Flávia Machado travou seu primeiro contato com a audiodescrição há três anos, quando elaborava trabalho de conclusão de curso. "Achei fascinante e comecei a pesquisar e a conversar com pessoas que lutam pela audiodescrição no Brasil", revelou ela, por e-mail, ao Portal da UFMG.

A partir daí, fez da área seu objeto de estudo. Em março deste ano defendeu dissertação de mestrado em que compara os estágios da audiodescrição no Brasil e no Reino Unido, e de militância, mantendo, por exemplo, o blog Com Audiodescrição, com informações sobre iniciativas da área, e atuando como audiodescritora voluntária em exposições artísticas e na ópera Lá Bohème.

Confira a entrevista, em que ela discorre sobre o atraso do Brasil na área e as potencialidades inclusivas da audiodescrição em ambientes culturais e educacionais.

Audiodescrição é uma área relativamente recente. Como ela surgiu? Que recursos envolve? A quem se destina?

Podemos considerar que a audiodescrição informal sempre foi feita por quem convive com pessoas com deficiência visual, pois descrevem imagens e situações cotidianas geralmente colocando suas interpretações sobre o conteúdo descrito. Já a audiodescrição formal, tipo de tradução audiovisual para prover acessibilidade comunicacional, começou a ser aplicada e estudada no final da década de 1970 nos Estados Unidos. Foi uma iniciativa do casal Pfanstiehl por meio de projeto de descrição de peças de teatro para espectadores com deficiência visual. No Brasil, consideramos que a audiodescrição foi inaugurada com primeira edição do Festival Assim Vivemos, em 2003.
A audiodescrição consiste na narração descritiva de elementos visuais – cenários, figurinos, expressões faciais, movimentação de personagens etc – que não podem ser percebidos ou compreendidos principalmente por pessoas com deficiência visual e intelectual, dislexia e idosos com baixa acuidade visual.

Já existem peças de teatro, filmes e até óperas traduzidas com recursos da audiodescrição. Como isso é feito? Parece um processo extremamente complexo, que exige profissionais altamente especializados. Como se dá a preparação dessas pessoas no Brasil?

Por falta de salas de cinemas equipadas com sistemas de transmissão e recepção da audiodescrição, a narração é feita ao vivo por meio de equipamentos de tradução simultânea, assim como acontece com as peças de teatro e com as óperas. Antes da narração ao vivo, é preparado um roteiro de audiodescrição, elaborado após estudo do conteúdo a ser audiodescrito. Muitas vezes é necessário acompanhar ensaios e realizar pesquisas sobre o autor/diretor da obra para a produção do roteiro. Por enquanto, há cursos livres para a formação de audiodescritores em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife. Geralmente, os participantes desses cursos são estudantes ou profissionais vindos das áreas de letras, comunicação, artes e pedagogia.

Segundo o IBGE, há cerca de 24 milhões de pessoas com deficiência e que se constituem, em tese, em público-alvo das ações de audiodescrição. Desse universo, que parcela da população já se encontra minimamente coberta por esses recursos?

As pessoas com deficiência visual são o principal público-alvo direto, mas há também aquelas com deficiência intelectual, disléxicos e idosos com baixa acuidade visual que se beneficiam do reforço sonoro de informações visuais, facilitando assim a compreensão de tal conteúdo. Por isso, esse número pode ser muito maior.
Apesar de a oferta de audiodescrição em sessões de cinema, peças de teatro, espetáculos de dança, óperas, exposições artísticas estar aumentando, a maior parte não tem acesso aos benefícios dessa técnica.

E na televisão?

A recente estreia da audiodescrição na televisão digital por meio de canal de áudio opcional pode ampliar esse acesso. Entretanto, ainda é pequeno o número de pessoas que possuem equipamento para a recepção digital, seja pelo alto custo ou pela ausência do sinal digital aberto na maioria das cidades. Considerando que o público com deficiência visual geralmente possui baixo poder aquisitivo, a transmissão da audiodescrição somente pela televisão digital é um fator de limitação. Além disso, há, por enquanto, a obrigatoriedade de somente duas horas por semana de programação com audiodescrição, quantidade que, segundo a regulamentação do Ministério das Comunicações, aumentará para 20 horas semanais até 2020.

Já existem no Brasil experiências que mereçam ser destacadas em universidades, organismos públicos, ONGs e empresas?

O Festival Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência -, produzido pela Lavoro Produções, é um bom exemplo. O evento chegou a sua 5ª edição em 2011 e desde a primeira possui audiodescrição e legenda aberta em todas as sessões.
Também deve-se destacar o trabalho que a audiodescritora Lívia Motta vem fazendo em São Paulo, principalmente, na formação de público para ópera. Desde 2009, já foram 10 óperas audiodescritas no Theatro São Pedro. Na área acadêmica, destaco grupos de pesquisa nas universidades federais de Pernambuco (UFPE) e Bahia (UFBA) e Estadual do Ceará (Uece).

A senhora tem ideia do tamanho do investimento hoje no Brasil em audiodescrição?

Não sei quanto se está investindo em audiodescrição atualmente, mas posso afirmar que o investimento ainda é mínimo. O blog Com Audiodescrição, do qual sou criadora, mapeou a produção de audiodescrição no Brasil. Lá pode-se observar a pequena quantidade de produções, eventos e locais que oferecem audiodescrição em um país tão populoso como o nosso. Estamos conseguindo inserir a audiodescrição em alguns programas de televisão, salas de cinema, DVDs, teatros, museus, mas ainda há uma infinidade de obras, produções e locais para ela ser usada como recurso de acessibilidade. A audiodescrição precisa se disseminar nas salas de aula em livros didáticos e vídeos educativos como medida para efetivação da inclusão escolar. Seu uso também pode beneficiar alunos sem deficiência visual na medida em que amplia o vocabulário ensinado e também trabalha com as habilidades descritivas e de observação dos alunos.

Novas plataformas tecnológicas podem contribuir para difundir os recursos e explorar melhor as pontencialidades da audiodescrição?

Creio que sim, pois permite a ampliação do número de dispositivos capazes de receber a audiodescrição. Esses dispositivos, por exemplo, podem ser conectados ao conversor digital e funcionarem como receptores para que um telespectador ouça em seu fone de ouvido a audiodescrição de um programa, enquanto sua família assiste ao mesmo programa, na mesma sala, mas sem fazer uso do recurso.

O panorama mundial nessa área é melhor do que o do Brasil?

O país em que a área é mais evoluída é o Reino Unido. Além de possuir audiodescrição nos teatros, museus e em mais de 300 salas de cinema, os principais canais de televisão mantêm mais de 20% da programação audiodescrita. Nos Estados Unidos, há audiodescrição no teatro, no cinema, mas apenas este ano foi aprovada a regulamentação que obriga ao menos quatro horas por semana de audiodescrição na programação televisiva. A Espanha possui uma grande produção acadêmica na área e também disponibiliza esse recurso na televisão, teatros, cinemas e óperas. Algo semelhante ocorre na TV da Alemanha. E Portugal tem se destacado com audiodescrição em teatros e museus.

Fonte: Notícias da UFMG

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