Além ou aquém mar, sempre os mesmos problemas

Quando falamos em acessibilidade ao meio físico, produtos, serviços, à cultura e à arte, temos imediatamente a tendência de associar isso à aquisição de material altamente sofisticado, desconhecido do grande público, caro, e por isso, inacessível.

muitas empresas e entidades, Estando convictas que tais investimentos são demasiado avultados para as possibilidades que têm, ficam desencorajadas, e descoram a acessibilidade aos seus produtos e serviços.

Convém no entanto dizer com toda a clareza, que para se garantir a acessibilidade, não temos necessariamente de gastar muito dinheiro. Basta por vezes haver boa vontade, que é tão escassa nos dias de hoje.

Ainda recentemente soubemos que em Itália, ia ser colocada informação em Braille nos corrimões das estações do Metro, indicando o número da linha para onde direccionam os respectivos lanços de escada.

Aqui está uma medida com custos perfeitamente irrisórios, e que vai ajudar muito os cegos, que assim têm a certeza que se estão a dirigir para o local desejado.

Medidas assim como estas, muito baratas, extremamente eficazes, e fáceis de pôr em prática, representam a grande fatia das medidas de acessibilidade que têm vindo a ser sugeridas pelos técnicos ligados à deficiência, e pelos dirigentes associativos.

É inadmissível que elevadores montados recentemente não tenham informação em Braille, e mais grave ainda, é o facto de não ser obrigatório que eles anunciem em voz alta o número do piso em que acabam de parar.

Se tivermos em conta que um elevador custa vários milhares de euros, como se pode aceitar que não sejam gastos pouco mais de uma centena na criação de um dispositivo falante que diga o número do andar que acabou de chegar?

Não tenho dúvida em dizer que esse investimento representava muito menos de 1 % do preço total do equipamento, e se analisarmos a relação custo benefício, não nos podemos esquecer também das pessoas mais idosas que já não têm a mesma equidade visual, e de todos os outros, que mesmo não sendo idosos, também não vêm o suficiente para lerem os dígitos que surgem no painel do elevador.

Só gostavam que fizessem uma ideia do quan importante é para quem não vê saber o piso em que o elevador parou.

Isto para já não falar da colocação de etiquetas em Braille nos botões, que para terem uma ideia poderá custar ao fabricante a módica quantia de 5 Euros. Disse bem, cinco euros!

Creio que neste particular estamos perfeitamente conversados e esclarecidos do escândalo que é não haver legislação e sensibilidade por quem de direito para porem em prática estas duas medidas.

É também escandaloso não haver legislação orientadora no respeitante ao tamanho e tipo de letra nas informações que são afixadas nos locais públicos.

Se houvesse esta sensibilidade por parte do legislador, os concidadãos que têm baixa visão não seriam discriminados por não conseguirem ver as letras minúsculas que muitas vezes são impressas nos placares.

A colocação de barras horizontais em portas de Vidro, é outra medida extremamente barata, e que se reveste de uma grande ajuda para as pessoas com baixa visão, que ao verem o contraste da barra já não batem contra a porta.

A colocação de pisos tácteis nas imediações de escadas e outros locais que ofereçam perigo à mobilidade das pessoas, a colocação de rebordos contrastantes nos orelhões das cabines de telefones, e a extensão do vidro até ao chão para que os cegos não batam contra a cabine, são tudo medidas que têm este denominador comum, que é o baixo custo, e a extrema facilidade de implementação.

Mesmo quando falamos da sociedade tecnológica, é importante salientar de entre muitas outras medidas, as boas práticas na construção de páginas de Internet.

Se os webmasters tiverem em consideração as regras do w3c, e se tiverem também a sensibilidade necessária para valorizarem o conceito de usabilidade num site, vai acontecer que essas páginas para além de serem acessíveis aos utilizadores com deficiência, vão ter os conteúdos bem estruturados, levando a que os restantes cibernautas usufruam de uma navegação muito mais simples e intuitiva, encontrando muito mais facilmente a informação pretendida.

É por isso um caso paradigmático onde se pode juntar o útil ao agradável.

Não posso também de me esquecer da gritante discriminação que somos alvo no acesso aos conteúdos multimédia.

Por um lado, a áudio descrição quase não existe. É inadmissível que a produção de um filme fique por milhares de euros, e não se distenda de meia dúzia de tostões para garantir que os cegos também possam viver o filme.

No meu ponto de vista, deveria ser obrigatório que todos os filmes produzidos em Portugal viessem com áudio descrição.

Quando o produto fosse adquirido via DVD, viria com uma opção no menu do filme que seria activada pelo utilizador. Isso não afectava aqueles que querem ver o filme e não precisam deste recurso.

Já no que respeita ao cinema, não é nada dispendioso equipar algumas cadeiras de salas de cinema com equipamento, que permitam que os espectadores possam ouvir a áudio descrição através de uns auscultadores.

Aliás, a Lusomundo já lançou algumas edições de filmes com áudio descrição incorporada, e acreditem que para mim foi emocionante assistir numa sala de cinema a um filme com áudio descrição.

Finalmente, temos o caso revoltante das legendas que surgem num programa informativo, numa reportagem, ou num documentário emitido na TV, quando é preciso traduzir as palavras de um interveniente que fale outro idioma que não o nosso.

Pois bem, já à muito que reivindicamos que essas legendas deveriam ser lidas em voz alta. Era da mais elementar justiça, e da mesma forma que as pessoas com boa equidade visual podem ficar a saber o que diz o interveniente através da leitura das legendas, devia ser possível a quem não as conseguisse ler, poder ouvi-las.

Mesmo assim, todos os canais televisivos em Portugal têm sido completamente insensíveis à nossa mais que justa pretensão, utilizando argumentos perfeitamente inqualificáveis, como por exemplo o de não poderem ter um voz off a sobreporem-se à pessoa que está a usar da palavra, como se não fosse mais importante garantir que toda a gente ficava a conhecer a mensagem desse protagonista, do que ouvir a sua própria voz.

Também chegaram a apresentar como desculpa questões financeiras, mas quando perceberam que o que podia ficar mais caro era traduzir as legendas, mas que esse trabalho já estava feito, deixaram cair essa justificação.

É um caso escandaloso de má vontade, e de uma política altamente discriminatória para as pessoas com dificuldades na visão.

Reparem que aquilo que eu preconizo neste artigo é a implementação de medidas extremamente baratas. É triste verificar que nem essas são postas em prática, e mais dramático ainda é perceber que no fundo aquilo que nós queremos é usufruir das mesmas condições de acesso ao meio físico, produtos, bens, serviços, à cultura e à arte.

Não posso deixar de terminar este artigo sem resumir aquilo que penso nesta frase.

Já que não se faz o impossível, faça-se ao menos o possível! Está bem?

Um abraço acessível e fraterno para todos.

por Filipe Azevedo.

Fonte: blog de Filipe Canelas

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