Grupo X investe no improviso e no acolhimento das diferenças

Trabalho desenvolvido pelo grupo visa explorar a criação coreográfica com cantores, dançarinos, atores e artistas especiais nas múltiplas linguagens de performance.

Por Adriana Santana*

asantana.cultura@gmail.com

Tratar de questões ligadas à acessibilidade e apresentar uma produção artística em torno de processos colaborativos em improvisação, estes são os objetivos do Grupo X de Improvisação em Dança. O coletivo é parte integrante das ações do Grupo de Pesquisa Poética da Diferença, vinculado ao Programa de Pós-Graduação da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (PPGDança/Ufba). O trabalho desenvolvido visa explorar a criação coreográfica com cantores, dançarinos, atores e artistas especiais nas múltiplas linguagens de performance.

O Grupo X de Improvisação em Dança foi fundado em 1998 através de trabalhos de extensão de professores da Escola de Dança. Hoje, o grupo é formado pela professora Fátima Daltro (PPGDança/Ufba), que assume a direção artística, e Ricardo Bordini, professor da Escola de Música (PPGMus/Ufba); pelos mestres em dança (PPGDança/Ufba) Hugo Leonardo e Iara Cerqueira; pelo arteterapeuta e dançarino Eduardo Oliveira; pelo vídeo maker, Victor Venas; pela professora licenciada em dança Viviane Fontoura e por estudantes de graduação e de pós-graduação da Ufba.

O Grupo de Pesquisa Poética da Diferença se insere nas políticas de atenção às pessoas com deficiência e referencia seu trabalho na compreensão do corpo como resultado transitório das suas relações com o meio ("corpomídia"), apto a construir conhecimentos e dialogar com os acontecimentos do mundo). "Refletimos sobre as capacidades que cada corpo apresenta, suas singularidades e competências, nos distanciando da ideia comum e hegemônica do corpo ideal para dança, de que o corpo dessas pessoas são improdutivos e inoperantes", afirma Fátima Daltro.

O dançarino, cadeirante e membro do Grupo X de Improvisação em Dança desde 1999, Eduardo Oliveira, diz que "foi no trabalho com este grupo que realmente me profissionalizei e desenvolvi o meu potencial criador. Somos um grupo onde pensamos em tudo: coreografia, cenário, figurino, produção, divulgação, escrita de projetos. Com isso temos uma visão muito ampla de todas as etapas do processo criativo, o que eu pude levar para minhas criações fora do Grupo X. Mesmo nos meus trabalhos independentes, há um traço inevitável da estética do grupo". Ele diz que considera como traço mais importante no trabalho do grupo "“a riqueza de possibilidades que são trabalhadas, o acolhimento das diferenças de forma natural, porque é assim mesmo. E isso é uma coisa que levamos para a vida, favorecendo a autonomia, aumento da auto-estima, senso de responsabilidade e também o senso estético".

Intercâmbios

O Grupo X de Improvisação em Dança viajou para Portugal em 2004 para apresentar o espetáculo "O Canto de Cada Um". O grupo vem realizando ainda, entre 2004 e 2011, o projeto "Euphorico", em parceria com o grupo francês Cia Artmacadam. O projeto de intercâmbio é realizado a cada ano alternadamente no Brasil, em Salvador, e na França, na cidade de La Seyne-sur-Mer, com o objetivo de promover trocas culturais e ampliar o campo de ação dos artistas envolvidos no âmbito internacional.

As ações do projeto Euphorico oferecem oficinas, apresentações, ensaios abertos, performances em espaços urbanos e bate-papos, realizadas durante o período de quinze dias consecutivos. "Cada ano e cada projeto é diferente um do outro, mas tendo sempre a improvisação como ponto principal", reconhece Eduardo Oliveira.

A edição deste ano, a oitava versão do projeto, foi realizada em Salvador, sob o título "Euphorico: Je t’aime". "Realizamos um estudo investigativo relacionado às relações afetivas, aos encontros, às distâncias, às aproximações e ausências, os je t’aime que cada um traz no corpo", sintetiza Fátima Daltro. As três oficinas de criação em dança realizadas no Espaço Xisto contaram com a participação de quarenta inscrições, entre professores, estudantes da Escola de Dança e comunidade externa.

Segundo Eduardo Oliveira, o grupo tem sido bem recebido por onde passa. "A receptividade sempre é muito boa, o público é acolhedor, atento e curioso sobre o nosso trabalho, sobre a dança no Brasil", afirma o dançarino. "Os apoios, como aqui no Brasil são difíceis, porém não são inviáveis, há um espaço de acolhimento e de reverberação neste ambiente que o torna acessível", acrescenta Fátima Daltro.

Relação com a comunidade

O Grupo X desenvolve oficinas de improvisação destinadas ao público interno e externo à universidade, incluindo estudantes de graduação e mestrado e pessoas com deficiência atendidas pelo Instituto Bahiano de Reabilitação (IBR), Centro de Prevenção e Reabilitação do Portador de Deficiência (CEPRED) e Instituto Pestalozzi da Bahia.

As oficinas são realizadas às sextas-feiras, de 13h30 às 15h, seguidas pelo ensaio do Grupo X, que acontece de 15h as 18h. Fátima Daltro aponta que as oficinas visam valorizar os talentos e potencialidades específicas de cada corpo-sujeito e não se pautam em formas discriminatórias de assistencialismo. "Em relação às pessoas encaminhadas pelas instituições, as ações do projeto se voltam para propor oficinas de dança que buscam situá-los no mundo atual, oferecendo possibilidades de construírem conhecimentos em dança a partir de seus interesses e desejos, estimulando-os a construírem diálogos com os mundos que se lhe apresentam", acrescenta.

Encontro Inclusivo de Dança

De 25 a 27 de novembro, o Grupo de Pesquisa Poética da Diferença promoverá o 2º Encontro O Que é Isso? de Dança, do qual o Grupo X de Improvisação em Dança será integrante. Na ocasião, o grupo apresentará o espetáculo "Pequetitas coisas entre nós mesmos", que conta com audiodescrição de imagens de dança para pessoas com deficiência visual. Não é a primeira vez que o grupo desenvolve um trabalho com audiodescrição. O projeto "Os 3 Audíveis – Ana, Judite e Priscila", executado entre 2008 e 2010, foi pioneiro na utilização da técnica.

"Pequetitas coisas entre nós mesmos" foi criado quando Fátima Daltro estava em Estágio Pós-Doutoral na Escola de Belas Artes da Universidade de Barcelona, na Espanha, portanto, "ele reflete experiências das ausências e saudades no corpo e modos de organizações necessários para enfrentar essa tensão", afirma Fátima.

O 2º Encontro O Que é Isso? de Dança pretende discutir questões referentes à invisibilidade e representatividade midiática de grupos profissionais de dança com pessoas com deficiência. As discussões se voltarão para a acessibilidade, profissionalização e inserção no mercado de trabalho destes artistas. A programação é composta por oficinas, debates, performances e apresentações artísticas.

O evento conta com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Dança (PPGDança/Ufba) e do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult/BA), através do Edital Demanda Espontânea.

Serviço

O que: 2º Encontro O Que é Isso? de Dança

Quando: 25, 26 e 27 de novembro, das 9h às 20h

Onde: Espaço Xisto Bahia, Biblioteca Pública do Estado da Bahia, Barris

Quanto: R$ 40,00 (profissionais) R$ 20,00 (estudantes)

Realização: Grupo de Pesquisa Poética da Diferença (PPGDança/Ufba)

Com informações do Grupo Improvisação, Monólogos da Madrugada e Encontro de Dança Inclusiva.

*Estudante de Produção Cultural da Faculdade de Comunicação da Ufba – Facom

Fonte: Ciência e Cultura

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