Cego assiste filme?

Quando fiquei cego em decorrência de uma série de fatores sobre os quais um dia escreverei aqui, tinha 22 anos e assistia uma média de cinco filmes por semana. Já foi bem mais. Quando tinha 17, trabalhei em uma vídeo-locadora aqui perto de casa, e naquela época assistia dois ou três por dia. Nunca quis ter blog de cinema, mas era muito bom com mímica de filmes, o que não é exatamente motivo de orgulho para ninguém.

O fato é que, uma vez ficando cego, a coisa se complicou, sobretudo na hora de entender o que está acontecendo em certas cenas. Na maioria dos casos, o som do ambiente denuncia o cenário da conversa, e identificar pessoas pela voz é algo que, como cego, você realmente precisa aprender muito rápido. O problema eram, e em boa escala continuam sendo, os malditos "movie clips", trechos do filme ou episódio de série onde todo o áudio é substituído por música e a imagem apresenta uma seqüência de cortes que contam visualmente parte da história. Pois é, visualmente. Isso me obrigou e ainda obriga em vários momentos a recorrer aos amigos ou ao Google para saber exatamente o que aconteceu em uma cena sem diálogos. Recentemente precisei recorrer ao verbete da Wikipedia em inglês para saber o que houve no final da segunda temporada de Battlestar Galactica, uma de minhas séries favoritas. Mas isso já está mudando, e tem mais cegos assistindo filme hoje do que vocês imaginam.

Um deles é o Tommy Edison, o Blind Film Critic (http://blindfilmcritic.com”/) que até onde eu saiba não tem grau de parentesco com o suposto inventor da lâmpada elétrica. Esse maluco mora em Connecticut, nasceu cego e trabalhou uns vinte anos com rádio antes de decidir virar crítico de cinema. Mais precisamente, antes de se tornar o primeiro crítico de cinema especializado no público deficiente visual.

Então, como vocês devem estar imaginando, ele não vai avaliar aspectos como fotografia, figurino e iluminação – o que eu garanto que dá outra leitura para o TIm Burton – mas sim os diálogos, a história, a sonoplastia e, principalmente, as atuações. Suas críticas são bem humoradas, criteriosas e ironicamente acessíveis para pessoas que enxergam. Na crítica de Pânico 4, por exemplo, ele diz: "tenho certeza de que as pessoas que enxergam vão gostar, mas vocês cegos fiquem em casa nesse fim de semana". Ele tem um canal no Youtube, onde você acompanha as resenhas não só de filmes, mas também de outros eventos como quando o maluco foi visitar a Comic Com de Nova York.

Tommy Edison normalmente faz resenhas de filmes com áudio normal, igual ao que você assiste. Já existem pelo mundo, no entanto, muitas produtoras oferecendo material acessível para cinema e principalmente home vídeo. São as audiodescrições, uma forma muito legal para que eu possa assistir aos malditos "movie clips" de House e Six Feet Under sem ajuda de ninguém. Trata-se de uma faixa de áudio alternativa, um canal SAP onde o áudio ganha uma adição preciosa: um dublador profissional que, entre as falas e sempre no espaço em que nada é dito no filme, descreve o que está acontecendo. Urra! Demorou, hein galera? Bom, por aqui continua demorando, já que isso só acontece na TV Digital e ainda assim só com uma parcela mínima da programação. Se tiver uma TV Digital e quiser ouvir como é, coloque no SBT na hora do Chaves – eis a beleza de um programa sólido, que posso citar sem medo porque sei que nunca vai sair da programação – e vá mudando as faixas de áudio no controle remoto. Uma hora você vai ouvir alguém explicando que o senhor Barriga vinha entrando pelo pátio quando o Chaves o acertou com uma vassourada.

Finalmente, queria só voltar a falar, muito rápido, sobre a NetFlix Brasil, a quem já dediquei um artigo lá na primeira semana deste blog. Faltou dizer duas coisas. Primeiro, se você é cego e usuário especificamente do leitor de tela JAWS da Freedom Scientific, então o player é acessível, ainda que possa melhorar. Então o que eu disse sobre penar para usar os controles fica relativo, caso você tenha acesso ao leitor de tela mais miserável e desumanamente caro do mundo. Segundo, que para quem é cego, a NetFlix é um ótimo negócio, porque a qualidade deles só é ruim para vídeo, tendo um áudio perfeito e, em boa parte dos casos, com dublagem em português que facilita muito para quem não está com a língua de Shakespeare em dia.

É isso, meninada, agora vocês sabem que aquele maluco de bengala que volta e meia ta lá no cinema não é necessariamente tão maluco assim. Claro que no Brasil isso é um passatempo caro, onde uma sessão com pipoca e Coca-Cola não sai por menos de 25 reais, mas Isso, somado à qualidade cada vez menor dos filmes e cada vez maior das séries nos últimos – digamos – dez anos, me levou do cinema para a vídeo-locadora.

por Victor Hugo Cruz Caparica.

Fonte: Cego Em Tiroteio

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