Exposição: Este Lugar É A Minha Cara

Para pessoas cegas ou com baixa visão entrarem em contato com imagens e compreender o que estão vendo, seja no cinema, no teatro, na televisão, ou até mesmo em uma exposição, é necessário o uso da audiodescrição (AD). O recurso torna acessível, através da narração, qualquer produto cultural em que as imagens sejam relevantes para o entendimento e a interação. Com base nisso, um grupo de audiodescritores ligado à Mil Palavras Acessibilidade Cultural (empresa que atua na área) realiza uma ação que torna a exposição fotográfica Este lugar é a minha cara, da artista Carmem Gamba, compreensível. A atividade ocorre hoje, às 18h, no Largo Glênio Peres, próximo ao Chalé da Praça XV.

Exposição: Este Lugar É A Minha Cara
Descrição da foto: pessoa caminhando por uma calçada onde estão expostos vários quadros

A influência da cultura na vida e na formação das pessoas é inegável. O artigo XXII da Declaração Universal dos Direitos Humanos garante o direito à cultura. No entanto, na prática, não são poucas as pessoas que ficam à margem dela no País. Dados preliminares do Censo 2010 revelam que mais de 45 milhões de brasileiros têm alguma deficiência sensorial, motora ou intelectual, quase um quarto da população do País. Desses, 35,8 milhões declaram-se com algum grau de deficiência visual.

A idealizadora da ação, Mimi Aragón, explica que o ato consiste em dois objetivos principais: apresentar a AD aos deficientes visuais, já que muitos desconhecem este recurso; e ainda mostrá-la às pessoas sem deficiência, para que se interessem pelo assunto – tanto que no local acontece a distribuição de vendas para terem a mesma experiência de quem não enxerga. "A artista se preocupou em retratar pessoas que circulam pelo Centro da Capital e, utilizando a AD, estamos de certa forma revelando para o deficiente visual quem são as pessoas que compõem o bairro", conta.

Marilena Assis, professora com formação em Letras, mora no Centro. Aos poucos, foi perdendo a pouca visão que possuía e, atualmente, é cega. Para ela, aos 50 anos, o recurso é fundamental: "Eu tenho uma memória visual muito antiga, a AD me atualiza de novos conceitos. Dessa forma, posso compreender e discutir filmes e exposições, por exemplo, com mais apropriação".

A audiodescrição sempre aconteceu informalmente, graças à sensibilidade e boa vontade de algumas pessoas que, ao acompanhar um deficiente visual em eventos, buscavam descrever o que estava vendo. Formalmente, a profissão de audiodescritores começou nos anos 1980 nos Estados Unidos e Inglaterra. No Brasil, o primeiro filme em circuito comercial com o recurso foi Irmãos de fé, de Padre Marcelo, lançado em 2005. Outras iniciativas têm sido feitas em Porto Alegre, como o Clube do Silêncio, que produziu alguns curtas-metragens com a narração, além de programações no Santander Cultural.

Letícia Schwartz, publicitária, integrante do grupo que realiza a ação e sócia da Mil Palavras Acessibilidade Cultural, argumenta que, em termos de mercado, a AD vem crescendo, principalmente depois que entrou em vigor a Portaria MC nº 188/2010, que regulamentou a entrada da veiculação de AD na programação das emissoras de tevê aberta com sinal digital, em 1º de julho de 2011, concedendo duas horas por semana de programação com AD.

Ela explica ainda que o recurso obedece algumas etapas, como a realização de um novo roteiro, a narração, a inserção da técnica de áudio no tempo certo, e por fim, a avaliação dos consultores – que são pessoas com deficiência visual. "É necessário popularizar este método. A cultura e o entretenimento são o que te torna parte efetiva de uma sociedade, enquanto tu não compartilhas desta cultura tu vai estar à margem", defende a especialista, que também tem formação como atriz.

Para Felipe Leão Mianes, a AD proporcionou uma das experiências mais impressionantes. "Eu assisti a uma apresentação do grupo Tholl, que é 99% visual, e consegui ter a mesma emoção ao mesmo momento em que todo mundo, coisa que se tivesse alguém ao lado só falando, e não um profissional, não aconteceria", relata. Mianes é especialista no assunto na prática e na teoria. Ele é estudante de doutorado em Educação da Ufrgs. Em sua tese, ele pesquisa sobre as produções artísticas de pessoas com deficiência visual focadas em outras na mesma situação. "Eu encontro coisas relacionadas, principalmente à literatura e ao cinema. Há muitos livros, por exemplo, sendo editados para pessoas com deficiência visual, seja em braile ou em audiolivro. Mas desconheço AD em espetáculos somente de dança, como balé. Enfim, o recurso permite um acesso à cultura e à formação de um senso estético".

Fonte: Jornal do Comércio

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