A inclusão social é possível, lutemos por ela

Há muito a compartilhar do complexo universo de experiências humanas que permeia a condição de pessoa com deficiência. Um manancial de vivências cotidianas que se dão através da interação com as pessoas que nos cercam, com as instituições, com as coisas da vida, ou detectadas pela introspecção na dinâmica do próprio pensar, refletir, sentir e existir. Capítulos seguidos na cronologia do tempo que não para, e observados através da perspectiva de milhões de brasileiros que reivindicam simplesmente as mesmas oportunidades conferidas aos demais cidadãos e cidadãs sem deficiência. Coisas aparentemente óbvias, simples, viáveis, mas, frequentemente, inobservadas pela falta de sensibilidade da maioria das pessoas detentoras de algum prestígio político, social ou institucional.

Algo, por exemplo, como parar para imaginar o significado do sistemático e desafiante exercício diário que fazem pessoas com seqüela neurológica de grande proporção e/ou substantiva mobilidade reduzida para se controlar, equilibrar, compreender, assimilar e assumir, que parte das suas rotinas diárias envolverão, inevitavelmente, a disponibilidade, boa vontade, consciência e solicitude de outras pessoas. Situações amenizadas para pessoas com maior independência físico-funcional e/ou econômico-financeira, mas, aparentemente inalcançáveis em determinadas ocasiões para outros mais dependentes do ponto de vista físico-funcional, ou com menor poder aquisitivo.

Atentar para o exaustivo desgaste físico, mental e emocional de milhares de crianças com lesão cerebral que enfrentam condições adversas de acessibilidade para freqüentar aulas nas escolas regulares ou especiais, ser atendidas com dignidade nas unidades de saúde, participar de eventos culturais, etc. Desgastes que se projetam no corpo de suas mães, as quais, por esforço repetitivo, desenvolvem severos problemas articulares e funcionais de coluna. Com problemas de coluna e sendo as mães dessas pessoas suas fiéis escudeiras, cuidadoras 24 horas por dia, quem as substituirão, caso impossibilitadas de fazê-lo?

Se, por um lado, pode-se pagar pelo serviço de terceiros, cuidadores ou pessoas significativas, é preciso reconhecer que todos temos compassos singulares para a divisão e compartilhamento do tempo na vida. Ritmos individuais, necessidades pessoais. Por isso, nossa relação com aqueles que compartilham o tempo, espaço e as próprias vidas conosco precisa ser pautada na empatia, procurando nos colocar no lugar deles, para perceber que todos somos possuidores de qualidades, dificuldades, limitações. O exercício do ego no sentido de cultivar respeito e harmonia nas relações que estabelecemos com outros é o desafio fundamental a ser conquistado no dia a dia.

Quando não se pode pagar quem nos acompanhe ou nos preste cuidados, a convivência pode se tornar bem mais difícil, exceto alguns casos em que o papel de cuidador é exercido pela mãe, pai e demais membros da família. Contudo, há registros, e não são raros, de familiares que humilham, espancam, negligenciam atenção, cuidados básicos, toda sorte de maus tratos sem que a vitima os denuncie por temer represálias no convívio cotidiano com os agressores. Esses vivem em verdadeiros cárceres domiciliares.

Não há como fugir da realidade cotidiana que nos impõe regras comportamentais muitas vezes além da capacidade humana comum. Não fosse a condição de dependente funcional, por exemplo, ninguém se permitiria ser ignorado em ponto de ônibus; ficar impossibilitado de sair às ruas sem se indignar com as condições de preservação/manutenção das calçadas; ser preterido em vaga de trabalho por candidato menos qualificado, porém bípede, ouvinte, ou com demais características que os diferenciam das pessoas sem deficiência.

Da mesma forma inadmissível tolerar o aviltante desrespeito imposto aos consumidores cegos, surdos, que adquirem bens de consumo e pagam os mesmos impostos pagos pelas demais pessoas, e levam para suas casas aparelhos de TV sem a garantia de desfrutar dos recursos seminais, como audiodescrição e/ou intérprete de Libras, na grade de programação das emissoras, embora estes sejam preceitos institucionalmente assegurados pela letárgica legislação brasileira.

Enfrentar a realidade das nossas inacessíveis instituições de ensino, desde as dificuldades que a criança surda tem de superar para acompanhar as demais no ensino que se intitula inclusivo, porém, não disponibilizam intérpretes de Libras para atuar junto aos estudantes surdos prestando-lhes apoio interpretativo nas classes regulares e reforço escolar complementar ao aprendizado em programações extra-turno. Pensar que milhares de crianças cegas ficam excluídas e sem a menor condição de acompanhar o rendimento das demais sem deficiência, pelo fato de não haver na maioria das nossas instituições de ensino de nível fundamental e médio, profissionais instrutores de Braile e equipamentos para este fim específico.

Conviver diariamente com manchetes de jornais, televisão e demais meios de comunicação que denunciam descasos de muitas das nossas instituições de ensino superior dos setores público e privado quanto ao descumprimento dos princípios de acessibilidade assegurados pela nossa legislação, tornando as atividades acadêmicas elencadas nos programas dos diversos cursos de graduação e pós-graduação, de estimulantes e prazerosas oportunidades de ampliação intelectiva a grandes martírios para estudantes com algum tipo de deficiência.

Recentes determinações legais dispõem sobre recursos para ampliação do número de salas de aulas com recursos multifuncionais, mas por falta de critérios para instalação das mesmas corre-se risco de não partir de consultas públicas aos órgãos e associações comunitárias, nem mesmo que sejam respeitadas orientações dos conselhos municipais de direitos das pessoas com deficiência, acabando como muitas outras vagas promessas políticas e o Erário esvaindo-se ralo abaixo. Sem atentar para os diagnósticos e recomendações elaboradas pelas legítimas representações sociais do segmento, recursos oficiais serão desperdiçados no vácuo da inoperância de milhares de gestores públicos, Brasil afora.

Identificar a falta de estrutura das nossas unidades de saúde, em todos os níveis de atendimentos, frequentemente, inacessíveis no ponto de vista arquitetônico, seja em suas áreas internas, seja em seus entornos. Ainda são inauguradas em nossos mais de 5.000 municípios, com pompa e circunstância política, algumas milhares de unidades de saúde sem contemplar fundamentais preceitos de acessibilidade dispostos na NBR 9050/2004. Pasmar-se diante da maldosa e perpetuada ausência de profissionais habilitados para a comunicação não-verbal, nos diversos setores das nossas unidades de saúde, para interagir adequadamente com surdos e lhes prestar cuidados e assistência digna.

Buscar controle interno para não se indispor diante de “imprevistos” ao sair de casa para programa de lazer e se deparar com a constatação de que o elevador plataforma está em manutenção, no caso de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Assistir uma sessão de cinema sem audiodescrição, na qual o cego fica prejudicado na interpretação da totalidade da obra, ou o surdo perdido em peças sem legendas. Ainda que os surdos possam se valer da legenda para acompanhar o que os atores conversam, há que se levar em conta que o português não é sua primeira língua. Eles precisam de que lhes seja disponibilizadas janelas com recurso através de tradução simultânea em Libras.

Enfim, como pontuado no início, há muito caminho a galgar para alcançarmos patamares mais elevados em termos de inclusão social, e sermos respeitados como cidadãos normais com características diferentes, como todas as outras pessoas. Estar na vida, vivo, já nos credencia direito de reivindicar igualdade. Não há tempo a perder. Afinal, é nosso direito e constitucional. Acreditemos, lutemos por ela, pois é possível.

Prof. Dr. Wiliam César Alves Machado
Secretário do Idoso e da Pessoa com Deficiência de Três Rios/RJ

Fonte: Rede SACI

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