Audiodescrição virtual – opinião de um escritor

Vivemos uma era de excessos que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. Capturamos cardumes de amizades nas redes sociais, mas amigos virtuais não costumam oferecer ombros amáveis para chorar as mágoas nem braços para nos amparar. Carregamos nos bolsos pequenos dispositivos que armazenam mais músicas do que aquelas que somos capazes de escutar, mas o som primoroso que a agulha bordava nos sulcos do vinil, como diria o corvo: nunca mais. Nossos aparelhos de televisão recebem o sinal de centenas de canais e o supervalorizado polegar opositor, que já nos colocou no topo da escala evolutiva, foi condenado a zapear eternamente à procura de algum programa que mereça atenção. Almoçamos diariamente em bufês livres onde a promiscuidade de sabores e aromas entorpece o olfato e o paladar. O baixo custo do cinema digital traz à tona mais joio do que trigo, revelando alguns realizadores que valeria a pena continuar a ignorar. Proliferam os blogues literários onde é possível garimpar pouquíssimos diamantes, outras pedras preciosas ainda por lapidar e muita pedra bruta no meio do caminho, daquelas que fariam jus a outra modalidade de lapidação. Temos fácil acesso a tanta informação que chegamos a confundi-la com conhecimento, esquecendo que o conhecimento exige a seleção, a filtragem e a elaboração da informação através de um processo que não é raro que exija a mediação de um orientador, um mestre, um professor.

É neste confuso e desordenado panorama de profusão de ofertas sem maiores cuidados com a qualidade do produto final, que se encaixa perfeitamente a iniciativa de fazer audiodescrição com voz sintetizada, a chamada audiodescrição virtual.

A leitura de textos descritivos com voz sintetizada é um recurso de uso comum e bem aceito quando se trata de traduzir, por exemplo, os elementos visuais de um convite, o logo de um blogue ou as fotografias de um site de notícias. Porém, quando o objetivo é o de incorporar a audiodescrição a um produto artístico, existem outros fatores que devem ser levados em consideração. A intenção dos defensores da aplicação da audiodescrição virtual a um imenso acervo disponível de vídeos não acessíveis é louvável, o resultado é que deixa a desejar. A proposta de convocar o potencial voluntariado da comunidade virtual na elaboração dos roteiros de audiodescrição das videoproduções não acessíveis é de um profundo conteúdo solidário e social, mas a leitura desses textos através da síntese de voz compromete seriamente a qualidade do produto final, conforme pode ser comprovado nos exemplos já disponíveis na rede.

A audiodescrição se sustenta, na prática, em três pilares fundamentais: roteiro, narração e gravação. Todas essas três fases exigem a participação de profissionais formados e informados, experientes e capacitados. Quando se trata de um produto artístico, então, é imprescindível acrescentar outro ingrediente que máquina nenhuma, ao menos por enquanto, consegue reproduzir: a sensibilidade. Ainda que se aposte na qualidade dos roteiros eventualmente elaborados pelos voluntários da enorme e diversificada comunidade virtual, condição que é impossível garantir, não há meio de exigir da voz sintetizada o desempenho cuidadoso e sensível que só a voz humana conseguiria oferecer.

Apesar do positivo aumento de demanda e do trajeto já percorrido por seus precursores, ainda estamos engatinhando no trecho inicial da história da audiodescrição no Brasil. Nesta fase, que é de implantação e consolidação, os esforços devem ser concentrados na formação de público, cativar as plateias, fazer com que a pessoa com deficiência visual reconheça, através da experimentação do recurso, uma necessidade que nem sonhava ter. Todo cuidado é pouco e um mínimo deslize na qualidade do produto oferecido pode afugentar para sempre aqueles que tentamos atrair.

Qual seria a meta que a audiodescrição de produtos artísticos deveria perseguir? Talvez a integração tão íntima e perfeita do recurso com a obra que, após a exibição, o público com deficiência visual comentasse o teor, o conteúdo, o desempenho dos atores, as opções do diretor, a intenção do espetáculo e não a audiodescrição. Não é da mão de robóticos Eusébios, Felipes, Raquéis ou Fernandas* que chegaremos lá.

* Referência a diversos programas de síntese de voz.

Jorge Rein

Fonte: Mil Palavras

Nota do Blog: nosso total, completo, irrestrito e incondicional apoio ao que diz Jorge Rein.

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