As crianças e a audiodescrição

Rafaela tem 11 anos. É magrinha, morena de cabelos encaracolados, curiosa e falante. Mora em Osasco e, sempre que sobra algum dinheiro, vem de ônibus com a mãe a alguma sessão gratuita de cinema com audiodescrição ou a uma das grandes livrarias de São Paulo escolher um desses livros infanto-juvenis escritos em série (agora cada história tem vários volumes, não acaba nunca, o que será que aconteceu com o bom e velho livro único e clássico?). Já é a terceira vez que encontro as duas, uma do lado da outra, cada qual sentada em uma poltrona, Rafaela com as pernas esticadas, bengala no chão, e a mãe lendo trechos de livros para a filha escolher. No final, saem para procurar alguma coisa entre as poucas opções em audiolivros.

crianças felizes

Já sobre o Diego eu só ouvi falar. Foi o ano passado, no SESI, em uma sexta-feira, primeiro dia da apresentação do Festival Internacional de Bonecos – as outras apresentações aconteceram no Parque do Ibirapuera. À noite, minutos antes do último espetáculo, já não havia nenhuma pessoa com deficiência visual e a equipe já estava indo embora quando chegou o Diego. Cinco anos de idade, esperto, ansioso para conhecer os bonecos sobre os quais ele tanto havia ouvido falar. Ficou todo orgulhoso quando soube que a sessão seria só pra ele. Com os fones de ouvido, sorria, batia palmas, às vezes pulava na cadeira de tanta alegria. Depois da sessão, foi até o palco para conhecer de perto os bonecos. Pegava em cada um deles e contava a história gritando, feliz: "Olha, mãe, esse aqui! Ele deu cambalhota e andou de ponta cabeça na bicicleta, ele tem nariz comprido e roupa dourada, que brilha!".

Com os Smurfs foi a mesma coisa, no Shopping Frei Caneca: depois do filme com audiodescrição, as crianças puderam pegar um deles, de pelúcia, para conseguir entender melhor o que são essas criaturas azuis. E no filme Operação Presente, produção americana de primeira, em 3D, também no Frei Caneca, tinha uma menininha de uns nove anos na fila de trás que eu não esqueço. Muito bonita, alegre e extrovertida, acompanhava o pai, cego. Não sei seu nome, mas a dupla é conhecida no meio. Antes da sessão, ouvimos os dois conversando, tanta risada, tanto afeto E, quando acabou, lá estava ela, falando de novo: "A luz acendeu, pai. Tá todo mundo levantando e indo pra porta. Tá cheio e tem bastante criança da minha idade. Como chama essa caixa onde tava o cara que fez a audiodescrição? Do lado, tem uns adultos parados conversando, sabe aquele cara que você tava querendo encontrar? Ele tá lá, também, mas andando devagar pra saída, do lado direito, vamos logo senão não dá tempo".

Nós sorríamos. Os audiodescritores que se cuidem, vem aí concorrência forte.

por luciamaria.sp

Fonte: Outros Olhares – Um pequeno espaço para a audiodescrição e a deficiência visual

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