Blitz Sensorial

Crianças com deficiência podem fazer tudo – só precisam de uma mãozinha. Estendemos a nossa a três pequenos repórteres especiais para avaliar (um pedaço) da cidade. Elas realizaram uma verdadeira Blitz Sensorial, da acessibilidade desses lugares.

Blitz Sensorial: Ian Izidoro se diverte no Parque da Xuxa

PraCegoVer: Blitz Sensorial: Ian Izidoro diverte-se no Parque da Xuxa, em São Paulo

São 24,5 milhões. Esse é o tamanho da nossa dívida, que não tem nenhuma relação com dinheiro – é muito mais valioso. Esse número representa a quantidade de deficientes físicos brasileiros. Devíamos a eles uma avaliação, do ponto de vista de acessibilidade, de bons programas para fazer em São Paulo. E começamos por onde a vida começa: na infância.

Para cumprir a tarefa, reunimos uma equipe formada por três crianças – um cadeirante, um deficiente auditivo e um visual – acompanhados de seus pais. Foi deles a tarefa de avaliar a estrutura, as atrações e o atendimento em museus, parques, cinemas e até uma fazendinha.

Em dois meses e meio descobrimos que há poucos banheiros exclusivos para deficientes, nenhuma indicação em Libras e raríssimas atrações com audiodescrição.

Contornando barreiras como essas, juntos montamos um mapa que indica onde o caminho é livre para a diversão na cidade. E escolhemos este fim de semana, em que ocorre a Reatech – Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, para apresentá-lo. E não vamos parar por aqui. A cidade é grande e ainda há muito a explorar.

Expedição científica

No Catavento, dia 7 de fevereiro, a experiência virou brincadeira, que virou conhecimento (mas só em alguns casos), pois o desafio, cumprido com mérito, foi se divertir.

– 250 atrações, muitas delas interativas, ocupam os 8 mil m2 do Catavento Cultural e Educacional.
– 150 milhões de quilômetros é a distância da Terra até o Sol, astro cuja réplica pode ser tocada por deficientes visuais.
– 98 metros é a extensão da faixa de paralelepípedos que o cadeirante tem de (tentar) percorrer entre o estacionamento e a rampa de acesso principal.
– 8 é o número de letras da palavra peixe-boi que Wagner, de tão encantado com os animais da Sala da Vida, conseguiu pronunciar.
– ZERO foi a quantidade de funcionários que ofereceram ajuda a Bárbara e Bernardo quando foram ao Museu sem a reportagem.

Blitz Sensorial: Ian tocando o feroz tigre dente de sabre

PraCegoVer: Blitz Sensorial: Ian toca o feroz tigre Dente de Sabre
Laudo da equipe

Positivo

– Ótima estrutura física.
– Há atrações acessíveis, inteligentes, modernas e criativas.
– Além de rampas de acesso, tem dois elevadores (na bilheteria e Sala da Vida).

Negativo

– A maioria dos funcionários não está preparada para receber deficientes.
– Falta um bom intérprete de Libras entre os guias.
– Há poucas informações em braille e audiodescrição.

Mais ou menos

– Estacionamento para deficientes sem recuo para desembarque e de difícil acesso à bilheteria.
– Monitoria especial só atende a grupos de, no mínimo, 20 pessoas.
– Não há sanitários do tipo "família" para deficientes.

Pq. Dom Pedro II, s/nº, Centro, 3315-0051. 9h/17h (fecha 2ª). R$ 6. Deficientes pagam R$ 3.

Show de bola

Com três garotos na equipe, o Museu do Futebol foi vibrante, revelou um excelente time de educadores e fez do passeio, no dia 15/2, uma partida memorável

Blitz Sensorial: Sala da grande área

PraCegoVer: Blitz Sensorial: na Sala da Grande Área, a simpática educadora Simone mostrou os símbolos dos times por meio de placas com peças desmontáveis. Também foi ela quem comandou a ótima dinâmica de interação do grupo antes mesmo de entrar no museu – na qual descobrimos, entre outras coisas, para qual time cada um torcia

Laudo da equipe

Positivo

– Tem um excelente projeto, o "Deficiente Residente", em que funcionários com necessidades especiais trabalham temporariamente no museu, para ajudar a tornar as atrações cada vez mais acessíveis.
– Há dois elevadores, um deles especialmente projetado para cadeirantes.
– Não é preciso reunir um grupo para fazer o passeio dirigido a visitantes especiais (recomenda-se reservar).
– Tem audioguia.

Negativo

– Na sala dos divertidos pebolins as mesas são altas demais.

Mais ou menos

Algumas portas, entre uma sala e outra, são giratórias – o que dificulta um pouco a passagem da cadeira de rodas.

Estádio do Pacaembu. Pça. Charles Miller, s/nº, Pacaembu, 3664- 3848. 9h/17h. R$ 6 (grátis 5ª). Deficientes não pagam.

Danado de bom

O dia 21 de fevereiro, no Pet Zoo, ficou marcado pela surpresa. A fazendinha foi divertida, como se espera (teve até voo de tirolesa), e acessível como seria difícil de imaginar.

Blitz Sensorial: Ian alimenta a lhama

PraCegoVer: Blitz Sensorial: donos do pedaço, os irmãos lhama Jujuba e Juvêncio têm quatro meses, são dóceis e interesseiros. Repare só na Jujuba comendo na mão do Ian. Não conseguimos, porém, registrar o momento em que a fofa cuspiu no garoto, em protesto pelo fim da comida

Laudo da equipe

Positivo

– Dispõe de serviço de monitoria para todos os grupos aproveitarem melhor o passeio.
– O terreno é relativamente plano, com caminho de chão batido, coberto por uma fina camada de pedriscos – o que não chega a ser propriamente um obstáculo para as cadeiras de rodas.
– Tem um banheiro exclusivo para deficientes: com espaço, inclusive, para estacionar a cadeira de rodas ao lado do vaso sanitário.
– É possível tocar em quase todos os animais.

Negativo

– Não há estacionamento para deficientes. Aliás, não há estacionamento: os carros param no calçadão da fazendinha.
– Ninguém fala Libras.

Estr. de Caucaia do Alto, 4.101 (acesso pela Rod. Raposo Tavares, Km 39), Cotia, 4158-1664. Sáb. e dom., 10h/17h. Entrada: R$ 25. Almoço: R$ 33, adulto; R$ 18, crianças. Tirolesa: R$ 5.

Caverna do tesouro

Além do maior T-Rex da América Latina, vimos outras raridades no Sabina, em 23/2: espaço 100% acessível e o melhor grupo de funcionários para turmas especiais.

Blitz Sensorial: Oficina do Brincar

PraCegoVer: Blitz Sensorial: antes de assistirem à peça, na Oficina do Brincar, todas as crianças são apresentadas aos bonecos, passam as mãos neles e ouvem uma breve explicação do que será apresentado – em Libras, inclusive

Laudo da equipe

Positivo

– Do estacionamento às atrações, o local é totalmente acessível.
– Para todos os monitores e educadores foi oferecido o curso básico de Libras. Além disso, ali trabalham pelo menos três funcionários fluentes na língua.
– Todos os funcionários demonstram estar aptos a lidar com os diferentes tipos de deficiências, Eles são solícitos e sem preconceito.

Mais ou menos

– Não há sanitários do tipo ‘família’ para Deficientes.

R. Juquiá, s/nº (entrada na altura do nº 135), Paraíso, S. André, 4422-2000. 12h/18h (fecha 2ª). R$ 10 (grátis para crianças de até 5 anos).

Tipo exportação

Único museu com galeria tátil no Brasil, a Pinacoteca possui programa para públicos especiais e prova, em vários suportes, que a arte é acessível para todos.

Blitz Sensorial: Maquete do museu

PraCegoVer: Blitz Sensorial: para reconhecer o espaço, a primeira atividade é observar a maquete do museu e sua localização em relação ao Parque da Luz. No caso dos deficientes visuais, os educadores retiram a cobertura de vidro e explicam cada detalhe conforme os visitantes tocam os objetos.

Laudo da equipe

Positivo

– Tem o melhor modelo de acessibilidade cultural da cidade – e exporta este conhecimento para outras instituições, como o Museu do Futebol.
– Há o Programa Educativo Públicos Especiais (Pepe), com releituras de obras em quatro criativos recursos de acessibilidade, distribuídos em três carrinhos batizados de Pepe-móvel. Entre eles, O Caipira Picando Fumo e O Violeiro, ambos de Almeida Júnior; O Mestiço, de Portinari; e São Paulo, de Tarsila do Amaral.
– A única galeria tátil do Brasil.
– Emprega funcionários deficientes, como a monitora Sabrina, surda de nascimento, no museu há 4 anos.

Mais ou menos

– O tom sisudo da monitoria. Falta certa flexibilidade para lidar com crianças deficientes. Antes de sair de casa, vale estudar bem as dez recomendações listadas em "Dicas para sua visita", no site do museu, pois os educadores fazem questão de chamar a atenção cada vez que as crianças se aproximam de quebrar algumas das regras.

Pça. da Luz, 2, Luz, 3324-1000. www.pinacoteca.org.br. 10h/17h30. R$ 6 (grátis, sáb.). Deficientes não pagam.

Água viva

Com cascos, guizos e peles para olhar e sentir, além da experiência de "ver com as mãos" pelo menos dois animais, o Aquário surpreendeu e encantou no dia 6 de março.

Blitz Sensorial: Passagem sobre o lago

PraCegoVer: Blitz Sensorial: Bernardo ficou tão encantado com a ideia de passar por cima do lago que pediu para repetir a experiência várias vezes. Ian ajudou a empurrar a cadeira de rodas.

Laudo da equipe

Positivo

– Há sempre um monitor para acompanhar os deficientes que, normalmente, é a ótima educadora ambiental Bianca Cavalcanti, há cinco anos no Aquário.
– Há um carrinho de educação ambiental com vários elementos que os monitores oferecem para serem tocados ao longo do passeio. Entre eles, ovos e casco de tartaruga, pele e guizo de cobras, um cavalo marinho e a pele da pata de um teiú.
– Nos passeios com deficientes visuais, os monitores selecionam dois animais para serem tocados pelos visitantes. A experiência, realizada na "Copa de Manejo", geralmente é realizada com uma cobra e com um dragão barbudo.
– Há elevador de acesso ao piso dos mamíferos e ao cinema 4D.
– Tem banheiro exclusivo para deficientes.

Negativo

Não há nada em braille ou com audiodescrição.
– Ninguém se comunica em Libras, nem há sinalização nesta linguagem.

R. Huet Bacelar, 407, Ipiranga, 2273- 5500. 9h/18h. R$ 40 (R$ 20, crianças; R$ 20, toda 2ª, preço único). Cinema 4D, pago a parte, R$ 5. Deficientes não pagam.

Banquete ou aula

Acertar o ponto foi complicado, mas, no dia 10 de março, tivemos uma saborosa experiência – graças à boa vontade e ao talento da equipe dos Chefs Especiais.

Duas colheres de boa vontade e uma dose de persistência. Esses foram os ingredientes usados em nossa aula de culinária. Mas, como se sabe, ingredientes de qualidade nem sempre são fáceis de achar. Após ouvir a recusa de várias escolas (devido à inacessibilidade do espaço ou à falta de capacitação), Beth Kovesi indicou o casal Simone e Márcio Berti, da equipe dos Chefs Especiais, que dá aulas de cozinha gratuitas para pessoas com Síndrome de Down. Mesmo sem muita experiência com outras deficiências, eles toparam o desafio e ainda pediram reforço a especialistas para planejar a melhor maneira de por a aula em prática.

Até uma atividade sensorial o casal organizou para testar as limitações de cada um – e como lidar com elas. A escola Mais Gourmet cedeu o espaço e o chef Alessandro Segato topou o convite para se juntar à turma. Simone, porém, foi muito criteriosa: exigiu que o evento fosse estendido para mais três crianças. Para atender ao seu pedido, depois de encarar a burocracia de um famoso instituto para deficientes, conhecemos Patrícia, da ONG Vidas, que prontamente, indicou o cadeirante Gabriel Goloni Lolo, de 10 anos, e a deficiente auditiva Kelly Vitória Ribeiro da Silva, de 8 anos.

Para fazer dupla com Ian convidamos sua amiga Pâmera Nátali DallAgnol Rosembrá, de 11 anos. Para montar o cardápio da aula, Simone investigou os hábitos alimentares dos alunos, providenciou uniformes, ligou para as mães para instruí-las e garantiu que tudo saísse perfeito. E saiu! Pena que a próxima aula ainda não tenha data definida. O objetivo, agora, é levantar recursos para o Instituto Chefs Especiais, que esta semana ganhou sede na Praça Benedito Calixto. Só assim será possível realizar atividades com outras turminhas. Esperamos que elas possam ter a mesma sorte que a nossa – e muito em breve!

Blitz Sensorial: Misturando a massa com as mãos

PraCegoVer: Blitz Sensorial: Kelly Vitória adorou a ideia de poder mexer com as mãos.

Laudo da equipe

Positivo

– Nossas crianças também podem cozinhar – basta uma pitada de boa vontade.

Bê, de baixinho

Descabelados, suados e felizes, dia 23/3 concluímos que o Parque da Xuxa é bastante zeloso, mas precisa melhorar a acessibilidade – e tem potencial para isso.

Blitz Sensorial: Mãe e filho juntos na xícara

PraCegoVer: Blitz Sensorial: cumplicidade sobre xícaras: tem sensação mais deliciosa que sorriso de mãe e filho juntos?

Laudo da equipe

Positivo

– Plano, com boa distância entre os brinquedos, o parque é bastante acessível aos deficientes físicos.
– Tem banheiro de uso exclusivo para cadeirantes, independente dos sanitários femininos e masculinos.
– Serviço de segurança impecável: equipe especializada indica os brinquedos que os deficientes podem e não podem ir – e deixam claros os motivos.

Negativo

– Apesar de Xuxa, dona do espaço, ser a pioneira do uso da linguagem de sinais nos meios de comunicação, não há shows ou atrações traduzidas em Libras.
– Não há nada em braile ou audiodescrição.

Mais ou menos

– Marcelo Beraldo, gerente geral do parque, pediu para ouvir as impressões de nossa "equipe de investigadores" após a visita e disse que irá estudar alguma alternativa de inclusão para os deficientes auditivos.

Shopping SP Market. Av. das Nações Unidas, 22.540, Interlagos, 5541-2530. 6ª, 10h30/16h30; sáb., dom. e fer., 11h/19h. R$ 60, crianças e adultos. Deficientes não pagam.

Palhaçada (triste)

No Circo dos Sonhos, dia 29/3, o que deveria ser só alegria transformou-se em pesadelo: foi o mais inacessível dos passeios avaliados por nossa equipe

Blitz Sensorial: Palhaçada

PraCegoVer: Blitz Sensorial: as cenas dos palhaços foram as preferidas da molecada, que foi ao delírio. Principalmente do Wagner que adora uma arte.

Laudo da equipe

Positivo

– O terreno plano facilita o acesso à cadeira de rodas.

Negativo

– Não há banheiros para deficientes e para acessar o fraldário é preciso subir cinco degraus.
– Não há cadeiras demarcadas para deficientes.
– O espetáculo não tem mestre de cerimônias ou algo que valha para introduzir o espetáculo às crianças. As músicas são orquestradas (não há preocupação em utilizar canções que formem uma trilha, demarcando atos ou cenas). Aliás, não há uma única palavra no espetáculo inteiro.
– Não há nada em Libras ou audiodescrição.
– Os profissionais não estão preparados para lidar com esse tipo de público.
– Não há vagas reservadas a deficientes no estacionamento – operado por uma empresa terceirizada.

Av. Nicolas Boer, 120, ao lado do Viaduto Pompeia, 2076-0087. Sáb. e dom., 17h e 19h30. R$ 40/R$ 80 (camarote com 4 lugares, R$ 300). Até 29/7. Deficientes não pagam.

Uma prova de amor

Curtir um cineminha acessível e sem torcicolo é direito de todos. Encontrar um ambiente acolhedor é melhor ainda. Dia 8/4, no Cinesesc, encontramos tudo isso.

Blitz Sensorial: Audiodescrição ao vivo

PraCegoVer: Blitz Sensorial: acessibilidade total: para os deficientes visuais há fone de ouvido com audiodescrição ao vivo e para os deficientes auditivos, legenda open caption (infelizmente, recurso que não funciona para muitas crianças, mas é um diferencial).

Laudo da equipe

Positivo

– Palco do festival de cinema mais antigo da cidade, o Cinesesc tem eventos com audiodescrição, como o "Festival Melhores Filmes de 2012" – que há três anos conta com o sistema (e que pela primeira vez é oferecido para as crianças, este mês, no Cineclubinho). Para garantir a perfeita sintonia com o filme, a audiodescrição é feita ao vivo e todos os deficientes visuais recebem um fone para acompanhar a sessão.
Antes de cada filme, uma equipe anima a molecada com oficinas e contação de histórias inclusivas.
– O espaço destinado a cadeiras de rodas fica nos fundos, logo na entrada da sala, em um pedaço com visão privilegiada da tela.

Mais ou menos

– Para os deficientes auditivos tem sistema de legenda open caption em português. O que é muito bom, mas não funciona para crianças alfabetizadas apenas em Libras.
– Não há estacionamento para deficientes, mas há um estabelecimento ao lado do cinema.

Cinesesc. R. Augusta, 2.075, Cerqueira César, 3087-0500. Dom., 11h. Grátis. Até 29/4.

Fernanda Araujo (com reportagem de Bernardo Leal Pereira, Ian Souto Izidoro e Wagner Morais Ale) – Divirta-se

Nota do Blog: recomendamos acessar a notícia diretamente no site do jornal. Tem muitas fotos imperdíveis de cada passeio!

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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