Dublagem sim, legenda e audiodescrição também

Foi com surpresa que li recentemente em revistas e jornais sobre a tendência de se trocar a legenda por dublagem na programação da TV fechada! Pior ainda, a justificativa: a entrada de um novo público na TV por assinatura, pertencente às classes C, D e E, que prefere não "ter que ler" a legenda. Indo por partes, nada contra a dublagem, até porque somos mestres no assunto, temos excelentes produtoras e dubladores, assim como nada contra a entrada de um novo público em um mundo de mais opções de informação e de lazer! Mas caminhar para trás na questão da acessibilidade, agora que temos leis regendo o assunto, fóruns de discussão focados nas questões tecnológicas, grupos de surdos e cegos participando intensamente do assunto em redes sociais, curtindo finalmente na prática os benefícios que só eles podem mensurar?

Helena Dale em frente a um computador, usando microfone e fone de ouvido

Além disso, essa "nova tendência" vai de encontro a uma nova ordem mundial relacionada ao direito à informação, esbarrando na questão dos direitos humanos. A intenção de retirar as legendas "impede" a outro público de assistir a muitos programas, não porque "prefiram ler", e, sim, porque não têm outra alternativa, não escutam! E pagam pela assinatura do canal fechado!

Esta atitude ignora pesquisas, estudos e exemplos práticos que mostram o quanto a legenda ajuda no aprendizado da escrita. Países que privilegiam a educação pesquisaram e comprovaram que os recursos de acessibilidade são vias importantes para o desenvolvimento "de todos", inclusive dos deficientes. E passaram a adotá-lo em toda a programação.

No nosso país, onde a educação é tratada como artigo de terceira necessidade, iniciativas como a introdução do closed caption (CC) e da audiodescrição (AD) na nossa televisão, por exemplo, não mereceram uma discussão mais aprofundada pela importância que têm e pelos valores que trazem agregados. Caso contrário, não se teria cogitado de tirar legendas por conta deste "novo público" e, sim, intensificar seu uso para que esse novo público passe a "preferir ler".

Em resumo, a falta de seriedade e discussão sobre o assunto o faz ficar num patamar superficial e paternalista, obedecendo à "lei do mais fácil". E essa visão paternalista é, inclusive, responsável por criticar a legenda nos meios audiovisuais para o surdo, entendendo que seria mais fácil a sua compreensão através da língua de sinais.

Sim, seria mais fácil para ele, surdo, para seus professores e todos os envolvidos com esse indivíduo não precisar ensiná-lo a ler e a escrever. Seria também mais fácil, para a criança ouvinte, não ter que aprender a ler e escrever, mas apenas falar.

Como é possível partir de uma expectativa tão baixa e negar um potencial que existe em cada surdo. Sabemos que podem ler e escrever, se lhes for oferecida uma oportunidade de qualidade, assim como sabemos que a legenda é um recurso fantástico capaz de estimular e aprimorar a leitura. Sabemos também da importância da língua de sinais como a primeira língua do surdo, já reconhecida nacionalmente no nosso país. Mas querer negar ao surdo a possibilidade de ler, quando jornais, computadores, televisão, revistas, livros, enfim, uma infinidade de meios de comunicação se utilizam da escrita?

Quem tem algum conhecimento ou vivência no assunto sabe que o surdo enfrenta obstáculos para aprender a ler, e que esses são tão maiores quanto menores forem os estímulos recebidos. Mas sabemos também que ele tem potencial e que consegue, sim, aprender a ler e a escrever, condição fundamental para ser independente e cidadão sem intermediário! E a legenda pode ser um coadjuvante fundamental neste processo.

A legenda na televisão ajuda no aprendizado da escrita. Surdos podem ler e escrever se tiverem uma oportunidade.

por Helena Dale [*]

[*] Helena Dale é fonoaudióloga

Fonte: Conteúdo Livre

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