Sutilezas da audiodescrição

O depoimento sobre as sutilezas da audiodescrição da professora britânica com baixa visão, Hannah Thompson, criadora do blog BLIND SPOT, que transcrevo abaixo, revela o quanto a audiodescrição acrescentou à sua experiência cinematográfica e paixão pelos filmes. Ao lê-lo no site da Fundação Neozelandesa para Cegos, Royal New Zeland Foundation of the Blind, lembrei-me de experiências já vivenciadas com algumas pessoas com deficiência visual que rejeitaram os fones em óperas ou peças teatrais, talvez por desconhecerem o recurso e por pensarem que a audiodescrição pudesse atrapalhar a apreciação do espetáculo.

As Sutilezas da Audiodescrição: Duroy: personagem do filme Bel-Ami

Publico, então, o depoimento de Hannah, com a autorização da autora com a qual troquei alguns emails. Neles, ela também fez alguns comentários sobre o site/blog VER COM PALAVRAS, destacando a audiodescrição em casamentos, o que ela nunca tinha ouvido falar ou pensado a respeito. Convido-os, pois, caros leitores, a surpreenderem-se com o depoimento abaixo e a perceberem o encantamento de Hannah pelas sutilezas da audiodescrição.

“Na noite passada, eu assisti a um filme pela primeira vez na minha vida. Eu já fui ao cinema centenas de vezes e já assisti milhares de vídeos e DVDs, mas ontem eu compreendi o que realmente significa assistir a um filme.

Nós deixamos os meninos com a avó e pegamos nossa bicicleta tandem (bicicleta de dois lugares) para ir ao cinema assistir ao filme Bel-Ami. Quando eu estava reservando os ingressos, eu percebi que a sessão tinha audiodescrição (os filmes no Cine Odeon têm audiodescrição em todas as sessões, mas quem sabia disso???) Nunca tinha ocorrido de me preocupar com a audiodescrição antes. Afinal, eu podia ver mais que o suficiente para ter um bom índice de aproveitamento e entretenimento com os filmes e eu tenho assistido, dado aulas e escrito sobre eles nos últimos anos. O que a audiodescrição poderia me dar que eu ainda não tinha?

Resolvi, então, que poderia dar uma chance, nem que fosse somente para escrever sobre o recurso no meu blog. Quando o lanterninha me entregou os fones de ouvido, eu me perguntei se a audiodescrição não seria mais um desperdício de tempo e dinheiro politicamente corretos.

Eu não poderia estar mais errada. Ouvir mais detalhes enquanto eu estava assistindo ao filme, foi uma experiência extremamente enriquecedora. E aconteceu de uma forma discreta, informativa e atraente. E me fez perceber que há três elementos em filmes que eu venho perdendo.

Em primeiro lugar, o audiodescritor informou prontamente quem eram os personagens. A primeira vez que um personagem apareceu, ele foi apresentado de uma forma suave e informativa: um homem jovem entra em um bar lotado ou uma mulher de aparência cansada sobe as escadas. Até aqui, parece óbvio, mas nas próximas cenas, os personagens foram prontamente nomeados e situados: Duroy está sentado no escritório de Forestier; Clotilde está deitada nua na cama, no ninho de amor. Isso me ajudou enormemente a superar o meu maior problemas com filmes. Assim como na vida real, eu tenho dificuldades para reconhecer as pessoas quando elas reaparecem em um contexto novo ou diferente, especialmente quando elas trocaram suas roupas ou mudaram seus penteados. O filme Bel-Ami apresenta muitos homens bonitos, elegantemente trajados com casacas exatamente iguais, no estilo francês do século XIX. Sem aquela voz amigável cochichando seus nomes no meu ouvido, eu teria passado o filme todo sem saber distinguí-los.

Em segundo lugar, a audiodescrição foi extremamente útil para chamar a atenção para detalhes aparentemente sem importância. Sem ela, eu não saberia que Clotilde gostava de ter uma cereja em seu drink e que Duroy chorou quando Forestier morreu. A audiodescrição não é necessariamente sobre a imagem mais importante e não tem, muitas vezes, tempo para recontar o que é verdadeiramente insignificante, mas ela se detém em detallhes que são difíceis de ver e que acrescentam profundidade e sentido ao filme.

O terceiro e mais esclarecedor benefício da audiodescrição foi muito mais sutil. Eu fiquei impressionada em perceber que o audiodescritor prestava bastante atenção em como as pessoas se comunicavam sem palavras, particularmente com os olhos: Duroy olha para Madeleine com uma mistura de culpa e ressentimento; os olhos de Clotilde faiscam com ódio e desprezo. Eu nunca fui muito boa para interpretar as expressões faciais e nem ao menos tento fazer isso, no meu dia a dia. Eu julgo o humor das pessoas pelo som de suas vozes e pela forma como se comportam. Então, eu fiquei supresa em descobrir o quanto que as expressões faciais podem nos dizer sobre as pessoas. Eu realmente não tinha idéia que as expressões faciais eram tão importantes e que as pessoas podiam passar mensagens daquela forma. Comecei a pensar em quantas conversações silenciosas eu já havia perdido por nem mesmo saber que elas podiam acontecer. A audiodescrição não é um item menor, sem importância na legislação de acessibilidade. É sim um complemento altamente sofisticado para a experiência fílmica, que tem o potencial de se tornar uma forma de arte. Ela tem sido inteligentemente elaborada por pessoas que conhecem as partes da cultura visual que são particularmente incompreensíveis para as pessoas cegas e com baixa visão. As expressões faciais são descritas não somente porque elas não são vistas pelas pessoas com deficiência visual, mas também porque a sua importância é difícil de ser entendida. A audiodescrição não informa somente o que está acontecendo no filme, ela informa também como as pessoas que enxergam usam seus olhos para participar de uma conversa sem palavras.
Quando nós saimos do cinema, eu me senti estranhamente perdida. Eu já estava sentindo falta de meu amigo invisível contando-me sobre o mundo imagético por meio dos fones de ouvido. Como seria esclarecedor, eu pensei, se a audiodescrição existisse também na vida real e não somente em filmes….

Por Lívia Motta

Fonte: Ver com Palavras

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