Preferência do público e mudança prevista em lei incentivam o aumento da dublagem na TV paga

Com a chegada da TV por assinatura, na década de 1990, um dos benefícios anunciados pelas emissoras eram os filmes legendados, com o dito "som original". Recentemente, já em meio à febre dos seriados, veio a surpresa: os canais pagos começaram a aumentar a programação dublada. Como na TV aberta, o formato tende a se tornar o padrão de filmes e seriados.

Foto-montagem apresenta em primeiro plano a mão de um homem segurando um controle remoto; ao fundo, um televisor exibe cena de filme legendado

O fenômeno do aumento da dublagem também vai ao encontro da legislação que obrigará a televisão a oferecer recursos de acessibilidade até 2017. O debate ganhará espaço especial no Fórum Brasil de Televisão, um dos maiores eventos das TVs aberta e paga brasileiras, que será realizado entre hoje e amanhã, em São Paulo.

A mudança vinha sendo orientada pelo perfil da classe C, principal responsável pelo aumento do número de assinantes. Entretanto, os canais se baseiam em um outro dado revelador, confirmado por um estudo do instituto Data Popular: 49% da classe AB preferem filmes estrangeiros dublados. Some-se isso à preferência de 76% por filmes dublados entre a classe C, e o português voltou à boca dos atores e apresentadores estrangeiros.

– Estamos em um país com o fenômeno da alfabetização funcional, com pessoas que leem, mas não compreendem, ainda mais na velocidade da legenda. Temos ainda as crianças e os idosos, que são significativos como públicos em que a legenda é impeditiva – analisa Cristiane Finger, professora de telejornalismo da PUCRS.

Se a tendência seguir, a possibilidade é que as legendas, quando oferecidas, sejam disponibilizadas apenas como uma opção ao alcance do controle remoto. A rede de filmes Telecine dá exemplos de que a legendagem perdeu espaço na TV paga. Dados do Ibope mostram que, seis meses depois de aderir à dublagem, a audiência do canal Telecine Action subiu 47%, escalando seis posições no ranking do horário nobre. A classe C aumentou em 61% sua presença naquela faixa de horário.

– Nossas pesquisas comprovam que os títulos na versão dublada agradam aos assinantes e já têm um público fiel. O Telecine Pipoca (dublado) também foi, em 2010 e 2011, o canal mais assistido da rede entre pessoas de classe AB com mais de 18 anos – diz Flávia Hecksher, gerente de marketing do Telecine.

Segundo ela, a transição colocada em prática nos últimos dois anos teria ajudado a influenciar a mudança de hábito de antigos espectadores:

– Nossos canais são para toda a família. O interesse em programação dublada é percebido hoje em todas as classes sociais e faixas etárias. Os assinantes estão muito mais à vontade para dizer que gostam de filmes dublados.

A crescente preferência pela dublagem também pode ser explicada pela nova relação entre audiência e TV: o comportamento multitarefa, no qual o espectador divide sua atenção entre a televisão, o computador e outras tecnologias.

– Precisamos considerar o fenômeno da segunda tela, com as pessoas vendo TV conectadas na internet. É por isso que a classe AB não rejeita de todo a dublagem – analisa Cristiane.

Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular, complementa:

– A TV faz parte da dinâmica da casa. Muitas vezes, é ouvida e não só assistida. Quando se faz muitas coisas ao mesmo tempo, você não pode estar com o olhar só na TV. Além da velocidade da leitura, a legenda impede que a pessoas façam outras coisas quando estão vendo televisão.

Dados do Data Popular sugerem que a TV paga ganhará, em pouco mais de 10 anos, cerca de 12,8 milhões de assinantes da classe C. A expectativa é que a penetração nessa classe deva se igualar à das classes AB. Ambos os segmentos poderão seguir unidos na preferência pela dublagem, ou procurando no controle remoto a melhor forma de assistir à programação:

– Teremos um consumidor menos passivo e mais interativo. O que se aposta é na convergência, passando a decisão para o receptor – opina Cristiane Finger.

Mais recursos de acessibilidade

Até 2017, os canais passarão por mudanças que vão além da dublagem. A Portaria nº 310, publicada no Diário da União de 27 de junho de 2006, prevê que, gradativamente, os canais passem a oferecer, em toda a programação diária, "legenda oculta" (closed caption), "janela com intérprete de Libras", "dublagem" e "descrição e narração em voz de cenas e imagens" (audiodescrição).

Paralelamente ao crescimento da dublagem e suas consequências, a portaria será um dos assuntos do Fórum Brasil, no painel "Legendagem, dublagem e recursos de acessibilidade". A discussão será, do ponto de vista econômico, sobre os custos envolvidos nas mudanças, já que somente a dublagem, por exemplo, costuma ser de quatro a seis vezes mais cara do que a legendagem.

– As TVs deverão oferecer esses recursos de forma progressiva e escalonada até que se chegue a 100% da programação. Por isso, além da dublagem, já estamos tendo também um incremento da solicitação de closed caption por conta da obrigatoriedade da disponibilidade de recursos de acessibilidade na TV brasileira – comenta Marcelo Camargo, da empresa de dublagem e legendagem Drei Marc e um dos participantes do painel.

Além de acompanhar a preferência do público e a adequação à legislação, a popularização da dublagem na TV paga também demonstra o gradual interesse da televisão em dar conta da diversidade brasileira. Se antes a dublagem tentava traduzir um país de forma homogênea, hoje já procura dar conta dos diversos sotaques.

– Percebemos que já há essa busca pelos sotaques regionais, locais… Isso tem muita sintonia com o acesso das classes mais populares à TV paga. É a busca pelos sotaques do jeito que o Brasil verdadeiramente fala. Como a manifestação do Brasil regional e das outras classes sociais já está nas novelas, é natural que a TV paga tente acompanhar e oferecer – opina Mauro Garcia, da produtora CineBrasilTV e um dos participantes do painel

Fonte: Jornal Zero Hora

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