Exposição e palestra no Museu de Arte Moderna da Bahia

O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) realiza, nesta sexta-feira (17/08), a palestra "Acessibilidade nas artes visuais e audiovisuais", com Eliana Franco, docente do Instituto de Letras da UFBA, especialista em Tradução Audiovisual e coordenadora do grupo de pesquisa TRAMAD.

Museu de Arte Moderna da Bahia

O evento, que acontece no Cinema do MAM-BA, às 15h, traz como foco a audiodescrição (AD), recurso que proporciona às pessoas com diversos graus de deficiência visual e intelectual o acesso a filmes, peças de teatro, espetáculos de dança, exposições e outros eventos que têm a imagem como base de interpretação e compreensão.

No MAM-BA, a audiodescrição será utilizada na exposição "Jorge Amado e Universal" durante parte do mês de outubro, proporcionando o entendimento da mostra – composta, por exemplo, de fotografias, folhetos de cordel, livros e objetos que contam a história do escritor baiano.

As visitas guiadas com audiodescrição serão realizadas por profissionais especializados do grupo de pesquisa TRAMAD (Tradução, Mídia e Audiodescrição), da UFBA, com a descrição em áudio das obras no período de 1 a 14 de outubro (terças, quintas e sábados), das 16h às 18h, nos espaços expositivos (Casarão Térreo, Capela e Galeria 1).

Confira a *entrevista com Eliana Franco:

MAM-BA: Como é feita a descrição em áudio?

Eliana Franco: A audiodescrição ou AD é feita em etapas e depende do modo como será apresentada. Por exemplo, na AD pré-gravada, ou aquela para filmes e programas que não acontecem ao vivo, recebemos uma cópia do produto audiovisual que nos servirá de modelo para que o audiodescritor-roteirista elabore a descrição das imagens com tempo de entrada e de saída. Esse roteiro é levado ao estúdio para gravação por um audiodescritor-locutor e para a mixagem com a trilha sonora do filme ou programa original. Já na AD ao vivo, ou para espetáculos de dança, peças de teatro, recebemos um vídeo do material a ser audiodescrito, de onde a primeira versão do roteiro de AD é escrita, para ser finalizada após assistirmos aos ensaios finais da peça ou dança. Em conferências, onde a AD ao vivo é feita do material das apresentações, pedimos o material aos palestrantes com antecedência, mas ele raramente é enviado antes da conferência começar. Na AD ao vivo, o audiodescritor-locutor fica na sala de som e luz de um teatro ou numa cabine fazendo a locução do roteiro já pronto. Em todo o roteiro, partimos da ideia de que você tem que descrever o que vê, que significa que deve evitar informação extra desnecessária ou interpretação e resumo deliberada do conteúdo para o entedimento do público. O público-alvo da AD deve fazer suas próprias inferências e chegar às suas próprias conclusões, assim como o público vidente. O diálogo e efeitos sonoros não devem ser sobrepostos com a descrição, idealmente. E mais importante, todas as ADs devem ser revisadas por um consultor com deficiência visual.]

MAM-BA: Qual a importância disso para os deficientes?

Eliana Franco: Enorme. Imagine quantos filmes e peças que já vimos cujas principais cenas se desenrolam apenas pela linguagem visual? Como fica o público que não enxerga ou que enxerga mal nesses momentos de construção do significado apenas por imagens? A audiodescrição preenche essa lacuna no filme, tornando a narrativa acessível e compreensível em sua totalidade. No caso da dança e de uma exposição, a contribuição da AD é ainda maior, pois não há um diálogo em que o público possa se basear para fazer sentido das lacunas criadas pelas imagens não audiodescritas. Produtores e curadores devem entender que a disponibilização da audiodescrição de suas obras não é um bem apenas para o público-alvo, mas um bem para a própria obra que será prestigiada por um número muito maior de pessoas. É uma via de duas mãos, sem falar que acessibilidade é lei. Além dos cidadãos com deficiência visual, a audiodescrição também beneficia aqueles com deficiência intelectual, como tem mostrado recente pesquisa do grupo TRAMAD, que coordeno, com alunos da APAE de Santo Amaro da Purificação. Para esses alunos, a audiodescrição parece esclarecer pontos obscuros ou ambíguos das narrativas visuais e audiovisuais. Assim, além dos deficientes visuais, a audiodescrição promove a inclusão social e cultural de um número muito maior de pessoas, e isso é muito importante para uma sociedade que se diz inclusiva.

MAM-BA: Quais são os cursos disponíveis para quem quiser trabalhar com a audiodescrição?

Eliana Franco: Cursos em audiodescrição acontecem como cursos de extensão em universidades, como na UFBA, na UFMA e na USP. Há também cursos em AD que são parte de cursos de especialização em tradução audiovisual, como aquele promovido pela UECE, há também cursos na UFPE. Outros cursos com caráter menos acadêmico são os que acontecem nas instituições de cegos, como o da Dorina Nowill e da Laramara, ambos em São Paulo. A pessoa que quer trabalhar com audiodescrição tem que sair em busca, fazer o maior número de cursos possível, especializar-se sempre.

MAM-BA: Quais características (pré-requisitos) deve ter este profissional?

Eliana Franco: Em primeiro lugar, ter um ótimo conhecimento da língua portuguesa, pois a especificidade das palavras é valiosa para poder escrever um bom roteiro, dada a limitação de tempo entre diálogos ou no audioguia de uma exposição, por exemplo. Outro pré-requisito desejável é que você conheça a linguagem com a qual está trabalhando. Isto é, se audiodescreve filmes, que tenha o mínimo conhecimento da narrativa audiovisual, como movimento de câmera; se audiodescreve uma exposição de pintura, que tenha o mínimo conhecimento da narrativa visual, do estilo do artista. O audiodescritor deve, no mínimo, ser um curioso e bom pesquisador sobre o que audiodescreve, assim como todo tradutor. Finalmente, o audiodescritor deve saber trabalhar sob pressão, pois geralmente temos pouco tempo para escrevermos um bom roteiro.

MAM-BA: Como vai ser feita a audiodescrição na exposição?

Eliana Franco: Diferentemente de filmes, peças e danças, exposições apresentam imagens estáticas, com as quais o visitante pode interagir ou não. A audiodescrição de exposições pode ser pré-gravada, inserida nos audioguias, que são acessados através de aparelhos de MP3 que o visitante recebe ao entrar no espaço expositivo, assim como qualquer vidente quando visita uma exposição. O diferencial aí é o adicional da audiodescrição da obra. No caso da exposição de "Jorge Amado e Universal", faremos a audiodescrição ao vivo, ou seja, cada grupo de 10 pessoas com deficiência visual será acompanhado por um audiodescritor que, além das informações que todo vidente recebe, como ficha técnica, ele descreverá a obra exposta. Com isso, esperamos proporcionar para o público com deficiência visual uma vivência inédita de uma exposição aqui em Salvador e, em última instância, contribuir para a formação do público com deficiência visual e intelectual para os museus.

* entrevista realizada por Maiara Rocha

ACESSIBILIDADE NAS ARTES VISUAIS E AUDIOVISUAIS

Convidada: ELIANA FRANCO
Dia: 17 de agosto, sexta-feira
Horário: 15h às 17h
Local: Cinema do MAM-BA
Entrada gratuita

Visita Guiada – AUDIODESCRIÇÃO: Exposição Jorge Amado e Universal

Período: 01 a 14 de outubro, nas terças, quintas e sábados
Local: Casarão Térreo, Capela e Galeria 1 do MAM-BA
Horários: 16h às 18h
Atividade Gratuita
Endereço: Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM-BA, Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão, Salvador, Bahia

Fonte: Museu de Arte Moderna da Bahia

Mais sobre audiodescrição
Como parte da programação da Semana Inclusiva, o CineSesc oferece oficinas sobre acessibilidade em espaços
A PUC Goiás e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas abriram oficialmente
Na próxima terça-feira, dia 14 de março, às 18h, o site do projeto Diversidade na


Mais sobre audiodescrição
Como parte da programação da Semana Inclusiva, o CineSesc oferece oficinas sobre acessibilidade em espaços
A PUC Goiás e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas abriram oficialmente
Na próxima terça-feira, dia 14 de março, às 18h, o site do projeto Diversidade na